Vinho de Talha – Alentejo – Portugal
Ricardo Dourado Furtado
No Alentejo, para quem vai de Beja para Alvito passa por Vidigueira. No primeiro trecho (Beja – Vidigueira), viaje pela rodovia N18, no segundo (Vidigueira – Beja) escolha a N258, que é uma estrada do interior e terá a oportunidade de passar por diversas vilas tradicionais alentejanas.
Quando passar pela Vila dos Frades, que está a 3 (três) quilômetros do centro de Vidigueira, sugiro que desacelere o carro, estacione e busque um hotel ou pousada para se hospedar. Terá a oportunidade de ter uma experiência enogastronômica marcante, considerada por mim como inesquecível, para não usar o superlativo – memorável.
Após estar devidamente hospedado na Vila dos Frades, sugiro ir direto para o endereço: rua General Humberto Delgado, 19. Nele está localizado o restaurante/tasca/bar/adega, bem, chame como quiser, mas o nome comercial é Adega Nacional – País das Uvas que eu apelidei de Casa das Almas Felizes, e prepare-se calmamente para um almoço longo e tranquilo.
Encontrará, além do aroma da deliciosa cozinha portuguesa, um local cheio de imensos potes de barro. Fiquei intrigado, pois pensei que seria de azeite, mas logo que me sentei, os sentidos me disseram que estavam era cheio de vinho. Algo novo para mim, um pouco intrigante, um vinho chamado: “Vinho de Talha”. Não preciso dizer que o almoço se alongou por todo a tarde e a quantidade de vinho ingerida me obrigou a dirigir somente no dia seguinte. Por isso, é importante se hospedar no local.
Mas, afinal o que Vinho de Talha? Aliás, primeiro, o que é talha? Talha é uma grande ânfora de barro, cujo nome vem do latim “tinalia”, ou seja, vaso de grandes dimensões, que em geral, deve ter um pequeno orifício na parte inferior para que o vinho seja retirado.

Foto: Talha, Ânfora especial para produção de vinho.
Sua origem remonta à colonização romana ocorrida há 2000 anos que introduziram no Alentejo a vinha e o processo de produção do vinho em grandes ânforas. Portanto, o “Vinho de Talha” é produzido em Portugal desde que o Império Romano ocupou a Península Ibérica, sendo, portanto, um produto ancestral.
Como é um vinho produzido de forma tradicional e artesanal, consequentemente, sua produtividade é baixa, e com o estabelecimento de grandes empresas vinícolas a partir de metade do séc. XX no Alentejo, sua produção foi definhando, ficando quase que restrita à produção caseira ou com pequenos produtores, que ficaram responsáveis pela deposição e manutenção desta tradição enológica.
Não existe uma receita única da produção de Vinho de Talha, é quase que receita familiar, cada casa tem a sua. Mesmo as talhas, dependendo da localidade, têm formas e volumes diferenciados, não existe uma padronização, mas em geral tem um volume de 2000 litros. Isso faz com que cada produtor tenha sua própria receita que é transmitida pela experiência e pelo trabalho árduo nos campos de vinhas, para as gerações seguintes, tecnologia única, que reflete diretamente no seu “terroir” aromas e sabores únicos, aliás bem diferentes dos nossos vinhos industrializados.
Em 1876, o agrônomo Antônio Augusto de Aguiar descreveu a maneira de fazer o “Vinho de Talha”, tradicional vinho português, típico do sul de Portugal, especialmente nas regiões do entorno do Tejo.
O processo, em geral é simples: as uvas são levemente esmagadas, ou por pisamento ou por prensagem, os engaços são retirados e o produto (bagas e suco) é colocado nas talhas. O processo de fermentação se inicia naturalmente com as próprias leveduras presentes nas uvas, leveduras autóctones, nada de leveduras exógenas.
Durante o processo de fermentação, faz-se o mínimo de intervenção, porém com a formação de gás carbônico durante o processo fermentativo, as partes sólidas vão formando uma “nata” que deve ser misturada três vezes ao dia, sempre de forma manual, para que não endureçam, e venham a evitar a liberação do gás carbônico gerado no processo fermentativo, que ao se expandir podem causar a quebra da talha.
Quando as partes sólidas se depositam no fundo da talha, considera-se que o processo fermentativo está encerrado, ou seja, os açúcares presentes nas uvas se transformaram em álcool, então é comum se colocar uma tampa na talha (tecido limpo ou madeira) e uma camada de azeite de oliva para evitar o contato do vinho com o ar, minimizando o processo de oxidação e o conservando por mais tempo de vida.
Mesmo com a finalização da fermentação, o vinho ainda não está pronto para ser consumido, ainda estará turvo e deve ser filtrado pelas próprias partes sólidas que se depositaram no fundo da talha, pela introdução de caules e folhas de capim (tipo papiro) e a colocação de uma torneira no orifício da parte inferior da talha, funcionando como filtro, retirando os sedimentos e clarificando o vinho.
Lembro que é um processo ancestral milenar sem introdução de substâncias químicas. Este é um processo tão natural e único, que deu direito ao “Vinho de Talha do Alentejo” possuir uma Denominação de Origem Específica, famosas DOC.
Em geral, o “Vinho de Talha” é guardado dentro da própria talha, mas pode ser drenado e estocado em outra talha, já filtrado e clarificado, podendo ser engarrafado. E, como é um produto com nenhum aditivo químico deverá ser consumido rapidamente, não há como “envelhecê-lo”. Por isso, não se preocupem com os processos oxidativos, deverá sempre ser consumido jovem, no próprio ano da produção
A produção do “Vinho de Talha” está cercada por tradição, até mesmo a abertura das talhas deve ser realizada em uma data certa: dia 11 de novembro, dia de São Martinho. Questiono, será que São Martinho era um grande apreciador de vinho?
Atualmente, com o aumento do número de turistas em Portugal, com o maior desejo das pessoas consumirem produtos típicos ou artesanais, com o crescimento do consumo de vinhos com ”terroir” diferenciados, a produção de “Vinho de Talha” vem renascendo em todo o Alentejo.
São vinhos deliciosos, minerais e frescos, com presença marcante de fruta. E a harmonização com a rica cozinha alentejana é fácil, dependerá do gosto de cada um.
Bebi tintos, brancos e rosés, com bochechas de porco, bacalhau, alheiras, caldo verde etc, nossa, Viva Portugal!
Não preciso dizer que voltei caminhando devagar para o hotel. Fim.
P.S. O Alentejo é a região centro-sul de Portugal.
Sobre o autor: Ricardo Dourado Furtado é auditor fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura em Porto Alegre no Rio Grande do Sul. Graduou-se como engenheiro agrônomo pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e economista pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza). Fez mestrado em Ecologia pelo Instituto de Biociências da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e doutorado em Recursos Hídricos e Saneamento de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS. Ama vinhos e azeites de oliva. Nasceu em Alegrete – RS e é meu irmão.

Querida Mônica, que maravilha de aula sobre a história e a cultura do vinho de talha você disponibilizou para nós, os seus leitores e “companheiros de viagem”! Além da curiosidade e inspiração para uma próxima viagem que o texto nos traz, ficaram igualmente claras a expertise e paixão do seu irmão pelo tema assim como seu orgulho por tê-lo na família!! 👏😁 Muito obrigada! Grande abraço aos dois! E vamos aos planos!!💋💋
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Obrigada por me seguir, amiga Claudiana. Também agradeço as palavras inspiradoras, afinal você tem alma de viajante da mesma forma e curte um bom vinho. Mais artigos com meu irmão virão, ele é craque em vinhos e azeites de oliva. Grande abraço.
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