Estamos no dia 23 de abril de 2019. Nosso destino é o Chile, o qual estive em 2001 e 2015. Desta vez será Santiago e Pucón. Partimos pela LATAM de Fortaleza para São Paulo em horário bom (10.25 da manhã). O choque foi ver que a companhia agora está vendendo os sanduíches e bebidas. Dado só água. E tudo caro.
Já de São Paulo para Santiago o avião era grande, estava lotado e a comida ótima: frango com polenta, queijo, bolacha e quindim, além de bebidas. Nada como um voo internacional para passarmos melhor.
Chegamos a Santiago. Sei que não se entra com nada de comida no país. São bem exigentes quanto a isso. Vi pela primeira vez no aeroporto, oficiais com cachorros checando as malas. Depois de passar pela Imigração e Aduana fomos atrás de transporte para o centro. Pegamos uma van compartilhada por 7 mil pesos chilenos. A motorista era uma senhora e a companhia se chamava TRANSVIP. Era noite (19 h) e estávamos cansados, só foi chato, porque demoramos no caminho. Fomos quase os últimos a serem entregues. É o meio mais em conta de se chegar ao hotel. A capital tem uma hora a menos que nós.
Inauguramos desta vez o Origen Apart-Hotel na rua Tarapacá, 644. Engraçado que esse é o endereço oficial, mas na verdade a rua se chama Curicó. Consegui pelo Booking.com. Pagamos em dólares 161,50 por três noites. Pagando em dólares, nos livramos do imposto IVA.
Dia 24 de abril de 2019. O café da manhã é bom, sem frutas. Os atendentes do hotel são na maioria venezuelanos. Um olá para a Nelly, o Luís e o Alfonso. Muito queridos e solícitos. Quem está na portaria serve o café, recebe os hóspedes e ainda leva ao quarto. Importante mencionar que no Chile se toma Nescafé em hotéis. Os banheiros têm banheiras ao invés de boxes como no Brasil. Há de se tomar cuidado com quedas, pois não é costume ter barras para sustentação, principalmente, para idosos.
Interessante dizer como há venezuelanos no Chile. São refugiados da situação triste do país atualmente e que bom encontrarem trabalho em outro país. Segundo o Luís, a situação é pior do que sabemos. Tanto ele como a Nelly deixaram a família lá e vieram sozinhos.
O Origen é muito bem localizado, fazemos tudo no centro a pé. Existem muitos cafés e padarias atrativas cerca do hotel. Ao sair, pegamos a esquerda até a rua Agustinas e passamos pela Santa Rosa e Paseo de Ahumada. Esses calçadões são maravilhosos de se estar. Outro exemplo é o Paseo Estado. Na Agustinas encontramos muitas casas de câmbio.
Paseo Estado em Santiago-Chile-foto tirada por Mônica D. Furtado
Vendas no calçadão Paseo Estado-Santiago-Chile-foto tirada por Mônica D. Furtado
Como os chilenos gostam dos bolinhos muffins. Matei as saudades do Canadá. Também a polícia federal nacional deles são os carabineros. Muito respeitados, estão em todos os lugares. Vimos os ambulantes se escondendo deles rapidinho.
Em Santiago como os chilenos. Então, tomar café no Café Haiti em pé com as atendentes vestidas com roupas sensuais e bonitas servindo o café. Estamos no Paseo Ahumada. Só vendem café e embalagens produzidas por eles e mais nada. Um ícone da cidade. Os executivos ficam na frente do estabelecimento em pé também tomando café. Um expresso com água com gás é uma boa pedida. Quase ao lado está o Café Caribe que funciona do mesmo jeito e é mais chique.
No Paseo há banheiros públicos decentes, lojas diversas, restaurantes, sorveterias e bancos para sentar. Delícia. Aliás, várias ruas próximas são calçadões para os pedestres. Santiago é uma cidade estruturada para quem anda. As calçadas e ruas são feitas para durar. Parabéns!
Igreja Santa Rita de Cássia em Santiago-Chile-foto tirada por Mônica D. Furtado
Fachada da igreja Santa Rita de Cássia-Santiago-Chile-foto tirada por Mônica D. Furtado
Na rua Agustinas entramos na igreja Santa Rita de Cássia onde vi a foto de uma popular santa do Chile: Teresa de Jesús de los Andes (1900-1920). Seu nome era Juanita Fernández Solar e entrou no Carmelo aos 18 anos, foi Carmelita Descalça. Pela foto era muito bonita.
Neste dia descobrimos uma loja que amamos: Casa Ideas no Paseo Ahumada, no modelo das Casas Freitas em Fortaleza, só que mais barato e transado. Tudo lindo e colorido. Há pelo menos duas pelo centro.
A temperatura nesta época é boa: 12˚C. Há muito a contar. Continuaremos em breve com Santiago.
Argentina – Salta – Virgen de lo Cerro e Museu Güemes
Começaremos o dia 26 de outubro de 2018 contando sobre a Virgem da Montanha, ou seja, a Virgen de lo Cerro. Muitos grupos religiosos vão a Salta por conta de Maria Lívia. Vamos lá. O rapaz da recepção do hotel me disse que essa senhora, de família de empresários, viu a Virgem há uns 15 anos atrás. Ela recebe milhares de pessoas aos sábados, quase o ano todo, de outros países também, como Uruguai, Chile etc. Fiquei impressionada. No Brasil ninguém sabe. Impõe as mãos e as deixa curadas e em êxtase. A mãe da política sequestrada pelas FARCS da Colômbia lá esteve pedindo a intercessão pela Ingrid Bittencourt e deu certo! Logo depois foi liberada depois de 20 anos de cativeiro.
O dia inicia. Encontrei uma loja bem interessante na Galeria Continental, no local 10, no centro histórico: Ala Par. Os horários são sugestivos: das 10 h às 13 h e das 18 h às 21 h. Que tal? Valeu ter voltado ao lugar para comprar minha bolsinha única da Frida Kahlo por $350 pesos.
Museu Güemes – Salta – foto tirada por Carlos Alencar
Ao Museu Güemes, na Calle España, 730, rumamos. Estava curiosa, pois fiquei fã de tal personagem heroico. Para aposentados, $60. A casa vermelha se destaca. Obrigada à guia Silvina, tão disposta junto ao grupo. De brasileiros, somente o Carlos e eu.
Gal. Güemes, filho de Gabriel Güemes (espanhol – 29 anos) e Magdalena de Goyechea (da terra – 15 anos). O museu tem música e audiovisual. A família Tejada deixou a casa para a família do pai de Güemes, o filho viveu lá desde os quatro anos de idade. Hoje Monumento Histórico Nacional.
De sala em sala aprendemos muito sobre a história da cidade e da família. Na primeira sala, de 16 de abril de 1582, vimos solares, igrejas, acéquias, isto é, a fundação de Salta. As casas eram amplas com solares e pátios. Ficamos em pé vendo o filme com áudio. Enfatizo relatar que todos da cidade viraram milicianos, gaúchos, na luta pela independência do país, assim como a família de Güemes.
Na segunda sala (ou casa), dita a Casa Tejada, de 1789, que era propriedade de Don Manuel Tejada, funcionou a Tesouraria Real até 1819. Neste local um vídeo de um casal conta a história da família de Güemes com seus nove filhos. Mostra louças, cerâmicas e móveis da época. Muito lindo.
Na terceira sala, visualizamos o baú, o berço, móveis, livros e cavalinho de Güemes. Ele nasceu em 1785, Martin Miguel como o avô. O vídeo sai do baú. Foi o primeiro a nascer em Salta. Nas fincas da família brincava e andava a cavalo. Don Manuel de Castro o ensinava latim, direito e outras disciplinas aos 14 anos. Partiu para Buenos Aires a fim de completar os estudos. Ainda em Salta foi ginete da Infantaria. Era o segundo filho dos pais.
Na quarta sala, aparece ele como jovem cadete, escrevendo como em um museu de cera no momento das Invasões Inglesas.
Na quinta sala, está escrito por ele: “Um povo que quer ser livre, não há força que o sujeite”. Já nasceu destinado. Quanto às Invasões Realistas, em 1810, liderou a guerra contra o Gal. Pio Tristán, ao lado do Gal. Manuel Belgrano. A batalha de Tucumán foi a primeira invasão ao Exército do Noroeste da Argentina. Em 1814, surgiram as Províncias Unidas do Exército do libertador, do líder saltenho, tal exército de gaúchos e milicianos, paisanos que dariam a vida pela defesa de Salta.
