A escola pública dos anos 60/70

A escola pública de outrora

Este artigo foi fruto de uma entrevista realizada com Carlos Rodrigues Alencar Lima, diretor de escola pública e educador por 33 anos, também ex-aluno de escola pública nos anos 60/70, assim como eu. Nossas lembranças são valorosas, muitas das recordações dele são também minhas.

O Carlos estudava com o filho da lavadeira, do desembargador, do delegado, do funcionário público e aí por diante. Foi aluno da Escola Pública Joaquim Albano e do Colégio Estadual Liceu do Ceará, com muita honra.

Havia disciplina e ordem e a escola era organizada. Se faltasse uma lâmpada, os alunos se cotizavam para comprar. Os livros e a farda eram pagos pelas famílias. Pagava-se uma taxa para a manutenção da escola, quem não tinha condições, não pagava. O diretor geralmente bancava muita coisa do seu dinheiro.

Existia biblioteca com livros bons. O livro didático, com capa dura, não era trocado todo ano. Se comprava o livro e depois de usado, se trocava com o colega ou se vendia para o sebo ou até mesmo se trocava na rua Floriano Peixoto no centro de Fortaleza.

A disciplina era rígida e se exigia muito do aluno. O uniforme era calça cáqui, camisa branca com o emblema da escola (era comprado), sapato preto e meias da mesma cor. Os alunos se reuniam pela manhã a fim de cantar o hino nacional uma vez por semana, com o acompanhamento de uma vitrola, depois o diretor falava umas palavras para os alunos “no gogó”.

É válido ressaltar que para passar do primário ao ginásio, havia um exame a fazer: o exame de admissão, teste para todos os alunos, de todas as matérias. Requeria muito estudo.

Havia muita cooperação entre os colegas nos estudos, era comum estudarem juntos nas suas casas. Estudavam também na escola com a aquiescência do diretor. Ele ainda dizia: “Fiquem com a chave do portão e da sala de aula, mas não me decepcionem”. A chave era entregue de volta ao porteiro ou vigilante.

O diretor era um senhor austero e muito humano ao mesmo tempo. Dava dinheiro para a passagem de ônibus quando o aluno não tinha dinheiro para vir para a escola. Eis o exemplar professor Sebastião Praciano, capitão reformado do Exército, excelente docente de matemática, hábil na didática e na arte da paciência. Professor que se preocupava muito com a educação. Interessante mencionar que depois de ser diretor da Escola Joaquim Albano, foi diretor do Liceu do Ceará.

Existem momentos válidos de ressaltar. Houve uma reunião no Liceu do Ceará por motivo de dissídio coletivo em 1983, estava presente uma comissão de diretores de escolas municipais e estaduais com representantes do governo estadual e municipal. Os diretores estavam lá como mediadores entre o governo e o sindicato APEOC (Associação dos Professores do Estado do Ceará). Aí o diretor decano Sebastião Praciano disse que tinha a felicidade de estar sentado à mesa junto com um ex-aluno e diretor de escola pública: o Carlos Alencar. Acrescentou que se sentia honrado de fazer parte do grupo de negociação. Foi um momento de júbilo para o Carlos.

Só rememorando que até o final dos anos 1960, os professores de escola pública tinham salários equiparados aos dos professores universitários. Os professores do ginásio (hoje ensino fundamental) trabalhavam também em outras instituições como Banco do Nordeste, Tribunal de Justiça (um desembargador que era o presidente do Tribunal), UECE (Universidade Estadual do Ceará), Colégio Militar etc.

No início dos anos 1970, ainda havia banca examinadora para a cátedra do “professor Tal” ou para a cadeira de latim, língua portuguesa, dentre outras. Em relação ao aluno, podia ser aprovado ou reprovado. Existia a “segunda época” (prova escrita), realizada quinze dias antes de começar o ano letivo do ano seguinte, de modo a dar chance ao discente de ainda passar de ano. Se não se dedicasse aos estudos, não passaria.

No ginasial, o Carlos estudou canto orfeônico (partituras musicais, um pouco de música clássica, regional e popular). Para se ter ideia, a cátedra era de Elza Barreto, soprano e professora do Conservatório Alberto Nepomuceno. Outra disciplina era desenho (escola greco-romana e sua arquitetura, estilo barroco, gótico etc) e moral e cívica (direitos e deveres do cidadão). Digno de nota citar as visitas estudantis ocorridas à época ao Palácio da Abolição (do governo do estado), à Assembleia Legislativa, onde os alunos tinham um encontro guiado por um deputado estadual ou assistiam a um debate, dentre outros lugares oficiais. As línguas estrangeiras eram o inglês e o francês com bons professores. Na cadeira de português, os alunos faziam fichamento de livros e sínteses.

