Argentina – Córdoba – Segunda Parte – Triângulo Jesuítico: Colonia Caroya, Jesús María e Santa Catalina

Argentina – Córdoba – Segunda Parte -Triângulo Jesuítico: Colonia Caroya, Jesús María e Santa Catalina

Hoje é dia 18 de outubro de 2018 e prosseguimos nas visitas às estâncias jesuíticas ao norte da província de Córdoba. São testemunhos da identidade do país, segundo os argentinos. Considero bela a forma como eles reverenciam a sua história.

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Estancia Jesuítica Colonia Caroya-Córdoba-foto tirada por Mônica D. Furtado

Adentramos a Estancia Jesuítica Colonia Caroya de 1616. Estamos em um museu provincial chamado de Museu do Imigrante. As paredes têm cal branca para evitar insetos e são revestidas de gesso. A capela e quatro salas são da Companhia de Jesus, as últimas pertencem aos descendentes de imigrantes italianos do norte. Vamos às salas. A primeira tem o mobiliário da época do jesuíta Inácio Duarte y Quirós. Era maior no passado. Em 1687 doou seus bens para a criação do Colégio Real Seminário Convictório de Nossa Senhora de Montserrat para o ensino dos religiosos da Cia. de Jesus. Lembrando que “convictório”, segundo o dicionário online educalinguo.com, significa o departamento no qual os estudantes moram nas escolas jesuítas. À época 250 a 300 nativos eram controlados por dois jesuítas. A estância servia de residência de descanso dos estudantes do colégio durante suas férias. Interessante dizer que anteriormente em 1671, a Cia. vendeu a estância a Inácio Duarte y Quirós. Poucos anos depois, volta às mãos da Companhia como doação.

Em 1878 foi a fundação da Colonia Caroya com a chegada das famílias italianas para ter casa e trabalhar na agricultura. Vieram de Friuli, convidados pelo presidente Nicolas Avellaneda. Em 1987 foi celebrado o tricentenário do Colegio Nacional de Monserrat a la Casa de Caroya.

Vejamos outras salas. A sala da farmácia com dicas de como provocar vômito, sobre sangrias, receitas etc.; a capela; a primeira fábrica de armas brancas que funcionou de 1814 a 1816, quando Gervasio A. Posadas, Diretor Supremo das Províncias Unidas, decidiu instalá-la.

Um dado histórico: o General San Martin se hospedou no local em 1814, a fim de ter uma entrevista com o Gal. Juan Martin de Pueyrredon no regresso da direção do Exército do Norte. Só rememorando que San Martin proclamou a independência da Argentina em 1816, logo as estâncias eram lugares estratégicos para o Caminho Real. Conforme a Wikipédia, Camino Real era a rota que começava na Avenida Rivadavia em Buenos Aires, passava pelo Alto Peru (hoje Bolívia) até alcançar a cidade de Lima durante o Vice-Reinado do Peru e o Vice-Reinado do Rio da Prata. Curioso acrescentar que a Missão Jesuítica Caroya estava situada nesse trajeto.

O lugar também foi usado por presidentes para descanso. Estivemos na sala dos nativos (estilo gaúchos) com objetos do seu cotidiano na lida com cavalos: esporas, selas e outros; a sala dos imigrantes com móveis, utensílios de casa e para a agricultura que trouxeram da Itália, máquina de costura, aparelho de música (gramofone) etc. O sítio histórico é bem organizado com placas explicando tudo em espanhol.

Depois rumamos à Estancia Jesuítica Jesús (fala-se “Resus” em espanhol) María de 1618. São quatro hectares, possui uma bodega de vinho e restaurante. A cidade é tão ajeitada com casas baixas lindas. O rio existente na região se chama Guanusacate em língua indígena quíchua e o fundador da estância foi o jesuíta Pedro de Oñate (nasceu em Valladolid-Espanha em 1567 e faleceu em Lima-Peru em 1646). Ele a adquiriu em 15 de janeiro de 1618 e a ela deu o nome.