Em 1815 foi eleito governador e em 1816 os seus homens já defendiam a região. Bastante moderno dizer que nessa época Juana Azurday, uma mulher, se uniu ao grupo. Em 1817 a maior revolução Realista, as tropas de Güemes acabavam com os inimigos, as chamadas Forças Patriotas de Güemes. Em 1821, a última a Invasão Realista. O general cai em uma emboscada pelos realistas. Foram 11 anos de incessantes esforços dos soldados defendendo a fronteira, a guerra gaúcha e seu líder. A sua irmã Madalena foi sua grande colaboradora.
Na sexta sala, Güemes e a independência. O congresso de Tucumán declarou a Constituição e a independência, quando ele era governador. Foi eleito sem a interferência de Buenos Aires. Neste recinto, aparece a grande história de amor dele com sua amada: Carmen Puch (1797-1822). Apenas dois meses depois de terem se conhecido, casaram em 1815. Ela era a mais bela da cidade: ruiva com olhos azuis e tiveram dois filhos Luís e Martin. Morreu com 25 anos, após a morte dele. Carmen se encerrou em casa, cortou os belos cabelos famosos e deixou de comer “de tristeza”.
Estátuas dos gaúchos no Museu Güemes-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Estátua de Juana Azurday no museu Güemes-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
No pátio, testemunhamos as estátuas dos gaúchos de Güemes. Tinham estratégia militar, lutavam como em guerrilhas com o objetivo de desconcertar e desgastar as tropas invasoras. O jinete crioulo era fiel ao cavalo, eram adaptáveis ao terreno. Os gaúchos eram pequenos produtores, juízes rurais, estancieiros, escravos e peões.
Na oitava sala, a traição à meia-noite. Foi emboscado e ferido de morte. A mulher dele teve uma intuição. Os inimigos entraram vigorosamente no Campo da Cruz, eram quatro grupos de fuzileiros, 400 homens para matá-lo. Ele estava na casa da irmã Madalena. Escapou cavalgando até o El Chemical com escoltas, mas os opositores abriram fogo.
A sala 9 apresenta o general ferido em uma pintura. Eis uma lástima! Faleceu. O vídeo mostra os gaúchos ao lado dele ferido na Cañada de La Horqueta. Bastaram dois tiros. Ele dizia: “Nada temo, porque jurei sustentar a independência da América e selá-la com meu sangue”. Por 10 dias sofre até morrer, esteve rodeado pela mulher, filhos e padre Francisco Fernandéz. Tinha 36 anos. O médico foi Antonio Castellano, o primeiro doutor saltenho graduado. O médico dele mesmo era escocês, porém estava ocupado cuidando do Gal. Belgrano. Está escrito em desenhos de nanquim: “Morreram todos como eu morro, antes de capitular com os tiranos espanhóis”.
Sobre Güemes escreveram Dionisio Puch em 1846, Juana Manuela Gorriti em 1858, Leopoldo Lugones em 1905, e Bernardo Frías em 1911. É uma aula de história fascinante.
A réplica do uniforme está em exposição, da mesma forma a faca e o punhal usados pelos liderados. Sua luta continua. Em 1807, durante a Segunda Invasão Inglesa, Güemes protege Buenos Aires. Em 1806, acoberta a mesma capital e Montevidéu para impedir contrabando. Em 1808, solicita ser destinado a Salta por problemas de saúde e para colaborar com a administração dos bens familiares, uma vez que o pai falecera em 1808. A Batalha de Suipacha de 1810 foi a primeira vitória patriota na Guerra da Independência. A sua atuação foi decisiva. Abriu uma rota para o Alto Peru. Em 1815 foi governador ou El Cabildo por 30 anos de Salta. Pensem em uma vida intensa.
Em 1877 os restos mortais dele foram trasladados para a Catedral de Salta no Panteão dos Heróis. Em 1895 se publica ”Güemes e seus gaúchos” de Filiberto de Oliveira Cézar. Aqui deixa de ser somente mais um personagem para os historiadores argentinos. Em 2017 o museu é inaugurado. Vale a pena divulgar o filme de Leopoldo Torre Nilson de 1971: “La Tierra enArmas” com Alfredo Alcón.
Nosso almoço no Solar do Convento em Salta-foto tirada por um garçom
Truta com manteiga negra, champignon e batatas Niçoise-restaurante Solar do Convento-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Saímos do museu e fomos almoçar. Novamente no restaurante Solar do Convento no centro histórico na Calle Caseros. Pedimos truta com manteiga negra, champignon e batatas Niçoise. O vinho foi Amalaya, um malbec 2017 de Cafayate. Tudo muito bom por $1080 pesos. Considerei muito simpático o garçom ter nos oferecido um espumante por conta da casa.
Ufa! Maravilha de terra. Para finalizar esta cidade charmosa, não posso de deixar de grifar sobre a empanada saltenha da La Salteñeria na Calle Catamarca, 7. Ao som da nossa bossa nova, com carne, batata, coentro e cebola, e com uma leve pimentinha, o Carlos amou. Minha escolha de jantar foi o Café do Convento perto do Convento São Bernardo. Pedi um roll de vegetais de massa folheada com milho, ervilha, alfafa, cebola etc. Uma delícia por $180 pesos. Mesmo com o frio de noite e a demora no atendimento, compensou.
E, para finalizar, nosso agradecimento ao atendente Marcelo da Azul no aeroporto de Córdoba, que gentilmente nos deixou ficar no Espaço Azul do avião Córdoba – Recife – Fortaleza. Ganhamos mais espaço e comodidade. Ele foi demais.
Agora concluo, enfim, lhes dizendo que amei Salta, o povo, a tranquilidade. Voltarei! Viva a Argentina, viva nuestros hermanos tan queridos. Saudações ao nosso agente Guillermo!
Argentina – Salta – San Antonio de los Cobres e Tren a las Nubes – segunda parte
Trem para as Nuvens e as lhamas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Tren a las Nubes em San Antonio de los Cobres-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Tren a las Nubes-san Antonio de los Cobres-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Estamos em 25 de outubro de 2018 e seguimos a nossa aventura rumo às nuvens. Na primeira parte deste artigo contamos como foi o início do percurso. Em San Antonio de los Cobres adentramos o trem começando um percurso impactante.
O Carlos e eu no Trem para as Nuvens em San Antonio de los Cobres-Salta-foto tirada por um turista
Nós no Trem para as Nuvens em san Antonio de los Cobres-Salta-foto selfie tirada por Mônica D. Furtado
O Trem para as Nuvens (Tren a las Nubes) é uma obra de engenharia impressionante. Trata-se de uma locomotiva de vapor série C12, fabricada em 1921. Em 1920 começou o assentamento dos primeiros acampamentos que iriam realizar esta obra. O engenheiro foi o americano Richard Fontain Maury. Contabilizavam mil operários: 50% eram imigrantes estrangeiros com 14 horas de trabalho ao dia. Pode-se imaginar com aquela altitude? Difícil. Em 1924 foi inaugurada a primeira via e em 1941 a obra foi finalizada com o ex-presidente Perón. As vias eram extensas, havia 3 a 4 trens por dia exportando carne, cereais e minerais. Importavam roupas e eletrodomésticos. Em 1942 eram 1.600 toneladas de ferro sendo transportados. Em 1972 começa o trem turístico, sendo o quarto mais alto do mundo. Em 1994 privatizaram a ferrovia. De 2005 a 2008 não funcionou. Em 2014 passou a ser uma empresa provincial.
Emoção de estar no Trem para as Nuvens-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
A ideia era partir no trem às 12 h sem almoçar a fim de não passar mal. Nunca vi nada igual, é deslumbrante estar em um trem em tal altitude em um lugar único no planeta. Com áudio em espanhol e inglês, tivemos como guia o Gabriel. Há loja, bar e assistência médica em cada vagão. Estamos na fronteira com o Chile. Perto de cidade, existem as Águas Termais de Pompeya. Um percurso muito interessante de se fazer. No trem vendem quinoa doce em sementes. Uma delícia.
Viaduto La Polvorilla ao longe-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Lá vai o Trem para as Nuvens-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Nós com o viaduto La Polvorilla-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
O trem vai e volta sem mudar de lado, quem muda são os passageiros. Com as janelas abertas, o vento é gostoso. No meio do caminho há uma parada em Mina Concórdia, mina de 1660, a mais antiga do país, desativada em 1986. Produzia zinco, prata e cobre. O desengate do trem é realizado, uma máquina empurra e continuamos a viagem. Considerei original demais.
Mercado Artesanal-ponto final-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Passeio no Trem para as Nuvens-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
São 15 km de San Antonio de los Cobres até o Mercado Artesanal na última parada. Estamos a 4.220 m. Eis o ponto culminante do dia. Devagar levamos 2 horas até o local. Lá há indígenas vendendo artesanatos e tortilhas. Comprei a de queijo e presunto. A bandeira foi hasteada no morro acima com o hino da Aurora (Bandeira) sendo cantado pelos argentinos. Depois aplaudiram. Achei o máximo! Ficamos um tempinho no lugar.
