Quase 60 anos de Bossa Nova

Quase 60 Anos da Bossa Nova

Estamos em 1958. Um LP está sendo lançado e o seu nome é “Canção do Amor Demais”, cantado por Elizeth Cardoso. Nele, João Gilberto mostra pela primeira vez sua batida ao violão, considerada genial na canção “Chega de Saudade”, composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Mas o disco marco inicial da Bossa Nova foi lançado na praça em 1959 pela Odeon. Eis que aparecia um cantor que cantava baixinho, discreta e quase inexpressivamente, interpretava melodias difíceis de ser entoadas e ainda por cima era muito exigente na hora da gravação. Surge João Gilberto e a música popular brasileira nunca mais foi a mesma…

Parte da história do movimento começou com o encontro de jovens, na maioria, universitários de classe média carioca, na zona sul do Rio de Janeiro: no apartamento da Nara Leão, na praia, no barquinho do Roberto Menescal etc. Por meio deles, a música brasileira se tornou “ensolarada”, pois os temas de suas canções eram o mar, a beleza da mulher, o amor, a natureza, dentre outros.

Antes da Bossa Nova, as canções apresentavam a traição como parte do amor, a mulher sofrida e não valorizada, o mal de amor. Com a música que estava nascendo, houve a transformação para melhor. E o Brasil foi se colorindo, graças a João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes (a “Santíssima Trindade da Bossa Nova”), Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, Nara Leão, Newton Mendonça, dentre outros representantes, responsáveis pela música “tipo exportação”, de qualidade, que até hoje é a “cara do Brasil” lá fora, notadamente, nos Estados Unidos e Japão.

A Bossa Nova continua mais viva do que nunca, segundo Roberto Menescal. Ele e Wanda Sá constantemente viajam ao exterior, principalmente, ao Japão.

Este artigo é uma homenagem à música mais harmoniosa e bonita do Brasil. Ela que fará 60 anos em 2018, mesmo sendo uma senhora de meia idade, permanece jovem e personifica o Brasil de uma época feliz, progressista, repleta de esperança, como era o nosso país em 1958/59.

P.S. Na pesquisa para a minha dissertação de mestrado, investiguei as principais características discursivas do Movimento Bossa Nova no discurso literomusical brasileiro, nas composições de João Gilberto, Vinícius de Moraes, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli e Newton Mendonça. Foram 47 canções estudadas sob o suporte teórico da Análise de Discurso de linha francesa, conforme delineada por Dominique Maingueneau. Foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará, sob a orientação do prof. Dr. Nelson Barros da Costa, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Linguística em Fortaleza-Ceará em 2007.

Apresento a vocês agora a entrevista feita com o bossanovista Roberto Menescal para a minha dissertação de mestrado. Ele, muito acessível e simpático, foi parte importante na minha pesquisa. Tal entrevista está como anexo no meu trabalho. Interessante dizer que passada a defesa, mandei a dissertação por e-mail a ele e como é brincalhão, comentou ser a bíblia da Bossa Nova e não uma dissertação de mestrado. Ganhou meu livro “Alma de Viajante” e a esposa dele artesanato do Ceará. Ficou radiante e eu também. E ainda para complementar: um tempo depois ele veio com um grupo a Fortaleza para fazer um show no Iate Clube, eu fui com o Carlos (meu companheiro) e logo na entrada nos encontramos. Eu me apresentei a ele que fez uma festa danada e nos convidou para irmos ao camarim depois do show. Fomos e foi emocionante. Obrigada pela acolhida, Roberto Menescal. Você é especial.

 

ANEXO: Entrevista dada pelo cancionista Roberto Menescal a nós por correio

eletrônico em 10/08/06.

Em 10/08/2006, às 16:17, Mônica Dourado Furtado escreveu:

1 – Na sua opinião, a Bossa Nova foi um movimento musical, cultural e estético, ou como diz Tinhorão, apenas uma nova maneira de tocar, ou Santuza Cambraia Naves, um estilo musical?

R- Creio que foi cultural, pois trouxemos à música brasileira, harmonias mais sofisticadas, melodias com mais liberdade em termos de dissonâncias, letras mais elaboradas com envolvimento de profissionais como jornalistas, poetas etc. Também foi estético, porque mesmo sem uma intenção clara e pré-concebida mudamos vários padrões de interpretação no cantar e tocar, e porque não salientar também no modo de vestir e de se comunicar.

2 – Qual foi a sua impressão do concerto da BN no Carnegie Hall? Na Revista “Nova História da Música Popular Brasileira” da Abril Cultural – SP, de 1978, diz que foi a primeira e última vez que o senhor cantou. É verdade?