Visitamos o Museu Jesuítico Nacional de graça com muitas salas. Na primeira habitação visualizamos pinturas americanas e livros. Na sala 7 há mobiliário e imagens sacras. Na parte do forno encontramos jarros coloniais para decantar o vinho que procedia de Cafayate na província de Salta no séc. XVIII. No primeiro andar estavam a pia, cozinha, corredor dos aposentos e a sala de arte sacra colonial. No corredor um lavador de pedra sabão e um lugar para as toalhas. A sala de arte sacra completa do séc. XVIII. Na estância houve negros escravizados. Ademais, a sala dos paramentos religiosos; a sala da coleção de moedas, Numismática e Medalhística do mesmo século mencionado; a sala de arte religiosa e história dos jesuítas: Francisco de Borja, Claudio Acquaviva (quem substituiu o fundador Inácio de Loyola na direção da Companhia de Jesus) e Juan Pablo Oliva, responsáveis pela Companhia; a sala de lugares comuns: banheiros, sanitários de água corrente que desde 1721 existia na parte alta uma parede dupla de pedra e ladrilho onde corria uma acéquia que desembocava no rio; a sala com instrumentos dos indígenas da terra; a sala da tribuna que dava para a igreja a fim de se sentarem as pessoas importantes ou sacerdotes enfermos; a igreja com estátuas barrocas, sendo uma a imagem de San Isidro Labrador; e a sala de porcelanas e cerâmicas da família González Warcalde. A região de Córdoba tem 10 mil anos de existência. É muita riqueza cultural a ponto de ficarmos boquiabertos.

Um adendo: a cidade é sede do renomado Festival Nacional e Internacional de La Doma y el Folklore e a localidade é o centro financeiro e agrícola mais importante da província de Córdoba. Quanto ao festival, ocorre de 11 a 21 de janeiro deste ano e há mais de 20 anos. No anfiteatro José Hernandéz, acontece corrida de burros, rodeios, shows musicais, desfiles folclóricos, danças, dentre outras atrações. Vi no site hoje que o evento foi anulado na sétima noite (dia 18/01/2019), por conta de tormentas que virão. As entradas seriam devolvidas. “Doma” significa adestramento. No Brasil temos algo parecido: a Festa do Peão de Barretos-São Paulo.

Estava na hora do almoço, logo voltamos à Colonia Caroya, não à estância. Paramos na loja Provin Il Salami para compras de vinho, salame, azeitona e alfajores. Ao lado estava o restaurante Panchos. Era muita gente e ficamos todos (era um grupo de bom tamanho) juntos em uma mesa retangular. Foi um evento linguístico rico com espanhol, português e inglês ao mesmo tempo. Amei! Pedi verdura, frango e uma coca. Detalhe: o calor estava demais.

Na Estancia Jesuítica Santa Catalina, tivemos um contato maior com um casal brasileiro: Marcelo de Minas e Mara de Roraima, habitantes de Brasília. Saudações a vocês! Vamos à estância. É Monumento Histórico Nacional desde 1941. Fica a 20 km a oeste de Jesús María e a 70 km ao norte de Córdoba. O guia muito agradável se chamava Marcelo Etcheberry. Pagamos 15 pesos pela visita guiada. Lá fazem casamentos e vive de agropecuária. Só um comentário: a seca estava braba na província de Córdoba, já haviam perdido 10 mil hectares sob os efeitos nefastos da falta de chuvas.

Para se chegar à estância, a estrada é de terra, de chão batido. Da cidade de Ascochinga, no departamento (comarca) de Colón, a 7 ou 8 km de distância de lá, pega-se um desvio à direita que leva à estância. Uma dica: perto existe um bar, restaurante e hotel nomeado La Rancheria de Santa Catalina.

Falemos mais em história: a igreja levou 141 anos para ser construída. Começou em 1622 e acabou em 1763. Iniciou sendo erigida pelos indígenas e no fim por 400 escravos africanos de Angola. Lembrando que os jesuítas foram expulsos da Argentina em 1767. O retábulo da igreja veio do Paraguai e é original, feito de cedro paraguaio e com pintura central de Rafael da Itália. A Wikipédia ajuda novamente: “retábulo” é a estrutura de madeira, mármore ou de outro material que fica para trás ou acima do altar e que, normalmente, encerra um ou mais painéis pintados ou em relevo.

Em Santa Catalina há missas, em Caroya e Jesús María, não. Cinco padres jesuítas viveram no lugar, juntamente com 400 escravos e cinco padres. Antes eram 167.500 hectares, hoje somente dois. Trata-se de uma casa de campo com 15 refeitórios e 60 quartos. Há um conselho administrativo de três pessoas que respondem pelo sítio. Em janeiro e fevereiro somente a igreja é aberta e aos sábados e domingos não há passeios pela estância (são os dias da família proprietária aproveitá-la, já que é privada).

Na igreja há uma porta que dá a um túnel de 15 km que vai até a Estancia Jesuítica de Jesús María. Obra de 1841, cujo intuito era a comunicação entre as estâncias e para fugir dos colonizadores espanhóis.

Conhecemos padarias, a despensa, a cozinha, além do pátio com árvores diversas e o outro pátio com um hospital para tuberculosos com sala para enfermos.

Ufa! Que passeio mais impressionante. Vale muita a pena, imperdível!

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