Turistas no ponto final-Mercado Artesanal-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Viaduto La Polvorilla-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
O famoso viaduto em curva La Polvorilla é enorme com seus 224 m de comprimento e 63 m de altura. Sentimos estar realmente nas alturas. Experiência única na vida.
A volta para a cidade de Santo Antônio vai mais rápido (1h e meia). A pessoa tem que estar bem de saúde para este dia, é puxado, pois a altitude cansa. Ao retornarmos ao município às 15 h, nos dirigimos ao Centro de Artesanato onde havia um restaurante com opções boas. Comemos a melhor empanada até aquele momento: de frango e mais uma salada. A nossa garçonete foi uma indiazinha muito fofa chamada Luiza. Ela nos amou e nós a ela, uma graça. Dei a ela um bottom do Brasil e ela delirou. Depois, fomos conhecer a localidade.
Igreja Santo Antônio de Pádua-San Antonio de los Cobres-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Estivemos na igreja Santo Antônio de Pádua e demos uma volta. Vimos muitos estudantes saindo da escola, observamos as casas e as ruas. Parece de faroeste tal a aridez do solo. Valeu!
Na volta entramos no sítio Santa Rosa de Tastil a 3.110 m. Trata-se de um povoado pré-hispânico com 15 famílias, um sítio arqueológico na Quebrada del Tastil, uma região inca. Visitamos o Museu de Tastil do Governo da Província de Salta – museu arqueológico – sem pagar nada, um achado. Pena que a visita tenha sido só de 10 minutos, mas deu para impressionar. Foi inaugurado em 1975. Vimos a arte rupestre na rocha com motivos naturalistas figurativos e outros. Entre os achados se exibem peças e objetos pertencentes ao sítio arqueológico situado na parte alta da montanha, muito próximo do atual povoado. É um dos maiores do país, calcula-se que chegou a albergar aproximadamente 3 mil pessoas. Tastil e o museu fazem parte do Patrimônio Cultural Qhapaq Ñan (Caminho Principal Andino ou Caminho Real Incaico).
Fora há uma feirinha com produtos artesanais com venda de roupas de lhama e alpaca e outros objetos. Digno de nota relatar que a lhama é mais elegante que a selvagem vicunha. Essa tem um pelo fino e a lã é cara, o kilo custa $25 mil pesos, já a lã de ovelha e lhama é mais barata por ser mais comum. Uma curiosidade da localidade: o El Baile de Suri (avestruz) é uma antiga dança cerimonial de origem pré-hispânica que hoje se realiza em ocasião das festas patronais, como a adoração a La Virgen ou Patrona local, no qual adultos e crianças usam penas pelo corpo.
Caminho de volta San Antonio de los Cobres a Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Montanhas pelo caminho-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Ao fim da excursão ganhamos uma caixa com alfajor e salgadinhos e café ou bebidas no próprio ônibus. Ainda fizemos uma parada técnica para fotos do entardecer nas montanhas de cores variadas. Deslumbrantes! Só tenho elogios ao passeio, foi perfeito! Voltando a Salta, repetirei tão formidável turnê.
Argentina – Salta – San Antonio de los Cobres e Tren a las Nubes – primeira parte
Vegetação da região da Rota 51 com cactos gigantes-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Cactos gigantes-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Hoje é dia 25 de outubro de 2018 e faremos o percurso mais inesquecível de Salta. Vamos passear no mais famoso atrativo turístico do noroeste argentino: o Tren a las Nubes! Subiremos a Cordilheira dos Andes e nos aventuraremos por paisagens secas, de pouca vegetação, onde a árvore mais encontrada é o cacto gigante, símbolo da região. Este passeio ocorre às terças, quintas e sábados, de abril a novembro. Antigamente o trem ia de Salta até o viaduto La Polvorilla, hoje não, vai somente de Santo Antônio até o viaduto, um percurso de 15 km. San Antonio de los Cobres dista 168 km a noroeste de Salta.
Compramos a excursão na agência Tintikay na Calle Caseros, 404 por $3.420,00 pesos por pessoa. É caro, mas vale cada tostão. Viemos andando do hotel Solar de La Plaza pela Balcarce até a estação de ônibus, que fica esquina com a Calle Ameghino em frente à praça Antofagasta. São umas três quadras longas, estava frio e escuro, e tínhamos que estar lá às 6.30 da manhã. O ônibus sai às 7 h e faz ligação com o trem em Santo Antônio. Eis os Serviços Ferroviários Turísticos. Voltaremos às 20h. Dia pleno de tanta beleza da Cordilheira dos Andes.
Na estação de ônibus, entramos em uma fila para mostrar o voucher (recebido na agência) e a identificação. Em outra fila, recebemos a pulseira com a cor do ônibus. O nosso era o vermelho. Havia outros que saíram juntos. A guia muito simpática e eficiente se chamava Cristina Carrizo e o motorista Cristian. Cristina, aquele abraço! Há uma enfermeira em cada ônibus e uma ambulância seguindo. Achei genial. Afinal, tem turista que passa mal no trajeto com dor de cabeça, estômago etc.
Cheguei à estação cansada, pois o esforço exaure pela altura (1.187 m). Deixo a folha de coca na boca para amenizar. Na estação há pessoas vendendo chá, folha e bala de coca.
Viaduto La Polvorilla visto pelo caminho depois de Campo Quijano-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
O Carlos e eu mostrando o viaduto La Polvorilla-Salta-foto tirada por uma turista
Entramos no coletivo. Bom ser ônibus normal e não van, menor. Chama atenção a altitude: El Alfarcito (2.800 m), Santa Rosa de Tastil (3.100 m), San Antonio de los Cobres (3.775 m), e o viaduto de La Polvorilla (4.200 m).
Eu na placa da Ruta Nacional 51 perto de Alfarcito-Salta-foto tirada por Carlos Alencar
Locomotiva em Campo Quijano-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu com moça vestida para o carnaval em Campo Quijano-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Trem histórico em Campo Quijano-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Parede pintada ao lado da locomotiva em Campo Quijano-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Seguimos em direção oeste pela Ruta 51 até San Antonio de los Cobres, a cidade mais alta da Argentina. A primeira parada é em Campo Quijano, onde havia uma moça vestida com traje de carnaval para o desfile momino “Comparsa Premiada”, ao lado de um trem histórico. Tiramos foto com ela e ali mesmo havia uma feirinha com comidas típicas, como tortilhas, e artesanato. A segunda parada foi em El Ceibo. Aliás, nome da flor nacional, vinda de árvores floridas da cor vermelha.
Viaduto La Polvorilla depois de Campo Quijano já é vista-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Viaduto La Polvorilla-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Vemos as estruturas ferroviárias nas montanhas abandonadas. Uma lástima! Muitos povoados dependiam dos trens. Aliás, o país teve um grande desenvolvimento a esse respeito. Foi o único país da América do Sul a fabricar material ferroviário.
Acerca das montanhas vistas, são verdes, porque os ventos passam pela região e muitas delas são espetaculares com suas cores diversas. Os álamos marcam as propriedades rurais de forma bonita de se observar. As famílias trabalham com queijo, cabras, vacas e agricultura. Plantam pêssego, maçã, pera, damasco e milho. Usam energia solar. Estamos a 2.500 m de altitude.
Nós mostrando as montanhas coloridas ao fundo-Governador Solá-Salta-foto selfie tirada por Mônica D. Furtado
Montanha colorida-Gobernador Solá-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Outra parada foi em Gobernador Solá que, além de ter as montanhas coloridas, da mesma forma tem o cemitério. A altitude é de 2.556 m. Há um controle de Gendarmeria, ou seja, da polícia no município. 10 voluntários argentinos foram convidados a mostrar os documentos. Detalhe: na viagem só havíamos nós de brasileiros, todos eram argentinos. Eles sempre muito queridos (uma senhora no ônibus queria praticar o português conosco, uma graça!). Eles realmente se interessam por nós.
Local do café da manhã em Alfarcito na localidade da escola do Padre Chifri-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Capela São Caetano-igreja do padre Chifri-Alfarcito-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Em El Alfarcito (2.800 m), a companhia nos ofereceu um café da manhã campestre na localidade da escola do padre Chifri. Faz parte do pacote: café e chá de coca, e um saquinho de papel com pães salgados e doces.
A fé dos moradores mantém vivo o sonho do padre Chifri e a tradição na feitura de artesanato. Lá se destaca a Festa da Papa Andina que reúne habitantes de diversas comunidades da Quebrada del Toro. O rio Toro depende das chuvas, são aguaceiros que começam de novembro a fevereiro. Nas montanhas ao redor há avalanches.