No antigo científico (hoje ensino médio), os discentes estudavam OSPB (Organização Social Política Brasileira), uma radiografia do Brasil em termos de regiões, cultura e política (sem ser partidária).

A escola pública funcionava, havia respeito entre professores, colegas e alunos. Toda classe tinha um líder e o bedel (fiscal) ficava no corredor para ajudar em alguma necessidade por parte dos alunos. Havia disciplina e hierarquia. Eu mesma fui eleita “na surpresa” líder de turma aos 12 anos de idade. Recordo dos encontros com a diretora “dona Dora” e do sentimento de importância da função.

Para tristeza profunda do Carlos, a derrocada da escola pública começou a partir dos anos 70, com a reforma do ensino como era para o ensino profissionalizante obrigatório, lei n° 5692/71, quando o número de escolas aumentou e começou a faltar professores.

A História comprova o seu pensamento. Segundo o site https://jornalempresasenegocios.com.br, essa lei mudou a organização do ensino no Brasil. Implicava abandonar o ensino verbalístico e academizante para partir para um sistema educativo de 1° e 2° graus voltado às necessidades do desenvolvimento, dito pelo ministro da Educação Jarbas Passarinho à época do governo do presidente Médici. Interessante acrescentar que em outubro de 1982, o presidente João Baptista Figueiredo sancionou a lei n° 7.044, na qual extinguiu o caráter obrigatório da profissionalização. De acordo com a profa. Emérita da UFMG, Magda Soares, foi um sonho que não se realizou. O prof. Demerval Saviani dizia que a suposição da demanda de técnicos que justificaria uma reforma dessa amplitude não tinha base na realidade e não se demonstrou efetivamente. Os próprios empresários tendiam a preferir que a escola garantisse a formação geral, explica o professor. O erro maior foi a concepção da reforma sobre o papel da escola, conforme pensava Saviani.

Registro aqui com emoção o colégio onde estudei dos 6 aos 12 anos de idade em Porto Alegre – RS: Grupo Escolar Rio Branco, localizado à av. Protásio Alves. Lembro com muito carinho do tempo passado lá, minha infância foi inesquecível. Aliás, tenho amigas queridas desde aquele tempo. Saudações às amigas Carla e Denise, especialmente, e Milene, Dotti, Eliana, dentre tantos outros e outras colegas que marcaram a minha vida.

Em conclusão, nós que estudamos na escola pública do passado, somos hoje cidadãos conscientes. Saudades de uma escola que garantia um bom aprendizado ao aluno.

Dedico este artigo à minha mãe Sirley, ex-professora alfabetizadora e diretora de escola pública, a quem me inspirou na arte da educação e cultura.

20 comentários em “A escola pública dos anos 60/70

  1. Que lindo artigo, retrata o panorama de uma escola pública que merece todo respeito! Tb guardo o Grupo Escolar Rio Branco num lugar especial do coração!
    Amiga Mônica, gde abraço p vcs e p a d. Sirley.

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    1. Querida amiga Carla,
      Nossa infância foi memorável no Rio Branco, lembro com muito carinho. Obrigada pelo seu comentário e pelos abraços mandados. Fico muito triste em ver no que se tornou uma escola pública que oferecia tantas possibilidades aos alunos. Quem trabalha com educação pública atualmente conhece a dura realidade. Artigos assim provocam debates, eis o meu desejo. Grande abraço.

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  2. Lindíssimas recordações que, graças ao seu registro, podem chegar a quem não viveu essa época. Comecei meus estudos, 1a série do EF no Colégio Dom Hermeto, escola estadual em Uruguaiana. Na época, tínhamos acompanhamento de agentes da saúde, fazíamos flúor no colégio e recebíamos vacinas importantes lá. Tive a felicidade de estudar OSPB bem como Moral e Cívica, embora os professores já começassem a sofrer com questões de disciplina. Muito bom poder relembrar, cada memória faz de nós quem somos!!!

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    1. Querida comadre Simone,
      Muito bem dito, eu havia esquecido de mencionar o flúor no colégio e as vacinas, tempo memorável. Obrigada pela sua complementação, tudo isso constrói a nossa história. Escrevo para não nos olvidarmos do passado e do que deu certo. Grande abraço.

