Diários da COVID
Escrever é terapêutico, cura. Enquanto me deleito com a escrita, ainda estou com sequelas pós-COVID, no meu 26° dia. Ainda tenho suores noturnos, problemas gástricos (meu tio médico Gildo disse para tomar Motilium, já que Luftal não resolve), baixa concentração e dificuldade para respirar (menos de 25 % do pulmão foi comprometido, aí o Decadron corticoide), e insônia desde o primeiro dia.
Vamos lá. A saga começa dia 3 de fevereiro de 2021, quando me sinto mole e a temperatura vai de 33.4° C a 38° C no mesmo dia, estava almoçando com meus pais. Vou para o meu apartamento com embrulho no estômago, um pouco de sinusite e tosse. Desconfiava já da COVID.
No dia seguinte, falo com meu cardiologista dr. William e ele me manda ir lá na clínica. Chego de máscara e face shield (obrigada, cunhada Cláudia), ele me consultou e mandou fazer os primeiros exames de sangue e o PCR para checar se era COVID mesmo, na clínica da UNIMED da av. Barão de Studart aqui em Fortaleza. O resultado saiu no dia 7 de fevereiro e deu positivo com taxas de sangue alteradas. Detalhe: saí do dr. William com o protocolo usado por muitos médicos daqui de Fortaleza: 2 dias de Invermectina (para vermes) e 5 dias de Azitromicina (antibiótico). Estava na Fase 1.
Os dias passam e a lista de padecimentos é enorme. O vírus é inteligente, ataca seus pontos fracos: sinusite, tosse pouca, doem os pés (fascite plantar), dores musculares, diarreia, suores noturnos, insônia, as cicatrizes das cirurgias das mamas (por conta do câncer de mama superado em 2019), e o ataque assassino de gases sempre de noite (os tais problemas gástricos) etc.
No 9° dia (10/02/2021), o dr. William ligou, disse que eu estava entrando na Fase 2, a da inflamação, e sugeriu que fosse fazer uma tomografia no hospital. Resolvi ir ao São Mateus, uma vez que o meu namorido Carlos estava internado com COVID e a filha dele Denise poderia me dar uma assistência no local. Saí de lá com uma fome danada e sem a tomografia, a máquina quebrara. Uma frustração. A Denise me salvou com a comida dela, fui comendo ao me dirigir para casa.
Às 15h decidi ir ao hospital da UNIMED sozinha, afinal é uma doença solitária. Saí de lá às 20h, exausta com o protocolo. Passei pelas enfermeiras para checagem de temperatura e saturação do oxigênio, estava bem. O hospital lotado com duas emergências separadas, eu estava logicamente na da COVID. A médica excelente dra. Alzira Falcão me encaminhou para mais exames de sangue e tomografia (finalmente!). Deu menos de 25 % infectado, um alívio! Então, ainda estava com forças, havia levado uma bolsa com coisinhas minhas, caso precisasse me internar. Fui comer ali no café, mas sem fome. A COVID tira a nossa fome e diminui o gosto da comida.
Graças a Deus, voltei para o meu lar, meu refúgio. Só. A médica passou Zinco, Pantoprazol para proteger o estômago e corticoide Decadron. A fadiga típica do corona iniciou-se no dia 9/2, no oitavo dia, bem difícil. A gente depaupera, perde a energia vital e quilos. Aí começa a respiração mais difícil.
Nesse meio tempo, o Carlos estava na minha frente uns cinco dias, também com COVID. Baixou hospital duas vezes, a primeira por problemas gástricos, na segunda vez ficou no São Mateus, aliás, muito bem assistido, felizmente. Foram nove dias de oxigênio intermitente, quase desmaios e muita fraqueza, teve 80% do pulmão comprometido, nos preocupamos muito. Para mim, foi um estresse extra. Hoje está em casa, bem cuidado pela filha Denise, são vizinhos de andar. Como se diz, se recuperando lentamente. O quadro dele foi o mais grave dentre os nossos. Afetou o sistema nervoso central. Isso ocorre, mexe com o humor e causa irritabilidade, dentre outros sintomas.
Aí vieram meus pais, a saga continua… Pegou meu pai (87 anos) e minha mãe (84 anos), impossível isso não acontecer, já que moram sós. Independentes e autônomos, coloquei com o aval dos meus irmãos (moram fora) técnicas de enfermagem para ficar com eles dia e noite. Um time fabuloso do hospital São Mateus. Muito obrigada, Ana Lúcia, Marta, Denise, Aparecida, Silvandira, sem vocês não teríamos sobrevivido bem. Foram hospitais, exames e muita perda de sono (que já era pouca), mas vamos vencendo. Hoje estão bem, se alimentando e se recuperando.