Falando um pouco sobre o afamado e estimado padre Chifri (1965-2011). Nasceu em Buenos Aires, mas era sacerdote em Rosário e Lerma. Iniciou um trabalho com a sociedade de El Alfarcito para integrar 22 comunidades. Criou uma escola primária e secundária para crianças indígenas da região. É moderna e usa painéis solares. O padre fez muito pela comunidade. Os alunos moram na redondeza com suas famílias, a escola foi uma invenção do padre no meio do nada. Incrível! O tíquete do trem ajuda a Fundação do Padre Chifri. Na capela São Caetano está a tumba dele e também há o memorial com fotos da sua vida. Interessante que ele via os paroquianos de lugares distantes nas montanhas de parapente. Certa vez caiu e se quebrou todo, mas sobreviveu. Infelizmente, morreu do coração um tempo depois. O seu sonho, afortunadamente, continua. A diretora do colégio vem de Buenos Aires. Trata-se de um projeto bem conceituado no país.
Terra seca entre Alfarcito e San Antonio de los Cobres-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Estacionamento dos carros em San Antonio de los Cobres-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
As 11.30 h chegamos a Santo Antônio dos Cobres (3.775 m) ao pé da montanha Terciopelo. A cidade foi nomeada assim, por conta de ser um antigo acampamento mineiro. Eram minas de cobre e prata que existiam em seus arredores na época de sua fundação. Atualmente, não são mais tão importantes para a economia, embora ainda existam muitas empresas mineradoras atuando na região. Salta proibiu a extração de minerais metálicos. As casas são de adobe, ou seja, feitas para o deserto, e as ruas são de terra. O solo é pobre. Os moradores têm clara ascendência indígena. A popularidade do povoado cresceu devido ao trem que traz turistas e à proximidade do viaduto La Polvorilla. Estamos na Quebrada del Toro e faz frio na montanha. Não se deve correr, nem fazer esforço e só respirar pelo nariz. A amplitude térmica é grande. Na Cordilheira dos Andes deste lado veem-se pontos nevados. São 90 milhões de anos de existência.
Estacionamento dos ônibus em San Antonio de los Cobres. Lá estava um vendedor de artesanato com sua lhama-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
A cidade pequena tem escolas, movimento, quartel do Exército, com poucas opções de restaurantes. Lugarzinho ermo, mas muito original. Imperdível!
Continuaremos com a viagem de trem no próximo artigo.
Rua de Salta la linda-foto tirada por Mônica D. Furtado
Hoje é dia 24 de outubro de 2018 e vamos conhecer outro museu: o Museu Histórico do Norte no antigo Cabildo (centro do governo da província). Já estivemos no MAAM (Museu de Arqueologia da Alta Montanha), também situado em frente à praça 9 de Julho. Segundo o Guia Criativo para o Viajante Independente na América do Sul de Zizo Anis & Os Viajantes (quarta edição), “é o edifício mais antigo da cidade, sua construção começou no mesmo dia da fundação de Salta, em 1852. Desde então foi modificado diversas vezes, e é um dos mais completos e conservados centros históricos do país. A fachada de arcos brancos, típica da arquitetura colonial, estende-se por todo o quarteirão”.
Praça 9 de Julho em frente ao Cabildo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Cabildo florido-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Em 16 de abril de 1945, no dia do aniversário da fundação de Salta, este Cabildo foi reintegrado à Nação por iniciativa do ex-senador Dr. Carlos Serrey.
Por 20 pesos, conhecemos muito da história do norte da Argentina. A audição com os audioguias (audioguides) no local é feita em francês, inglês e espanhol. Parabéns!
Vamos lá. 12 mil anos atrás os indígenas, habitantes do noroeste argentino, tinham vida nômade. Há 8 mil anos novos grupos de caçadores adentraram esta região. Produziam cerâmicas, vasos, jarros etc. As plantas alimentícias mais importantes eram o milho, o feijão e a abóbora. Depois veio a batata. Entre 650 e 850 d. C. se desenvolve uma cultura que se sobressai no norte do país: a cultura de La Aguada (agricultura, guerreiros e religiosos).
Tastil, La Paya e Tolombón apareceram como centros urbanos. Os cemitérios foram separados das áreas de vivendas, ou seja, isso significa uma planificação com todas as implicâncias sociopolíticas e religiosas. As urnas funerárias para crianças são um dos elementos mais característicos dessa época.
Quando os grupos indígenas estavam no apogeu (até 1480 d. C), chegam os Incas. Provocam um profundo impacto naquelas sociedades locais. A quinua passa a ser um alimento fundamental. As collcas eram os depósitos de alimentos dos incas para proteger contra as mudanças climáticas. A dominação inca no território argentino facilitou a conquista pelosespanhóis, estes entraram de forma rápida e precisa. Aí os espanhóis destruíram os incas. Nos séculos XVI e XVII houve a miscigenação entre espanhóis e indígenas, dando lugar à cultura mestiça ou crioula.
Sino histórico no antigo Cabildo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu no Museu Histórico do Norte-Salta-foto tirada por Carlos Alencar
Eu e Carlos no antigo Cabildo-Salta-foto tirada por um turista
Estamos agora no período colonial. A conquista espanhola trouxe o culto católico que foi difundido pelos missionários nos séc. XVII e XVIII. Vemos no museu as obras religiosas, como retábulos, quadros, cadeiras e baús. A arte alto-peruana fez escola em Tucumán. Um pintor flamenco Rodrigo Sas (1608) fez inúmeras obras em Potosi. Existiu da mesma forma Melchor Pérez em Holguin e Tomás Cabrera em Salta. Trabalhos em madeira na forma de escultura de Cristo e Nossa Senhora, além de mesas e vestes talares. Digno de nota a bela imagem da Virgen de La Merced do séc. XIX, e o jesuíta artista José Schmidt (1690-1752). Era escultor e retablista, nascido na Baviera – Alemanha, que em 1721 chegou a salta para edificar o colégio da Cia. de Jesus e também fazer pinturas e adornos. O Retablo (retábulo) Portátil do séc. XIX da Porta de La Paya do sino da igreja de Sumalas de 1822 (Valle Calchaquí – província de Salta a 33 km da capital) é um deslumbre.
Na Sala Capitular, encontra-se o autêntico mobiliário luso-brasileiro do séc. XVIII, acompanhado de quadros a óleo da escola Quitenha (de Quito – Equador) do mesmo século.
Na Sala de Moedas da época, tem-se uma verdadeira aula de história. A casa da Moeda foi fundada em 1754. Observamos o sistema monetário argentino desde o séc. XVI com as primeiras cunhagens de medas hispano-americanas. Uma riqueza de lugar para quem coleciona moedas.
Nos séc. XIX e XX, percebe-se o desenvolvimento, e a arquitetura da cidade começa a se modificar. Ao fim do séc. XVIII, o município tinha mais de 50 casas com duas plantas (Buenos Aires só tinha 12). Tinham balcões sustentados por mísulas magnificamente talhadas. De acordo com a Wikipédia: mísula é “um ornato que ressai de uma superfície, geralmente vertical, e que serve para sustentar um arco de abóbada, uma cornija, figura, busto, vaso etc”. Salta “era mais populosa em comércio e gente depois de Córdoba em 1697”, conforme o ex-governador de Tucumán Juan de Zamudio. A cidade cresceu a partir da Calle Comercio, hoje Caseros.
O Período Independente do séc. XIX aparece com mobílias, jogo de sala pertencente à Casa de Graña (uva), lugar frequentado pelo Gal. Güemes. As batalhas históricas pela independência foram de Tucumán (1812) e de Salta (1813). O Exército do Norte era comandado pelo Gal. Belgrano. A Guerra da Independência a partir de 1816 estava mais cruel. Foi o governador saltenho e comandante da vanguarda Gal. Martin Miguel de Güemes que assumiu o compromisso de impedir o avanço do inimigo. Nasceu em Salta em 1785. Os seus comandados eram conhecidos como os gaúchos. Os pró-espanhóis eram os realistas (Unitários) e estavam com o Gal. Pio Tristán, já os contra eram os Patriotas (Federais). Entre 1810 e 1821, Salta suportou oito invasões realistas.
Carroça-urna funerária-Museu Histórico do Norte-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Carro antigo e charrete-Museu Histórico do Norte-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Existe a Sala dos Governadores da província de Salta do séc. XIX e XX. Na área exterior do museu, há carruagens do séc. XIX. Na época de Felipe II (Espanha), ele proibira o uso na América. Antigamente, a distância entre Salta e Buenos Aires era de 40 dias indo de carruagem. Vimos carro dos correios e carro fúnebre de tempos passados, e um carro Renault modelo 1911 de propriedade do ex- governador de Tucumán Alberto Paz Posse.
