QUANDO A CASA DOS AVÓS SE FECHA Por Ana Maria Moura de Souza

QUANDO A CASA DOS AVÓS SE FECHA

Ana Maria Moura de Souza em 14/10/2020

Acho que um dos momentos mais tristes das nossas vidas é quando a porta da casa dos avós se fecha para sempre, ou seja, quando essa porta se fecha, encerramos os encontros com todos os membros da família que, em ocasiões especiais, quando se reúnem, exaltam os sobrenomes como se fossem uma família real e eles (os avós) são culpados e cúmplices de tudo.

Quando fechamos a casa dos avós também terminamos as tardes felizes com tios, primos, netos, sobrinhos, pais, irmãos e até recém-casados que se apaixonam pelo ambiente que ali se respira. Não precisa nem sair de casa, estar na casa dos avós é o que toda família precisa para ser feliz.

As reuniões de Natal, regadas com o cheiro de tinta fresca, que a cada ano que chegam, pensamos “… e se essa for a última vez?” É difícil aceitar que isso tenha um prazo, que um dia tudo ficará coberto de poeira e o riso será uma lembrança longínqua de tempos melhores.

O ano passa enquanto você espera por esses momentos e sem perceber, passamos.

Nota da editora: este artigo mostra a urgência de viver cada momento intensamente, pois tudo passa e o que fica são as ternas lembranças felizes.

Conto de Pós-Natal por Ana Tavares

Conto de Pós-Natal por Ana Tavares

Medo. Pós-Natal…

Dia 24 nos reunimos como pudemos. Cinco filhos e proles, tudo parcelado. Uns viriam um dia, outros em outro e assim seria nosso Natal com mamãe, de 102 anos.

Éramos vinte e um vacinados contra a tristeza, a ruindade do mundo “cão” e contra a COVID. Duas crianças inocentes em campo aberto sem vacinas.

Teve comida farta, leitura de passagens da Bíblia, abraços, distribuição de presentes, várias lembranças dos outros Natais parcos ou fartos, mamãe meio adormecida e nós, contentes, por estarmos num espaço sagrado, ideal para este dia.

Na manhã seguinte, noblesse oblige¹, a metade voltou, ávida para retornar à festa e, evidentemente, para comer as excelentes iguarias que sobreviveram.

Entre os muitos telefonemas de confraternização, recebemos um que abalaria qualquer sobrevivente na Terra hoje: “acabei de receber meu exame positivo da COVID”. Silêncio sepulcral. Quem vai pegar também?

Um infectologista nos aconselha exame após cinco dias. Assim foi feito. Todos pensamentos concentrados no querido infectado e nas crianças… Era um tal de telefonemas e mensagens de “Coméquitatú”? Dois dias depois, o comunicado da esposa do infectado. Estava com COVID.

Cinco dias depois nunca entregamos nossas narinas para um cotonete gigante com tanto gosto… (nunca pensei que dois ou três dias para os resultados custasse tanto a passar). Até agora, negativados. Susto grande…

¹ “Noblesse oblige” significa, à letra, “nobreza obriga”. Esta expressão é utilizada quando se pretende dizer que o facto de pertencer a uma família de prestígio ou ter uma certa posição social ou ter um nome honrado ou famoso obriga a proceder de uma forma adequada, à altura do nome que se tem.’ In Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/noblesse-oblige/13583 [consultado em 03-01-2022]

A autora Ana Tavares é professora de francês aposentada da Casa de Cultura Francesa da Universidade Federal do Ceará, e também da graduação em letras da Universidade Estadual do Ceará. Ama escrever e viajar. Obrigada, amiga de longa data, por colaborar com o meu blog.

Coleção de Contos de Natal por Ana Tavares

Coleção: “Meus Natais que Ficaram” por Ana Tavares

Momentos inesquecíveis

Anos 50, Natal se anunciando. Dinheiro raro, casa pequena, encerada com escovão, móveis cheirando a óleo de peroba, toalha bordada a mão.

Meus pais e nós, seus cinco filhos, todos reunidos para fazer a árvore de Natal. Sim, fazer! Cabo de vassoura, papel-celofane verde, algodão. Cada um tinha uma função.

Meu pai, seu Façanha, tratava de armar a árvore. Fran, com muita seriedade, no alto de seus 8 anos, sentia o peso de sua responsabilidade ao ajudá-lo. Mamãe, dona Maria Augusta, fazia o grude para que, Regina, delicadamente, colocasse os papéis-celofanes verdes cortados em franja por mim.