R – Quero salientar a minha inocência na época em relação à força que nossa música já havia adquirido e também ao seu alcance no exterior. Fui para o Carnegie Hall sem saber o que o mesmo era ou significava, e fui apenas porque “a turma ia”. Na época, eu era um compositor e instrumentista que tinha um grupo que participava de shows e gravações, e que eu o encarava como um “grupo prestador de serviços”. No dia do ensaio no teatro, levei um susto por sua suntuosidade e também porque realizei que estava lá sem meu grupo e sem ter pensado no quê e como fazer. Tentei fugir, mas fui obrigado pelo empresário que nos levou, com toda razão, a cantar, o que nunca tinha feito em público porque não era e nunca foi meu objetivo, por isso cantei pela primeira vez profissionalmente no Carnegie Hall. Foi a carreira mais rápida que conheço, pois começou ali e ali terminou. Agora, duvido que encontrem alguém que estreou sua carreira de cantor, diretamente no Carnegie Hall! (Pena que encerrou ali também).

3 – Muito já foi dito e escrito sobre sua composição “O Barquinho”, juntamente com Ronaldo Bôscoli. O que o sr. tem a dizer sobre o processo de composição da canção “Rio”?

R- “Rio” é uma das canções que escrevi com Ronaldo Bôscoli, meu parceiro mais efetivo, que mais gosto. Eu a acho moderna, bem sincopada, com uma “levada bem carioca” (como diz o poeta “basta o jeitinho que ela tem”). A gente brincou nesta canção com os jogos de palavras o tempo todo como: “Rio é mar”, ou “É sol, é sal, é sul”, ou ainda, “Sorrio p’ro meu Rio que sorri de tudo”, ou ainda no final que usamos as expressões, “Sorrio, Só Rio, Sou Rio”, coisa que poucas pessoas perceberam.

4 – Como se posiciona a BN em relação aos investimentos de posicionamentos concorrentes, como os da prática do samba tradicional e do jazz? Em outras palavras, quais são, na sua opinião, as principais semelhanças e diferenças entre eles, tanto no plano musical, quanto verbal? O que poderia comentar sobre o samba-canção também?

R – Para mim a BN nasceu da fusão do que ouvíamos na época, ou seja, o samba tradicional, que era muito difícil de tocar ao violão, e por isso criamos a nossa “batidinha” que se tornou famosa, do Jazz que venerávamos pela qualidade musical e liberdade de improvisação, do samba-canção que já se aventurava pela modernidade harmônica por muitos de seus compositores, apesar do “peso” de suas letras tipo: “Se eu morresse amanhã de manhã, não faria falta a ninguém”, ou “Sei que falam de mim, sei que zombam de mim, ó Deus como eu sou infeliz”. Imagine, nós garotos de 18 a 20 anos, moderninhos de Copacabana, cantando essas letras catastróficas. Por isso colocamos tudo num liquidificador e sem negar nada, a não ser o que era “brega total” e colhemos o que se chamou de Bossa Nova.

5 – Como está o movimento da BN hoje em dia em nível nacional e internacional?

R – Creio que a Bossa Nova está no seu auge tanto no exterior quanto no Brasil. Creio que você vai me entender não como participante, e interessada no assunto, mas analisando de uma forma simples e concreta. Você vê e ouve nas novelas principais da TV Brasileira, o número de canções Bossa Novistas que têm sido usadas nesses últimos anos (agora mesmo na novela das 8 da Globo). Nossos shows apesar de normalmente acontecerem em locais pequenos, como sempre aconteceram, pois nossa música assim como o jazz, é feita para locais pequenos, com boa qualidade de som, estão sempre cheios, e nunca trabalhamos tanto em nossas vidas, como temos feito agora. Se você puder ver minha agenda, e está à sua disposição, vai ficar impressionada com o número de apresentações que fazemos, (só perdemos para Ivete Sangalo… risos…). No exterior, sempre tivemos muitas possibilidades e normalmente até mais público que no Brasil. Agora mesmo estou indo para uma temporada de shows no Japão pelos 3 Blue Note daquela terra, que são as melhores casas para shows de qualidade, do Japão. Estou viajando para lá com Joyce, que acaba de chegar nesta semana, de um mês de temporada pela Europa. No ano passado e atrasado, fiz duas temporadas grandes na Europa, com o grupo “Bossa Cuca Nova”, que faz uma bossa mais atual e dançante, permitindo assim que se consiga levar nossa música a um público bem jovem e numeroso. Tocamos em alguns lugares em festivais com mais de 200.000 pessoas. Só quem não sabe disso é o Brasil! Fizemos por 3 anos quase seguidos shows no Japão, festejando os 40 anos da BN, a pedido deles, todos shows para um público de 10.000 pessoas. Acabamos de presenciar o grande sucesso de 2 filmes documentários, envolvendo e envolvidos pela Bossa Nova, “Vinícius” e “Coisa Mais Linda”, filmes que foram lançados também internacionalmente e também em DVD. Ou seja, me parece que a BN está mais viva do que nunca!

 

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