Em outra área externa, estavam moedeiras de cana de açúcar, o recipiente para espremer uvas com os pés, ponchos de Molinos, e roupas de lã de vicunha, lhama e ovelha para venda da Associação de Artesãos e Produtores San Pedro Nolasco.
Eu em um dos arcos do antigo Cabildo-Museu Histórico do Norte-Salta-foto tirada por Carlos Alencar
Saindo de lá, já era noite, logo decidimos jantar na rua Caseros, 342 no El Comedor. A empanada de frango estava menos temperada (ainda bem!), risoto de quinua e sobremesa de maçã ao malbec (vinho) por 180 pesos. Delícia. Na terra saltenha, gostam muito de uma pimentinha e temperos… Lembrei-me da nossa Bahia.
Ufa! Que passeio! Fiquei fã do Gal. Güemes, aliás, eu e a população argentina toda. Que cidade! O povo reverencia seus heróis o tempo todo. Os guias falam neles, os museus mostram, enfim, a gente aprende nem que não queira. Parabéns a Salta por tanta cultura!
Argentina – Salta – Museu MAAM (Museu de Arqueologia da Alta Montanha)
Museu de Arqueologia da Alta Montanha-MAAM-Salta-foto tirada do folder por Mônica D. Furtado
Folder do MAAM-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Hoje é dia 24 de outubro de 2018. Viemos conhecer o afamado Museu de Arqueologia da Alta Montanha (MAAM) no centro histórico, em frente à praça 9 de Julho. Lugar surpreendente em um prédio meio escondido, com três níveis, os quais nos deixam fascinados. Pequeno, bem organizado e transmite muito conhecimento em espanhol e inglês. Imperdível.
Segundo o folder recebido: “O museu tem como objetivo principal a conservação, difusão e investigação do achado realizado no vulcão Llullaillaco. Neste local, a 6.700m acima do nível do mar, foram encontradas três crianças acompanhadas de objetos que, por seu lugar de procedência, manufatura e materialidade representam aspectos transcendentais da vida social, simbólica e religiosa do mundo Inca. O excelente estado de conservação da coleção, somado à variedade dos materiais com que foram confeccionados, implicaram um desafio na aplicação de técnicas que permitiram a correta preservação e apresentação deles”.
As crianças mumificadas encontradas na Cordilheira dos Andes na província de Salta-foto tirada do folder por Mônica D. Furtado
Eu já havia lido sobre as crianças mumificadas encontradas nos Andes, porém ver uma delas in loco é algo emocionante. Começaremos a visita. As múmias das três crianças: a Donzela (la Doncella – jovem de 15 anos de idade), a Menina do Raio (la Niña del Rayo – criança com 6 anos de idade) e o Menino (el Niño – criança com 7 anos de idade) foram localizados com objetos na plataforma cerimonial no vulcão cujo cume tinha 6. 736 m. entre Argentina e Chile. Para levar os jovens ao sacrifício, foram acompanhadas por representantes da elite imperial com seus adereços coloridos e grandes na cabeça. Iam também caravanas de lhamas cuja função era controlar magicamente os elementos como saúde e abundância de ganhos.
A tumba da menina doada às divindades foi violada por caçadores de tesouros. Hoje está protegida no museu. Fotos e vídeos mostram a história e cultura do povo Inca. Estamos falando de tempos pré-colombianos. São duzentas montanhas com adoratórios ou santuários de altura para rituais religiosos.
O Caminho Principal Andino (Qhapaq Ñan) é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2014. Salta através do Ministério da Cultura e Turismo é responsável pelo Programa Qhapaq Ñan (língua indígena quechua) com o intuito de preservar este legado, que vai do sul da Colômbia até o Chile e Argentina (em Mendoza). Trata-se de 40.000 km atravessando diferentes populações e ecossistemas, eis o domínio Inca em passados longínquos. As lhamas à época carregavam minérios e variados produtos 30 a 40 km pelo Caminho. Hoje só se conhecem 25.000 km. Uma riqueza de cultura! Detalhe: ainda existem comunidades Qhapaq Ñan lá.
Voltemos às múmias. Comidas e animais também eram ofertados à montanha da Cordilheira dos Andes. A Donzela era uma adolescente virgem e no momento do holocausto estava com os pais e sacerdotes. Músicas eram cantadas. Os pequenos iam preparados com roupas e artefatos, como madeira a fim de serem inseridos juntos com eles. Subiam até o cume da montanha, onde estava a plataforma cerimonial. Isso ocorreu há mais de 500 anos atrás.
Quando foram encontrados, estavam intactos, por conta da localidade sem oxigênio e asséptica. Foram congelados naturalmente. Em março de 1999, uma equipe científica retirou as crianças do vulcão nevado. Os cientistas sentiram muito frio e passaram dificuldades. Um vídeo mostra tudo. Na verdade, os garotos foram descobertos pelo antropólogo norte-americano Johan Reinhard. Ele havia subido a montanha em 1983, 1984 e 1985 anteriormente. Digno de nota ressaltar que em 1952 houve a primeira expedição do Chile Mountaneering Club (Clube de Montanhismo do Chile) o qual subiu a montanha e descobriu a existência de materiais arqueológicos.
A PALEOPATOLOGIA é o estudo das crianças congeladas (por dentistas, médicos e radiologistas). A conservação do corpo exterior delas estava perfeita: os pulmões intactos. Elas sofreram de desidratação. Estudaram todos os órgãos internos, estavam em bom estado de nutrição, ou seja, foram alimentadas até o fim. Estavam adormecidas quando morreram. No museu os corpos estão conservados em cápsulas que modificam a atmosfera reduzindo o conteúdo de oxigênio em um ambiente estável de -20˚C e uma iluminação filtrada em UV e IR que garantem a correta preservação: chama-se “criopreservação”.
As cerimônias religiosas nos Andes eram relacionadas com a natureza e a fertilidade, especialmente, os ciclos e estações da agricultura. Para perecer, os sacrificados tomavam chicha (bebida alcoólica de milho). Em Cusco no Peru, da mesma forma, eram enterrados dormindo. Importante mencionar que para os Incas, eles não eram imolados, eram reunidos com os ancestrais, que iriam olhar das montanhas mais altas, do topo para eles embaixo. A vida dos miúdos era a melhor oferenda. O ouro representava o Sol; a prata, a Lua; e a concha marinha, as chuvas e a fertilidade. As peças que acompanhavam os meninos eram em miniatura, mas representavam o mundo real. Os casamentos de crianças de diferentes tribos eram simbólicos para a união do mundo Inca. Mulheres eram entregues a outros chefes regionais e as meninas ao Sol, por isso a Donzela sacrificada. Pertencia à Casa das Escolhidas, era a Virgem do Sol.
O Menino era da elite Inca. Encontra-se no museu com as roupas do momento do sacrifício. Tinha uma pena na cabeça, cordas enroscadas na cabeça e corpo, e sapatos. Impressionante a visão do niño, parece estar dormindo. Como pode estar tão incólume com mais de 500 anos de idade?
A Menina do Raio, por sua vez, teve seu corpo queimado por um raio que caiu sobre ela logo depois de ser enterrada. O seu crânio tinha uma forma cônica em sinal de hierarquia e beleza.
Conforme linguistas, Llullaillaco significa “água de memória”. A montanha é considerada sagrada. Os sacrifícios eram ditos naturais por muitos indígenas da região (em entrevistas). Aconteciam para prevenir doenças e ganhar fartura. Uma professora reportou: “Dizem que lá há muito a ser descoberto e por meio deles se conheceu mais a região”.
Um pouco de história da região: em 10.000 a. C. existiam os grupos caçadores; em 3.000 a. C. a domesticação de animais, e vegetais; em 600 a. C. as primeiras aldeias; em 600 d. C as aldeias desenvolvidas; em 1.000 d. C. os povoados; em 1.400 d. C. chegam os Incas; e em 1.532 d. C. chegam os espanhóis.
Capa do folder do MAAM – foto tirada por Mônica D. Furtado
Em suma, nunca visitei um museu tão impressionante como esse. Saímos de lá abismados. Parabéns a Salta e continue cuidando da sua história e riqueza cultural assim.
O próximo artigo será sobre o Museu Histórico do Norte no Cabildo.
Hoje é dia 23 de outubro de 2018. O Carlos foi conhecer a maravilha da Quebrada de Humahuaca em Jujuy com a excursão da agência Tintikay sem mim (duração: 14 h). Eu estava cansada e resolvi desbravar a linda cidade. Dá pra uma mulher sozinha fazer turismo em Salta, pois as pessoas são respeitosas e o local é seguro.