O momento mágico era quando minha mãe chegava com as caixas de bolas, enroladas em papel de seda amarelado pelo tempo. Cuidadosamente, ela as colocava uma a uma na árvore. Esta hora era muito especial, pois as bolas eram quebráveis, além do mais, a Teresa, nossa ajudante, tinha que ficar atenta ao Carlos e Maria de Fátima, para que eles controlassem o fascínio pelas bolas, pois queriam amassá-las com as mãos. Todos nós cuidávamos de nossas obrigações e da deles, sentíamos que papai e mamãe queriam que os dois menores ficassem perto de nós, naquele momento tão mágico.

Tudo era feito com muita ternura, união e sobretudo com muito amor. Sei que papai tirava um tempo do seu precioso descanso de final de semana para fazer isso. Sei também que nós, sua querida família, era tudo para ele. Trabalhava muito, ganhava pouco com a venda de tecidos. Nesta época natalina, as vendas eram muitas, porque contava-se nos dedos as lojas que vendiam roupas feitas, além do mais, eram caras. Tempos bons…

Das Necessidades à Prosperidade

A vida é feita de lutas, de pobreza à prosperidade, de alegrias, e tristezas, de altos e baixos, de decepções e de sucessos… É preciso viver tudo para depois contar este tudo entre a paz e a serenidade!

Meus Natais que ficaram são retratos da vida. Cresci entre mesas parcas e fartas. Habituei-me aos dias econômicos de alegrias à alternância de dinheiro no bolso, à fartura vinda em abundância na hora certa.

Em nossas inúmeras viagens, observo a paciência e respeito de minha Carol Tavares, quando entro em qualquer igreja pela primeira vez, seja suntuosa ou simples, e digo: pera aí que vou entrar aqui e agradecer…

Entro nos dias de rituais natalinos da minha irmã Regina Stela Façanha. Cronograma severo entre os dias 21 e 24 de dezembro. Depois da árvore, lapinha, decoração da janela dos quartos, cantinho do Menino Jesus, decoração da mesa, começamos o ritual dos biscoitos confeitados (confesso que não temos alemães em nossa linhagem, mas os biscoitos… são tão gostosos). Bons tempos…

A autora Ana Tavares é professora de francês aposentada da Casa de Cultura Francesa da Universidade Federal do Ceará, e também da graduação em letras da Universidade Estadual do Ceará. Ama escrever e viajar. Obrigada, amiga de longa data, por colaborar com o meu blog.

Coleção: Contos de Natal por Ana Tavares

Coleção: Contos de Natal por Ana Tavares

Minha Árvore de Natal

Ser grato, agradecer, será fácil? Quando a gente agradece, a alma liberta.

Nas mínimas coisas, podemos agradecer, quer ver? Se despedir de um par de sapato velho querido, aquele que se moldou nos teus pés, que te acompanhou para tantos lugares? Pois bem, é chegada a hora de doá-lo para alguém, hora de agradecer aos céus por ter te permitido as belas caminhadas com ele.

Esta semana, resolvi desembalar minhas coisas de Natal. Disse adeus para muitas delas, agradecida por tantos belos natais que passamos juntas… Surpreendida, observo que os três últimos “andares” de minha querida árvore de Natal, que me acompanha há mais de 12 anos, se quebraram. Não resistiram à maresia… No primeiro instante, senti que a tristeza bateu. No segundo, eu disse: hora de agradecer tantos natais passados juntos, você me embalava até com bilhetinhos de agradecimentos, não era, Ana? Era…

Então, obrigada, muito obrigada. Este ano, coração apertado, nos despediremos. No próximo ano, você irá para um asilo de velhinhos, encantá-los. Aqui em casa, sentirei sua falta, viu?

Te agradeço pelos belíssimos momentos em que você esteve junto a mim. Merci.

O Natal que Papai Noel adormeceu

Árvore de Natal sem graça, vela esmaecida, presente de/para, anjo pálido, festão desbotado… foi tudo isso em um Natal longínquo. Com o diagnóstico de câncer na mão, esperando começar o longo calvário de cirurgia, quimioterapia e suas consequências logo após o período das festas…

Atordoada (será que Papai Noel adormeceu?) olhava para as lâmpadas que piscavam em minha árvore de Natal e para minha linda filha Carol que mal começava a dizer mamãe…

Foi neste Natal que prometi a mim mesma que ia lutar para viver! Fiz este relato para mostrar que a vida é assim! Tem horas que nos sentimos reis e rainhas do mundo, horas em que somos humildes servos.

A autora Ana Tavares é professora de francês aposentada da Casa de Cultura Francesa da Universidade Federal do Ceará, e também da graduação em letras da Universidade Estadual do Ceará. Ama escrever e viajar. Obrigada, amiga de longa data, por colaborar com o meu blog.