Diários do Canadá: Quebec 9

Diários do Canadá: Quebec 9

Hoje é 24 de outubro de 2017, terça-feira, último dia em Quebec. Vamos visitar o Museu das Ursulinas, ordem religiosa de ensino mais antiga do Canadá, na Velha Quebec. Localiza-se à rua Saint Louis, 34. Os jardins do convento datam de 400 anos e são abertos ao público no verão.  É digno de nota dizer que a coleção de livros raros pode ser consultada sem pagamento.

Marie Guyart de L´Incarnation casou aos 17 anos, enviuvou aos 19 e quando o filho tinha 12 anos, ela o entregou à família e foi para o Convento em Tours-França. Seu sonho era vir para a Nova França em 1633 a fim de catequizar garotas nativas para os jesuítas. Morreu em Quebec em 1672. Foi canonizada pelo Papa Francisco em 2014.

Falemos no museu. Valeu cada centavo dos 10 CAD (dólares canadenses), afinal aprendi muito. A sala de bordados feitos entre 1600 e 1700 é impressionante. O talento das Ursulinas ficou conhecido ainda na virada do século XVIII. A principal bordadeira era Marie Lemaire des Anges (1641-1717). São freiras de claustro. Combinavam a vida na comunidade, oração e educação de jovens mulheres. Essas ficavam no internato e estudavam juntamente com quem queria ser freira.

O período de adaptação de postulante a noviça durava pouco tempo. Para se tornar noviça, existia uma cerimônia pública para a família e amigos e era chamada de “tomar o véu”. Elas entravam vestidas de noiva, cantando salmos e hinos. A cerimônia que vinha do século XVII era muito bonita. A Madre Superiora colocava o véu preto na cabeça de cada noviça e elas se tornavam Ursulinas com bênçãos. O véu simbolizava o divórcio do mundo e das vaidades. Para tomar os votos levava quase dois anos.

Profissão das Ursulinas: esposa de Cristo. Seguem as regras de Santo Agostinho: vida enclausurada com os votos solenes de pobreza, castidade e obediência.

As irmãs laicas, conhecidas como “minha tia”, eram como mães para as internas. Preparavam as refeições e cuidavam de várias áreas comuns, como refeitórios, dormitórios e salas de aula. As “ma tantes” ocupavam um lugar especial no coração das meninas.

Dentro do internato, as jovens viviam em silêncio até no refeitório; acordavam às 5.30 h; nunca ficavam sós; escreviam para as famílias de dois em dois meses como forma de aprender a arte da escrita. As cartas passavam pela Mistress-General (uma supervisora) para aprovação. As internas estudavam bordado, pintura, música (o piano era rei), desenho, escultura, canto etc. Também estudavam física, química, matemática de forma prática, conceitos úteis para usar em casa, astronomia, história, história natural, geografia, literatura clássica, retórica e filosofia. Além das línguas francesa, inglesa, espanhola e italiana. Uma educação herdada da tradição humanista desenvolvida na Europa. Todo esse estudo não era para torná-las intelectuais, pois a mulher ainda era destinada para o casamento e a família no séc. XIX.

Em 1968, o internato virou uma escola regular. Gostei imensamente de saber mais sobre a história do lugar.

Saímos do museu a ponto de ir ao restaurante que já havíamos marcado anteriormente. Era para celebrar a última noite em Quebec. Aux Anciens Canadiens, situado à rua Donnacona, 12. Eis o nome do restaurante de culinária “québécois” bem procurado e frequentado, principalmente, por americanos. Vejam: o cardápio do almoço tinha um preço, o do jantar depois das 18 h era o dobro. Como para o almoço estava cheio, decidimos por um horário diferente: das 17 às 17.45. Que tal? 45 minutos para entrar e comer pelo preço de 19.95 CAD por pessoa (não esqueçam as duas taxas mais 15% do garçom…). Meu pedido foi: entrada-sopa; principal refeição-peito de frango com fricasse de legumes em cima de uma massa folhada; de sobremesa-sorvete de morango. O Carlos pediu pudim de pão de bordo (maple bread pudding). O que posso dizer? Estava bom, embora a sopa nem se compare com as nossas fortalezenses. Valeu a experiência.

Saímos de lá e fomos passear nos arredores da Velha Quebec, pra variar. O hotel Chateau Frontenac nos atraía todos os dias. Depois voltamos ao hotel para arrumar as malas.

No próximo artigo, escreverei sobre a viagem Quebec-Toronto de trem.

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