Hotel Solar de la Plaza-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Casas perto do Solar de la Plaza-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Tomei o café da manhã do hotel Solar de la Plaza com calma. Biscoitos caseiros (galletitas), minibolo de maçã com pouco açúcar e cremoso (uau!), bolachinha com doce de leite e chocolate, alfajores pequeninos, brownies, enfim, uma delícia. Decidi que desta viagem em diante eu iria comprar leite desnatado (leche descremada) no supermercado, logo todos os dias desço para o café da manhã com o meu. O leite argentino é divino: encorpado e gostoso, porém fico com o meu sem gordura e a consciência dói menos…
Porta do Convento São Bernardo – Salta – foto tirada por Mônica D. Furtado
Caminhei, observei, fiz compras e senti o clima de Salta. Aliás, tinha chovido e o clima esfriara. Fui novamente ao Convento San Bernardo e comprei uma medalhinha pela janela móvel, já que são freiras reclusas.
A deliciosa humita de Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
As comidas típicas da região são as nozes confeitadas, doces regionais, tamales (com carne; trata-se de uma massa feita de milho, que pode ser cozida a vapor), salame e carne de lhama e humita. Essa eu provei com um café chico (pequeno) e paguei 80 pesos. Trata-se de uma pamonha de milho mais doce e mais cremosa que a nossa do Ceará. Sentar em um café com pessoas da terra e sem pressa não tem preço. Aconselho o La Tacita Café.
As lojas variadas e com artesanatos coloridos são um colírio para os olhos. Uma loucura! Lembrei-me de Cartagena na Colômbia. Salta é feita para o turismo. Agrada a todos. A Loja do Convento na rua Caseros tem preço muito bom para as lembrancinhas. A Coya Artesanías na mesma rua também gostei.
O argentino do norte do país tem descendência indígena, por isso é tão diferente fisicamente do do restante do território. Amo o povo e eles amam a gente.
O almoço foi no Rosseto´s Café por 210 pesos: frango grelhado com salada e limonada. E lá estava o indefectível jornal para a leitura: El Tribuno Salta. Considero fantástico chegarmos aos cafés ou restaurantes e encontrarmos jornais. A leitura é um costume na Argentina e Uruguai. Ponto para eles.
Panteão das Glórias do Norte-Catedral de Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Estátua do papa viajante João Paulo II em Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
De lá fui à Catedral de Salta novamente. Erigiu-se a Catedral por Bula de Pio VII em 28 de março de 1806 ao criar-se o Bispado de Salta. Em 4 de junho de 1810 foi inaugurada no antigo templo da Cia. de Jesus. O Panteão das Glórias do Norte, com urnas do herói Gal. Güemes, Gal. Frías, Monsenhor Romero e outros, está localizado dentro da catedral. Tirei foto da estátua em bronze do papa João Paulo II em frente à Catedral, como uma devida homenagem do povo de Salta em 1987.
Praça 9 de Julho em Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Praça 9 de Julho no centro histórico de Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Dei uma olhada na Peatonal Alberdi com muito a ver em termos de lojas e sentei um pouco na praça 9 de Julho. Ali se escuta música clássica. Demais!
Assembleia Legislativa em Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Resolvo voltar ao hotel e tiro uma foto da Assembleia Legislativa em frente à praça Güemes, onde está o nosso Solar. Todos os dias há gente fazendo barulho e protestando em frente, mesmo que poucos. Também testemunhei outro dia marchas de protesto em uma rua no centro. Tudo controlado pela polícia de forma pacífica.
No caminho para o hotel, vejo muitos vendedores. Comercializam frutas pelas ruas, queijos, tortilhas variadas, panetones etc. Sobrevivem como podem.
Digno de nota reportar que o argentino é família e católico. Notei a imagem de Cristo e do papa Francisco em lojas e outros lugares. Recordei do Cariri cearense com sua devoção ao Padre Cícero.
Salta é centro de turismo estudantil e religioso. Estudantes não faltam, são milhares. E grupos religiosos também. Soube que a Nossa Senhora do Cerro é venerada. Sempre há uma multidão aos sábados para vê-la. Esse local é afastado da cidade. Já N. Sr. e N. Sra. do Milagre são adorados na Catedral.
Em breve vamos ao fabuloso MAAM (Museu de Arqueologia de Alta Montanha).
Casa em Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Cidade de Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Hoje é dia 22 de outubro de 2018 e continuamos na excursão até Cafayate, ao sul de Salta. Estivemos na Quebrada do Rio das Conchas ou Quebrada de Cafayate e agora rumamos ao município com a segunda maior produção de vinhos do país. São vinhos de altitude, uma vez que as uvas são cultivadas em terras a 1.660m acima do nível do mar, concedendo-lhe um sabor especial.
São duas maneiras de chegar à localidade: pela Ruta 68 (toda asfaltada e mais curta – 189 km) ou pela Ruta 40 (percurso maior com 320 km). É comum ir por uma via e voltar pela outra. As paisagens de formações rochosas e montanhas embelezam ambos os percursos.
Casa/restaurante em Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Restaurantes que circundam a praça principal em Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Cafayate na língua quichua significa “grande lago ou lago do cacique”. De acordo com o http://www.welcomeargentina, “a cidade foi fundada em 1840 por Dom Manuel Fernando de Aramburu, cumprindo a vontade de sua mãe e encarregou a Dom Rosendo Frías a demarcação do povoado. Da união dos vales Santa Maria e Calchaquí e na Quebrada do Rio das Conchas, entre bonitas paisagens das montanhas Três Cruzes e Morales, ao pé de San Isidro se levanta Cafayate”.
O festival de folclore mais importante do norte argentino ocorre uma vez por ano e se chama “Serenata Cafayate”. No ano de 2019, realizou-se nos dias 21, 22 e 23 de fevereiro no Payo Solá na Bodega Encantada no centro da cidade. Grandes cantores e grupos de folclore, como Abel Pintos, La Cantada e Paola Arias estiveram na festividade.
Vi muitos cactos pelo caminho, planícies pluviais e montanhas. Eis o Valle de Calchaquí. A areia parece de praia do leito de rio seco.
Chegamos a Cafayate (fala-se “Cafajate”). A Ruta Nacional 40 passa por onze províncias e em Cafayate só tem uma mão. Segundo centro turístico do norte da Argentina após Salta, lugar de bodegas, lojas de artesanato e de degustação de produtos regionais e vinhos. Há vinhas à direita e à esquerda, usam o método italiano, exclusivo para o vinho torrontés.
A terra é do sol e do vinho torrontés. Hoje são 120 bodegas, quatro anos atrás eram 40. Os trabalhadores vêm de Mendoza e San Juan.
Carlos e Martin Gauna na praça principal em Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Martin Gauna, eu e Marta Ferreira na praça principal em Cafayate-foto tirada por Carlos Alencar
Fizemos compras na loja Alfajores Calchaquitos (Av. Güemes, 124) com uma gama imensa de produtos. Como passas, postais, roupas de lã etc. O almoço foi no restaurante El Criollo, onde conversamos bastante com um casal bastante agradável e simpático de Buenos Aires: Marta Ferreira e MartinGauna. Saudaciones! De almoço eu fiquei na massa e o Carlos pediu de prato principal matambre, tão comum no Rio Grande do Sul e a cara da minha avó Dinah. Conforme a Wikipédia: “é um pedaço de carne que se extrai dentre a pele e a costela do gado bovino. A maneira mais conhecida de preparação é o matambre enrolado, preparado típico da Argentina, Paraguai e Uruguai, que se consome principalmente na época natalina”. No restaurante, tudo tinha carne, afinal é a boa e velha Argentina.
Catedral Nossa Senhora do Rosário-Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Catedral N. Sra. do Rosário em Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Muito original a cidade. Parece de velho oeste. As construções são mais altas e as ruas mais largas do que em Salta. A Catedral, da patrona do município, Nossa Senhora do Rosário, de 1895, foi construída pelo padre Julian Toscano e é a sede da prelatura (prelazia) de Cafayate desde 1969.
Praça principal de Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu na praça principal de Cafayate-foto tirada por Carlos Alencar
A mais importante via é a Av. Güemes que corta a cidade de norte a sul, passando pela praça principal, onde está o comércio com suas lojas coloridas de artesanato, restaurantes diversos, galeria de arte e os hotéis. Esta via no sentido norte, após passar a ponte do rio Chusca, direciona os motoristas para a Ruta 40 no sentido de Cachi ou Ruta 68 diretamente a Salta.
