St. Petersburgo-Rússia

 

São Petersburgo!!!

Ana Maria Tavares

São Petersburgo  abraça, acolhe… Já disseram que é a mais estranha das cidades russas, que nenhuma delas tem uma vida tão secreta, tão cheia de lendas e dramas como ela. Procurei fugir das comparações. Não, ela não é igual à Paris de luz, nem à Londres enevoada ! Não, ela não tem nada a ver com Nova York, nem com Roma e Madri, nem com Istambul, nem com Praga, nem com Casablanca. Ela é única e ainda guarda  mistérios dos miseráveis personagens de Crime e Castigo de Dostoievski, dos contos de Tchecov e Gorki. Estremeci quando  passei na fortaleza Pedro e Paulo, foi lá que estes autores ficaram presos, por transgredirem  e atiçarem os leitores contra o regime político vigente.

Esplêndida! Cortada, docemente, pelo rio Neva, espalha-se em ilhas que se interligam por pontes. Larguíssimas avenidas. Arquitetura dominada por cores suaves, prédios, elegantemente, alinhados em altura. Noites brancas encantadoras e intrigantes, duram de maio a julho. Você vai querer ver todos os palácios dos reis, todas as igrejas deslumbrantes, com cúpulas douradas ou coloridíssimas. Vai querer ficar horas diante  da igreja do Sangue Derramado, estranho nome, devido ao sangue  de Alexandre II, aí assassinado.São arrebatadoras as cúpulas de esmalte de joalheria e ouro, remetem a sorvetes coloridos.

Sim, Hermitage, parada mais que obrigatória, imenso! Verde claro, branco e dourado! Deve ter mesmo mais mil e setecentas portas e janelas e três milhões de peças, quem duvidar que conte… coleções de rei para rei…  para quem pode passar 3 meses indo lá todos  os dias e admirá-las ! Imensas aglomerações diante do quadro “A Virgem e a Criança”, de Leonardo da Vinci. Multidões, embasbacadas, diante de  Ticiano, Rafael, Caravaggio, Michelangelo, Goya, Rubens, Van Dyck, Rembrandt, Velasquez etc. Pensei que as centenas de lustres de ouro, gigantes e o fuso horário de seis horas para o Brasil estavam me fazendo ver coisas… Não, não estava… é  verdade que os milhares de objetos de decoração de Catarina, a Grande possuem desenhos fálicos… Aliás, as biografias da grandona, falam que ela era insaciável, leiam sobre  seu  amante Orlov e concluam que ele não é  vodca Orlof. .

Emocionei-me com a escultura do Voltaire, dominando  a sala imensa que homenageia  pintores, pensadores e escultores  franceses, a grande estátua de Voltaire domina, merecidamente, a cena. Sei  que Catarina, a Grande, a Gigante, manteve o preço pra você, não foi, amigo Voltaire? Alguns pensam, até hoje, que as cartas que vocês trocavam, eram para falar de filosofia dos déspotas esclarecidos… e que a compra de parte de sua obra foi para  enriquecer a biblioteca do palácio… Ah, meu amado filosófo,  suas pequenas  frases aqui e ali de aprovação ao marido da majestosa,   o golpista Feodoravich  valiam ouro em pó… você se  vendeu, estava endividado… Mas para mim, nada  abalou, considero você o melhor filósofo iluminista francês, point à la ligne!

Foi, desde a escada de Joubert, e  dos milhares  lustres de ouro espalhados, insolentemente no museu, que entendi o porquê da queda dos czares. Bem feito! Ostentação permeia  igrejas e catedrais. A de Santo Isaac, e múltiplas  catedrais  confirmam que havia muito fausto para uns, e faltava tudo para os outros. Pontinhos para a luta  dos camaradas russos!

Moscou, Mockba, não me disse quase nada. Cansaço da viagem? Sim, vinha da Suécia e de Tallinn na Estônia. Pela Russianlin, cheguei a São Petersburgo, num avião Bombardier vermelho, pequeno e lindo! Cheguei a Moscou  de trem comparável  ao T.G.V. francês.

P.S. Este artigo é da minha amiga Ana Tavares, professora de francês aposentada da Casa de Cultura Francesa e da UECE- Universidade Estadual do Ceará. Ela também ama escrever e viajar, por isso a convidei a ocupar este espaço com as suas lembranças de viagem e opiniões a partir da última viagem realizada por ela em junho de 2017.

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