Grata eternamente ao tio Gildo, médico e irmão do meu pai, que sempre esteve presente diuturnamente e nos confortou com sua maneira calma de ser nos momentos de desespero. Gildo, você nos carregou no colo. À prima Flávia, também médica e filha do Gildo, que levou meu pai para fazer tomografia pela primeira vez no hospital da UNIMED; ao irmão Rogério de SP que veio dar um suporte fundamental; à Lindiane cunhada pelos aconselhamentos médicos; aos pais da Lindi que entraram na corrente do bem; ao amigo irmão Sérgio que trouxe minha mãe e a técnica de enfermagem Denise do hospital às 23h para casa, quando os dois foram fazer exames e meu pai a tomografia pela segunda vez, com o Rogério ficando lá com nosso pai; à amiga Lilian (esposa do Sérgio) que foi checar meus pais e ainda deu de presente um nebulizador novinho em folha, e levou minha mãe para ser vacinada (já deveria estar doente, mas valeu a dose no drive do Iguatemi);, ao irmão Ricardo e cunhada Cláudia pelos telefonemas diários e constantes do RS, enfim tantos a agradecer. Para quem não pegou COVID, ter contato com alguém que tem, é coragem demais.
Foram tantos os telefonemas para eles, as orações, as manifestações dos vizinhos e amigos dos meus pais. Agradecida às comidas, sopas, bolos, pudins, bananas passas que chegaram dos anjos: Rita, Araruna, tios Mauro e Heloísa, tios Celso e Leda, Ivana na sua ajuda diária, Cynthia Moreno, prima Maria Angélica, queridas Denise e Beatriz, a vocês, muito grata.
Quanto a mim, tudo isso acontecendo e eu presa em casa sem poder fazer nada. Dei conta da logística familiar pelo zap e telefone, pelo menos isso.
Se não fossem as minhas amigas/irmãs-anjos, amigos/irmãos, não teria vivido, já que as forças se vão e não temos energia nem para descer as escadas. Sozinha em casa, me senti amparada e amada. Obrigada à Claudiana, Solange, Karuza, Rita/Araruna, Drica, Andréia, prima Leyla, Cynthia Moreno, Eveline, Simone comadre, Denise, Roberta, Adalgisa comadre, prima Vera, irmão Rogério, primos Andrezza e Bruno, que gentilmente e generosamente me trouxeram tanto: compras, farmácia, canjicas, bolos e doces (calorias, por favor), nebulizador. O chef Thiego cozinhando especialmente para mim foi de uma consideração incrível. Os vídeos da minha fisioterapeuta Ingrid me ajudam com a respiração mais curta. A vocês essenciais, o meu muito obrigada. Todos os dias faço exercícios pulmonares, tomo solzinho e nebulizações.
Tantas orações, rezas, reiki, zaps, vídeos, áudios, muito confortam. E vamos vencendo, todo dia uma vitória, lenta, mas real.
No idoso e na gente também, esse corona afeta a concentração, dá confusão mental e problemas de memória. No momento, minha mãe está em plena COVID e meu pai em processo de cura, só Deus para agradecer muito.
Importante mencionar certos fatos. O dr. Galvão, otorrino cirurgião do Carlos, fechou seu consultório particular a fim de se dedicar aos pacientes da COVID no hospital. Eis uma missão de vida.
Este artigo, escrito no calor do momento, tem o intuito de se expressar e curar. Escrevo sobre o que vivo. E para dizer que só quem tem COVID sabe o que é a fadiga causada que tira a nossa energia vital. Mas vamos progredindo.
Em tributo aos profissionais da saúde, exaustos com a síndrome de burnout, porém nunca desistentes do seu papel de salvar vidas, o meu respeito. Aqui homenageio minha afilhada Regiane, enfermeira digna de nota, que está na linha de frente desde o início da pandemia.
Em homenagem às pessoas amigas, doces, cativantes, charmosas e felizes que nos deixaram recentemente. Ficam registrados em nossos corações saudosos a Judite, a Celeste, o Flávio, a Ivone e o Adriano. Foram muitos outros desde o ano passado. Ficam famílias enlutadas, sofrendo. Nosso abraço solidário de carinho a vocês.
E pela vacina de forma rápida e geral. Se todos já estivessem vacinados, a história seria diferente. Sou do time de todas as vacinas. O Carlos e eu tomamos a do herpes zoster e a da meningite recentemente.
E para concluir, seguimos nestes tempos desafiadores com o nosso grande aprendizado de sofrimento familiar e coletivo. Venceremos e teremos “força na peruca” (amo esse termo!).
