Argentina – Salta – Museu MAAM (Museu de Arqueologia da Alta Montanha)
Hoje é dia 24 de outubro de 2018. Viemos conhecer o afamado Museu de Arqueologia da Alta Montanha (MAAM) no centro histórico, em frente à praça 9 de Julho. Lugar surpreendente em um prédio meio escondido, com três níveis, os quais nos deixam fascinados. Pequeno, bem organizado e transmite muito conhecimento em espanhol e inglês. Imperdível.
Segundo o folder recebido: “O museu tem como objetivo principal a conservação, difusão e investigação do achado realizado no vulcão Llullaillaco. Neste local, a 6.700m acima do nível do mar, foram encontradas três crianças acompanhadas de objetos que, por seu lugar de procedência, manufatura e materialidade representam aspectos transcendentais da vida social, simbólica e religiosa do mundo Inca. O excelente estado de conservação da coleção, somado à variedade dos materiais com que foram confeccionados, implicaram um desafio na aplicação de técnicas que permitiram a correta preservação e apresentação deles”.

Eu já havia lido sobre as crianças mumificadas encontradas nos Andes, porém ver uma delas in loco é algo emocionante. Começaremos a visita. As múmias das três crianças: a Donzela (la Doncella – jovem de 15 anos de idade), a Menina do Raio (la Niña del Rayo – criança com 6 anos de idade) e o Menino (el Niño – criança com 7 anos de idade) foram localizados com objetos na plataforma cerimonial no vulcão cujo cume tinha 6. 736 m. entre Argentina e Chile. Para levar os jovens ao sacrifício, foram acompanhadas por representantes da elite imperial com seus adereços coloridos e grandes na cabeça. Iam também caravanas de lhamas cuja função era controlar magicamente os elementos como saúde e abundância de ganhos.
A tumba da menina doada às divindades foi violada por caçadores de tesouros. Hoje está protegida no museu. Fotos e vídeos mostram a história e cultura do povo Inca. Estamos falando de tempos pré-colombianos. São duzentas montanhas com adoratórios ou santuários de altura para rituais religiosos.
O Caminho Principal Andino (Qhapaq Ñan) é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2014. Salta através do Ministério da Cultura e Turismo é responsável pelo Programa Qhapaq Ñan (língua indígena quechua) com o intuito de preservar este legado, que vai do sul da Colômbia até o Chile e Argentina (em Mendoza). Trata-se de 40.000 km atravessando diferentes populações e ecossistemas, eis o domínio Inca em passados longínquos. As lhamas à época carregavam minérios e variados produtos 30 a 40 km pelo Caminho. Hoje só se conhecem 25.000 km. Uma riqueza de cultura! Detalhe: ainda existem comunidades Qhapaq Ñan lá.
Voltemos às múmias. Comidas e animais também eram ofertados à montanha da Cordilheira dos Andes. A Donzela era uma adolescente virgem e no momento do holocausto estava com os pais e sacerdotes. Músicas eram cantadas. Os pequenos iam preparados com roupas e artefatos, como madeira a fim de serem inseridos juntos com eles. Subiam até o cume da montanha, onde estava a plataforma cerimonial. Isso ocorreu há mais de 500 anos atrás.
Quando foram encontrados, estavam intactos, por conta da localidade sem oxigênio e asséptica. Foram congelados naturalmente. Em março de 1999, uma equipe científica retirou as crianças do vulcão nevado. Os cientistas sentiram muito frio e passaram dificuldades. Um vídeo mostra tudo. Na verdade, os garotos foram descobertos pelo antropólogo norte-americano Johan Reinhard. Ele havia subido a montanha em 1983, 1984 e 1985 anteriormente. Digno de nota ressaltar que em 1952 houve a primeira expedição do Chile Mountaneering Club (Clube de Montanhismo do Chile) o qual subiu a montanha e descobriu a existência de materiais arqueológicos.
A PALEOPATOLOGIA é o estudo das crianças congeladas (por dentistas, médicos e radiologistas). A conservação do corpo exterior delas estava perfeita: os pulmões intactos. Elas sofreram de desidratação. Estudaram todos os órgãos internos, estavam em bom estado de nutrição, ou seja, foram alimentadas até o fim. Estavam adormecidas quando morreram. No museu os corpos estão conservados em cápsulas que modificam a atmosfera reduzindo o conteúdo de oxigênio em um ambiente estável de -20˚C e uma iluminação filtrada em UV e IR que garantem a correta preservação: chama-se “criopreservação”.
As cerimônias religiosas nos Andes eram relacionadas com a natureza e a fertilidade, especialmente, os ciclos e estações da agricultura. Para perecer, os sacrificados tomavam chicha (bebida alcoólica de milho). Em Cusco no Peru, da mesma forma, eram enterrados dormindo. Importante mencionar que para os Incas, eles não eram imolados, eram reunidos com os ancestrais, que iriam olhar das montanhas mais altas, do topo para eles embaixo. A vida dos miúdos era a melhor oferenda. O ouro representava o Sol; a prata, a Lua; e a concha marinha, as chuvas e a fertilidade. As peças que acompanhavam os meninos eram em miniatura, mas representavam o mundo real. Os casamentos de crianças de diferentes tribos eram simbólicos para a união do mundo Inca. Mulheres eram entregues a outros chefes regionais e as meninas ao Sol, por isso a Donzela sacrificada. Pertencia à Casa das Escolhidas, era a Virgem do Sol.
O Menino era da elite Inca. Encontra-se no museu com as roupas do momento do sacrifício. Tinha uma pena na cabeça, cordas enroscadas na cabeça e corpo, e sapatos. Impressionante a visão do niño, parece estar dormindo. Como pode estar tão incólume com mais de 500 anos de idade?
A Menina do Raio, por sua vez, teve seu corpo queimado por um raio que caiu sobre ela logo depois de ser enterrada. O seu crânio tinha uma forma cônica em sinal de hierarquia e beleza.
Conforme linguistas, Llullaillaco significa “água de memória”. A montanha é considerada sagrada. Os sacrifícios eram ditos naturais por muitos indígenas da região (em entrevistas). Aconteciam para prevenir doenças e ganhar fartura. Uma professora reportou: “Dizem que lá há muito a ser descoberto e por meio deles se conheceu mais a região”.
Um pouco de história da região: em 10.000 a. C. existiam os grupos caçadores; em 3.000 a. C. a domesticação de animais, e vegetais; em 600 a. C. as primeiras aldeias; em 600 d. C as aldeias desenvolvidas; em 1.000 d. C. os povoados; em 1.400 d. C. chegam os Incas; e em 1.532 d. C. chegam os espanhóis.

Em suma, nunca visitei um museu tão impressionante como esse. Saímos de lá abismados. Parabéns a Salta e continue cuidando da sua história e riqueza cultural assim.
O próximo artigo será sobre o Museu Histórico do Norte no Cabildo.














