Argentina – Salta – San Antonio de los Cobres e Tren a las Nubes – primeira parte

Argentina – Salta – San Antonio de los Cobres e Tren a las Nubes – primeira parte

Hoje é dia 25 de outubro de 2018 e faremos o percurso mais inesquecível de Salta. Vamos passear no mais famoso atrativo turístico do noroeste argentino: o Tren a las Nubes! Subiremos a Cordilheira dos Andes e nos aventuraremos por paisagens secas, de pouca vegetação, onde a árvore mais encontrada é o cacto gigante, símbolo da região. Este passeio ocorre às terças, quintas e sábados, de abril a novembro. Antigamente o trem ia de Salta até o viaduto La Polvorilla, hoje não, vai somente de Santo Antônio até o viaduto, um percurso de 15 km. San Antonio de los Cobres dista 168 km a noroeste de Salta.

Compramos a excursão na agência Tintikay na Calle Caseros, 404 por $3.420,00 pesos por pessoa.  É caro, mas vale cada tostão. Viemos andando do hotel Solar de La Plaza pela Balcarce até a estação de ônibus, que fica esquina com a Calle Ameghino em frente à praça Antofagasta. São umas três quadras longas, estava frio e escuro, e tínhamos que estar lá às 6.30 da manhã. O ônibus sai às 7 h e faz ligação com o trem em Santo Antônio. Eis os Serviços Ferroviários Turísticos. Voltaremos às 20h. Dia pleno de tanta beleza da Cordilheira dos Andes.

Na estação de ônibus, entramos em uma fila para mostrar o voucher (recebido na agência) e a identificação. Em outra fila, recebemos a pulseira com a cor do ônibus. O nosso era o vermelho. Havia outros que saíram juntos. A guia muito simpática e eficiente se chamava Cristina Carrizo e o motorista Cristian. Cristina, aquele abraço! Há uma enfermeira em cada ônibus e uma ambulância seguindo. Achei genial. Afinal, tem turista que passa mal no trajeto com dor de cabeça, estômago etc.

Cheguei à estação cansada, pois o esforço exaure pela altura (1.187 m). Deixo a folha de coca na boca para amenizar. Na estação há pessoas vendendo chá, folha e bala de coca.

Entramos no coletivo. Bom ser ônibus normal e não van, menor. Chama atenção a altitude: El Alfarcito (2.800 m), Santa Rosa de Tastil (3.100 m), San Antonio de los Cobres (3.775 m), e o viaduto de La Polvorilla (4.200 m).

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Eu na placa da Ruta Nacional 51 perto de Alfarcito-Salta-foto tirada por Carlos Alencar

Seguimos em direção oeste pela Ruta 51 até San Antonio de los Cobres, a cidade mais alta da Argentina. A primeira parada é em Campo Quijano, onde havia uma moça vestida com traje de carnaval para o desfile momino “Comparsa Premiada”, ao lado de um trem histórico. Tiramos foto com ela e ali mesmo havia uma feirinha com comidas típicas, como tortilhas, e artesanato. A segunda parada foi em El Ceibo. Aliás, nome da flor nacional, vinda de árvores floridas da cor vermelha.

Vemos as estruturas ferroviárias nas montanhas abandonadas. Uma lástima! Muitos povoados dependiam dos trens. Aliás, o país teve um grande desenvolvimento a esse respeito. Foi o único país da América do Sul a fabricar material ferroviário.

Acerca das montanhas vistas, são verdes, porque os ventos passam pela região e muitas delas são espetaculares com suas cores diversas. Os álamos marcam as propriedades rurais de forma bonita de se observar. As famílias trabalham com queijo, cabras, vacas e agricultura. Plantam pêssego, maçã, pera, damasco e milho. Usam energia solar. Estamos a 2.500 m de altitude. 

Outra parada foi em Gobernador Solá que, além de ter as montanhas coloridas, da mesma forma tem o cemitério. A altitude é de 2.556 m. Há um controle de Gendarmeria, ou seja, da polícia no município. 10 voluntários argentinos foram convidados a mostrar os documentos.  Detalhe: na viagem só havíamos nós de brasileiros, todos eram argentinos. Eles sempre muito queridos (uma senhora no ônibus queria praticar o português conosco, uma graça!). Eles realmente se interessam por nós.

Em El Alfarcito (2.800 m), a companhia nos ofereceu um café da manhã campestre na localidade da escola do padre Chifri. Faz parte do pacote: café e chá de coca, e um saquinho de papel com pães salgados e doces.

A fé dos moradores mantém vivo o sonho do padre Chifri e a tradição na feitura de artesanato. Lá se destaca a Festa da Papa Andina que reúne habitantes de diversas comunidades da Quebrada del Toro. O rio Toro depende das chuvas, são aguaceiros que começam de novembro a fevereiro. Nas montanhas ao redor há avalanches.

Falando um pouco sobre o afamado e estimado padre Chifri (1965-2011). Nasceu em Buenos Aires, mas era sacerdote em Rosário e Lerma. Iniciou um trabalho com a sociedade de El Alfarcito para integrar 22 comunidades. Criou uma escola primária e secundária para crianças indígenas da região. É moderna e usa painéis solares. O padre fez muito pela comunidade. Os alunos moram na redondeza com suas famílias, a escola foi uma invenção do padre no meio do nada. Incrível! O tíquete do trem ajuda a Fundação do Padre Chifri. Na capela São Caetano está a tumba dele e também há o memorial com fotos da sua vida. Interessante que ele via os paroquianos de lugares distantes nas montanhas de parapente. Certa vez caiu e se quebrou todo, mas sobreviveu. Infelizmente, morreu do coração um tempo depois. O seu sonho, afortunadamente, continua. A diretora do colégio vem de Buenos Aires. Trata-se de um projeto bem conceituado no país.

As 11.30 h chegamos a Santo Antônio dos Cobres (3.775 m) ao pé da montanha Terciopelo. A cidade foi nomeada assim, por conta de ser um antigo acampamento mineiro. Eram minas de cobre e prata que existiam em seus arredores na época de sua fundação. Atualmente, não são mais tão importantes para a economia, embora ainda existam muitas empresas mineradoras atuando na região. Salta proibiu a extração de minerais metálicos. As casas são de adobe, ou seja, feitas para o deserto, e as ruas são de terra. O solo é pobre. Os moradores têm clara ascendência indígena. A popularidade do povoado cresceu devido ao trem que traz turistas e à proximidade do viaduto La Polvorilla. Estamos na Quebrada del Toro e faz frio na montanha. Não se deve correr, nem fazer esforço e só respirar pelo nariz. A amplitude térmica é grande. Na Cordilheira dos Andes deste lado veem-se pontos nevados. São 90 milhões de anos de existência.

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Estacionamento dos ônibus em San Antonio de los Cobres. Lá estava um vendedor de artesanato com sua lhama-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado

A cidade pequena tem escolas, movimento, quartel do Exército, com poucas opções de restaurantes. Lugarzinho ermo, mas muito original. Imperdível!

Continuaremos com a viagem de trem no próximo artigo.

 

 

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