Estava muito quente: 42˚C. Abafado, querendo chover. Pena não ter provado os sorvetes de vinho torrontés (branco) e cabernet (tinto), com teor alcoólico, na sorveteria Helados Miranda (Av. Güemes Norte, 170), iguaria original da cidade, criada pelo dono do estabelecimento.
Bodega Vasija Secreta-Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Frente da Bodega Vasija Secreta-Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Cacto gigante típico da região-Bodega Vasija Secreta-Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Após o almoço era hora de visitar uma bodega familiar e a mais antiga: Vasija Secreta, situada na saída norte da estrada, em direção à Ruta 40. A guia Susana nos ensinou muito. Vamos lá. Existem três setores na bodega. Tudo é manual, a água de gelo é usada. O vinhedo é orgânico, não utiliza pesticida. A construção foi em 1807 e aberta ao público em 1857.
Tonéis de madeira da Bodega Vasija Secreta-Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Primeira máquina prensadora-Bodega Vasija Secreta-Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Primeiros filtros em exposição-Bodega Vasija Secreta-Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
Fotos históricas dos donos saltenhos estavam expostas na parede. A primeira máquina-prensadora-vinda da Itália em 1900; os primeiros filtros; e os tonéis construídos a mão em exposição. Para cada vinho, uma temperatura ideal, mas os 40˚C do verão não fazem bem à produção. Para os brancos de 5˚C a 10˚C, sendo melhor consumir de 5 meses a 3 anos.
O Museu das Bodegas com suas primeiras máquinas vinícolas, com tanques de fermentação e outros controlados por um rapaz no laboratório. Nos tanques brancos há a separação do vinho da casca da uva. Qualquer um coleta a uva, mas para podar é específico. De fevereiro a maio, três turmas de trabalhadores são necessárias. O vinho Gata Flores tinto cabernet da bodega ganhou o “Prêmio Internacional de Reconhecimento de Eficiência”. Depois da visita, a degustação. Provamos um torrontés semidoce (colhido em fev. de 2018) e um malbec tinto. Gostei do primeiro, pois o paladar frutado caiu bem.
Interessante dizer que o dique Cobra Corral, de 13 mil hectares, se localiza em Cel. Moldes (no caminho de Salta a Cafayate). Passa-se pela represa ao sul de Salta pela Ruta 68. Foi construído na década de 70 e ajudou a acabar com as inundações da área. Praticam-se esportes náuticos ali.
A viagem de volta a Salta foi de uma hora e meia. Foi um dia bem completo, fomos de um lugar exótico indígena (Quebrada do Rio das Conchas) até a cidade das bodegas do norte (Cafayate). Valeu o passeio. Para os amantes do bom vinho argentino, Cafayate e Mendoza são obrigatórias. Viva o vinho! Néctar dos deuses…
Argentina – Salta – Los Cerrillos – Quebrada del Rio de las Conchas
Hoje é sexta, dia 22 de outubro de 2018. Pegamos a excursão que vai até a cidade dos vinhos: Cafayate, porém não vamos direto, passaremos por lugares bem interessantes antes. Vamos pela agência de turismo Tintikay e, juntamente com o city tour, pagamos 1290 pesos argentinos, só para lembrar. No grupo: argentinos, chilenos e nós. Achei ótimo, assim hablamosmucho.
O horário de busca foi pelas 7.30h, sem dúvida, um dia longo. O guia foi o Ramiro e o motorista o Leonardo. Iniciamos pelo município Los Cerrillos (diz-se “Cerijos”), considerado a capital do carnaval, onde ocorre a festa mais afamada da província de Salta. Em todos os domingos de fevereiro, a população se encontra na praça principal para brincar de “mela-mela”, ou seja, jogar farinha e água uns nos outros. As jovens solteiras colocam flores na orelha e os rapazes também. Segundo o guia, a taxa de natalidade é grande em novembro e nem sabem quem é o pai… Por isso, os bebês são chamados de filhos do diabo. Los Cerrillos tem igreja, praça e é tão bem apresentada.
Nossa van na excursão à Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Ruta Nacional 68-de Salta a Cafayate-foto tirada por Mônica D. Furtado
A estrada (Ruta Nacional 68: sem buracos, muito boa) que vai de Salta a Cafayate tem 192 km. A região produz quantidade de tabaco (a matéria prima), alfafa (tipo de capim para o gado), milho e muito vinho. Em La Merced se planta flores. A cidade é graciosa, com flores na praça principal. Vislumbramos El Carril. Em Cel. Moldes (outro importante saltenho que lutou pela independência, cidade a 62 km de Salta), houve uma parada técnica para banheiros e café, uma vez que na zona de montanhas não há sanitários. Lá comemos amoras silvestres do pé. Uma delícia! Pertence ao departamento de La Viña.
Nesta parte de Salta chove muito, o que é positivo para as uvas. Molinos, cidade da província de Salta, tem 180 anos e lá está a família pioneira na produção de vinhos. No município de La Viña (a 88 km de Salta) se produz uvas comestíveis. A colheita de tabaco é manual. Em Cafayate, o vinho mais famoso é o Torrontés, o qual representa 80% das plantações.
Os povoados estão ao pé da montanha, quando chove, a água entra nas casas, então são construídas sobre uma plataforma. Cafayate tem arquitetura colonial e é de 1840. Já a melhor arquitetura do país está perto: em Cachi sobre as margens do rio Calchaquí.
Continuamos na estrada e passamos por Alemania. Um local no qual os primeiros habitantes eram alemães chegados ali depois da Segunda Guerra Mundial. O trem vinha de Salta, sendo a última parada lá. Usavam cavalos para o seu trabalho de comércio. Nos anos 60, a ferrovia estava em grande parte da Argentina, todavia um dia parou de funcionar, logo os alemães se mudaram para Rosário e a cidade de Alemania ficou abandonada. Quem chegou e ocupou as casas foram os hippies. Trabalham com artesanato. São 50/60 habitantes, mas na temporada de inverno cresce para 200, com os jovens que vêm para trabalhar.
Como há uma planta alucinógena na área chamada “brea”, diz o guia que os hippies escutam o som do trem e de muita gente. Afinal, a estação era bastante movimentada. E é considerada única, com arquitetura inglesa. Falando na tal planta, em Cachi existe uma curandeira na praça principal que vende a raiz de brea e ervas medicinais. Elas têm aroma forte e são boas para muitos males, aliás a brea é usada para depressão, é seca, sem folhas e tem cor verde-amarelada, por causa da clorofila.
Dado histórico: os incas e os espanhóis entraram na Argentina pela Quebrada de Humauaca em Jujuy (perto de Salta), a mais importante do país. “Quebrada” significa caminhos naturais. Também um passo estreito entre montanhas que forma uma espécie de lago, equivalente a um desfiladeiro. Estamos na Cordilheira dos Andes, formada pela Placa Tectônica Sul Americana. Por estar sempre em movimento, há tremores de terra e terremotos, como em Mendoza e San Luís. Nas montanhas são encontradas fossilizadas conchas marinhas, demonstrando que havia mar no longínquo passado.
Solo desértico na região da Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Geografia da região da Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
As casas da região são de barro e areia para o isolamento térmico: no verão, fresco; no inverno, quente. Chove de janeiro a março. No verão o rio está cheio, mas é uma estação perigosa de vir por estas plagas, pois os arroios cruzam a estrada e quem tenta passar, pode ser arrastado e morrer. Eis o motivo de vermos muitas cruzes pelo caminho, conforme o guia.
Vê-se montanha em forma de empanada. Falando em empanada, o Ramiro nos convida a comer a típica empanada saltenha (com ovo, batata, carne, pimentão etc). Da mesma forma, montanha em formato de sapo, dita “sapo cancioneiro”, de obelisco e de janelas. Tudo é aproveitado para o turismo.
Placa da Garganta do Diabo na Quebrada das Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Placa da Reserva Natural Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu na Garganta do Diabo na Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Carlos Alencar
A região é montanhosa, contudo seca, tem arbustos que sobrevivem à pouca água. Estamos na Quebrada do Rio das Conchas, na Ruta Nacional 68. Visitamos as duas principais atrações.
Carlos na Garganta del Diablo-Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu na Garganta do Diabo-Quebrada das Conchas-Salta-foto tirada por Carlos Alencar
Eu na Garganta del Diablo na Quebrada de las Conchas-Salta-foto selfie tirada por Mônica D. Furtado
A Garganta do Diabo era uma cascata no passado, hoje é seca. Trata-se de uma abertura gigantesca na pedra. O local é impressionante. É proibido escalar.
Placa do Anfiteatro indígena-Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Anfiteatro indígena-Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Também vimos o Anfiteatro. Segundo o Guia Criativo para o Viajante Independente na América do Sul (de Zizo Anis e Os Viajantes, quarta edição): “uma concha acústica natural, quase uma caverna sem teto, onde a atração é brincar com os ecos. Eventualmente, em julho, há espetáculos musicais no local”. Considerado Patrimônio Cultural da Comunidade Indígena Suri Daguita para observação e estudo da cosmovisão. Estupendo! Na rocha gigante se está a 1800 m acima do nível do mar. Há um limite para chegar perto.
Anfiteatro indígena com sua acústica na Quebrada das Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Nós no Anfiteatro na Quebrada das Conchas-Salta-foto selfie tirada por Mônica D. Furtado
Cenário do Anfiteatro indígena-Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Ali vemos alguns vendedores de artesanato e instrumentos musicais, como a ocarina. Segundo a Wikipédia: “instrumento de sopro globular feito, geralmente, de porcelana, madeira ou pedra. Pertence à família das flautas”.
Placa Tres Cruces-Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Mirador Tres Cruces-Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu na placa Tres Cruces-Quebrada de las Conchas-foto tirada por Carlos Alencar
Cerca do Anfiteatro, está o mirador com um cenário espetacular do vale lá embaixo e o cerro Tres Cruces, ou seja, em cima do monte está o monumento das Três Cruzes: Pai, Filho e Espírito Santo. O lugar é uma mistura de São Raimundo Nonato (PI) com o deserto do Atacama no Chile. Salta sempre surpreendente, nunca imaginei que fosse tão rica e exótica.
Visual do vale abaixo da placa Tres Cruces na Quebrada de las Conchas-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Iniciamos o dia com clima chuvoso e agradável, porém foi esquentando até os 40˚C.
As rochas pelo percurso são coloridas de diferentes nuances. Os passarinhos que moram em buracos nas rochas na Quebrada, vão pela manhã a Cafayate comer uvas. Logo, as bodegas têm maneiras de evitar isso, geralmente com sons.
Na região do deserto da Quebrada de las Conchas existem muitos tatus. O casco no passado era utilizado para fazer instrumento musical. Atualmente é de madeira. Há lhamas, iguanas, lagartixas, víboras, cobra coral e cascavel. A cobra com cabeça triangular tem veneno. O leão da montanha nomeado “puma” marca seu lugar com urina a qual tem um aroma muito forte. Há superpopulação e há de se ter cuidado, pois todos os anos pessoas morrem pelo ataque delas. O país mandou 76 para os Estados Unidos de modo a diminuir os problemas.
A erosão e água formam uma paisagem única na Terra. A gente se sente em tempos pré-hispânicos. Valeu demais ter conhecido.
Saindo da área da Quebrada, começam os vinhedos. Em breve, Cafayate.
Argentina – Salta – Cerro San Bernardo e Estância de Veraneio San Lorenzo
Subida ao cerro San Bernardo-Salta-foto de Mônica D. Furtado
Teleférico do cerro San Bernardo-foto de Mônica D. Furtado
Hoje é dia 21 de outubro de 2018 e continuamos no passeio do city tour à tarde. O guia Davi nos dá dicas sobre os locais por onde passamos. San Bernardo é 3 km e meio de Salta, tem 600 mil habitantes e se pode subir a montanha de carro, ônibus ou por funicular (estação na praça San Martin). Estamos a 300 km do Chile a oeste e a 400 km da Bolívia ao norte.
As montanhas são as mais jovens da Terra, tremem todos os dias e a cada dois anos acontece um movimento importante.
Cerro San Bernardo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Vegetação no cerro San Bernardo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Em San Bernardo estamos a 1454 m acima do nível do mar. A água é reciclada, há mirante com plataformas, lojas de artesanato, confeitaria, dentre outros. A folha de coca se compra nos quiosques e servem para o mal estar causado pela altitude. Lembrando que tem um gosto forte e se coloca no canto da boca e não se mastiga.
Local de reciclagem de água no cerro San Bernardo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu mostrando a água sendo reciclada no cerro San Bernardo-Salta-foto tirada por Carlos Alencar
O solo é hostil por aqui. As árvores perdem as folhas que adubam a terra. Vê-se o autódromo Güemes de cima. Antigamente se tirava a madeira e a terra do cerro, hoje isso é proibido. A Reserva Provincial foi criada há 70 anos para proteger a área. 300 mil anos atrás a região era um lago, segundo geólogos.
O dique Cobra Corral ao sul produz energia hídrica e lá se pratica a pesca e o rafting. Bonito ver as pedras em três níveis colocadas para proteger a rocha: gabiões, ou seja, segundo a pt.wikipédia.org, trata-se de estrutura flexível armada, drenante de grande durabilidade e resistência, são feitos com malha de fios de aço galvanizado, em dupla torção, amarrados nas extremidades e vértices por fios de diâmetro maior e preenchidos com pedras. Encontramos pelo caminho do cerro para evitar deslizamento.
O Carlos e eu no mirante do cerro San Bernardo-Salta-foto tirada por uma turista
Visual de Salta lá em baixo-Cerro San Bernardo-foto tirada por Mônica D. Furtado
Cenário visto do mirante-Cerro San Bernardo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Na zona de montanha, a variação térmica vai de 38˚C de dia para 20˚C à noite nessa época. É grande amplitude térmica. Não há umidade e nem neva. Em geral a temperatura é de 16˚C.
Interessante dizer que nesta área de Salta se homenageiam com estátuas até grupos de músicos locais. Aliás, há grande produção literária e de folclore, são muitos os músicos e poetas. Os locais de música noturnos típicos para nativos e turistas são as peñas: restaurantes com música regional para dançar à noite, muitas existentes perto da antiga estação de trem e nas seções mais turísticas da cidade. Infelizmente, não fomos, estávamos sempre exaustos à noite, mas deve ser bem divertido.
Passamos por bairros diversos de Salta: o Güemes é o mais caro e o Gran Burgo, o centro cívico (administrativo). Parece a Europa com suas praças e monumentos. Vimos o Monumento da Vitória que diz respeito à segunda batalha de Salta pela independência, a primeira foi a de Tucumán.
Há jacarandás na cidade vindos da Bahia. O serviço militar não é obrigatório no país. Cruzamos o hospital militar o qual atende o público civil também. O Batalhão de Engenharia de Montanha com sua vila militar foi novidade. A área militar é bem extensa. Mais ao norte percorremos duas universidades e tribunais. O deserto do Atacama do Chile está a oeste.
Castelo de San Lorenzo-Salta-foto tirada de dentro da van por Mônica D. Furtado
Vamos ao município de casas de finais de semana agora. Estamos em San Lorenzo. A sede administrativa é independente de Salta. O rio com o mesmo nome está seco no momento, depende das chuvas. Tudo é muito verde e úmido. Por conta da altitude é mais frio uns 4˚C. Localiza-se a uns 15 km de Salta e tem casas grandes e bonitas, restaurantes e hotéis. O centro é tranquilo. A cidade é arborizada, linda, com moradores que vivem na paz. Digno de nota o castelo de San Lorenzo, construído por um italiano, destinado a ser restaurante na atualidade.
Carlos e um cavalo na Reserva Natural Quebrada de San Lorenzo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Carlos mostrando os produtos típicos da região na Reserva Natural Quebrada de San Lorenzo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Os saltenhos andam a cavalo e fazem piquenique na Reserva Natural Quebrada de San Lorenzo. Lá se compra produtos da terra e artesanatos coloridos.
Mapa da Reserva Natural Quebrada de San Lorenzo-Salta-foto tirada por Mônica D. Furtado
Eu na Reserva Natural Quebrada de San Lorenzo-Salta-foto tirada por Carlos Alencar
O guia nos informa que dia 17 de junho é feriado nacional em honra ao General Güemes, herói fundamental à independência. Era de família rica, mas mais próximo aos pobres ditos gaúchos. Os ricos ficavam enraivecidos. Na excursão os guias sempre falam da importância do General San Martin para a Argentina e Chile e mencionam Simon Bolívar para os outros países da América do Sul hispânica.
Pera, maçã, cítricos, banana e tabaco são produtos da região. Carne de lhama (livre de gordura), de gado e o couro são fundamentais para a economia. Não podemos esquecer a energia produzida. Vimos muitas residências com energia solar. A indústria não é forte.
O nome Salta significa “lindo lugar para crescer” na tribo indígena de los Saltas.
Para finalizar a tarde, visualizamos o Mercado de Artesanato que está sendo renovado há um ano. As lojas se situam do outro lado, porém ninguém quis descer, estávamos cansados. Detalhe: fora do centro as casas e lojas têm grades, isso quer dizer que o centro histórico é mais protegido.
Vale a pena fazer o city tour. O guia Davi ajudou muito pelo seu conhecimento.