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  3. Excelente artigo, dear Mônica.
    Não estudei em escola pública mas vivenciei algumas das histórias descritas.
    Amava as aulas de desenho e as de canto orfeônico. Estudei música e a tocar violão ! Nas Salesianas (Colégio Juvenal de Carvalho) tínhamos aulas de CINEMA – pasme! Uma vez por mês, nas manhãs de sábado, a turma da quarta série ginasial era levada ao Cine Diogo para assistir um filme de arte! Tal filme já tinha sido estudado e sabíamos o roteiro, o que observar, os planos das câmeras, etc…
    Tive aulas de francês e inglês com professores competentíssimos que usavam o método audiovisual e as aulas eram no auditório com direito a slides – modernissimo equipamento! E saiamos falantes mesmo!
    Uma escola avançada, moderna, a qual realmente preparava o aluno para o futuro. Sou imensamente grata e feliz por ter tido a oportunidade de vivenciar essa escola dos anos 60-70.
    Saudades…

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    1. Querida amiga Josi,
      Seu testemunho faz toda a diferença, afinal foi vivido. A escola pública eu vivenciei na minha história, não é teórica e sim, prática. A Mônica de hoje deve à base que teve na minha infância. Obrigada pela sua contribuição pertinente. Grande abraço a você e Keith, professores comprometidos.

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  4. Monica querida,
    meu período escolar começou em 1978 e tenho lindas recordações: da organização, do empenho de todos, da seriedade com que a educação era encarada.
    Hoje está tudo diferente e mais difícil. Quisera que alguns valores fossem retomados, só assim deixaríamos o nosso país um lugar melhor pra se viver…
    Um beijo, querida, amo teus posts!

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  5. Nossa que bacana. Também estudei minha vida tida em escola pública a partir dos anos 70. Era assim mesmo. O respeito à Pátria, aos Professores, aos amigos. Nos sentíamos também bastante seguros na escola. Para si bastante. Tenho no coração lembranças maravilhosas. Que lindo artigo Mônica Dourado. Obrigada. Bjs. Ângela Sousa.

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    1. Querida amiga Ângela,
      Verdade total, tempos de segurança e de boas lembranças. Gosto de escrever sobre experiências, dão um toque mais factual. Obrigada pelo comentário real, pois vivido na escola pública. Sua contribuição enriquece meu blog. Grande abraço, Ângela.

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  6. Olá, Mônica. Parabéns pelo artigo. Sou neto de Sebastião Praciano. Com muito saudosismo e orgulho, lembrei do meu amado e querido avô. Há muito falecido, tenho grandes lembranças da minha época das férias em Fortaleza, no bairro de Fátima, quando nossa família sempre ia passar as festividades de final de ano. Meu falecido pai, João Henrique, era o filho mais velho do saudoso “Sé”, apelido pelo qual chamávamos nosso avô. Com o meu mais sincero agradecimento, João Henrique Mesiano Praciano Filho.

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    1. Caro João Henrique,
      Ficamos muito sensibilizados com seu comentário. O Carlos admirava e gostava muito do seu avô, professor Praciano. A escola do passado não tinha grandes recursos, porém sobravam fraternidade, solidariedade e respeito entre os seus membros. Memórias inesquecíveis. Que grata surpresa saber que o nosso artigo alcançou você. Trata-se do meu artigo mais lido até hoje. Obrigada e grande abraço.

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    2. Olá, João! Busquei o nome de seu avó, Sebastião Praciano de Sousa, primo de minha mãe (Francy Coutinho, 94 anos) e encontrei seu nome nesta conversa. Gostaria muito de trocar informações com você.

      Minha mãe fala com muito carinho do seu avô. Ele era o melhor amigo do pai dela (Antônio Mario Coutinho de Castro). Estudaram junto, e é justamente ai que eu gostaria de chegar. Você saberia onde o seu avô estudou na infância e adolescencia? Tenho fé que vou descobrir, antes de minha mãe partir, algo sobre o pai dela. Fotos, cartas, histórias contadas, etc. Existem fotos antigas do seu avô?

      Clélia Monasterio

      @cleliamonasterio

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    1. Querido Rodrigo,
      Isso mesmo, eu venho de escola pública e fico triste que ainda hoje não se acertou o pé. Vamos colocar os filhos de políticos na escola pública? Aí tudo mudará. Obrigada pela sua colaboração e sua leitura. Grande abraço.

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  7. Tenho 53 anos. Minhas lembranças da minha escola na década de 1970, no interior do Rio de janeiro era BEM DIFERENTES DAS SUAS.

    Cobravam-se taxas e quem não podia pagar era humilhado e não tinha direito de merendar. Por volta do mês de julho ou agosto, quando a colheita se iniciava, metade dos meus colegas de turma desapareciam e só voltavam à sala no fim do ano.

    No ano seguinte, repetiam as mesmas séries ou eram “empurrados para a seguinte”. O objetivo dos MAIS DEDICADOS era conseguir um diploma de Segundo Grau.

    Não tínhamos biblioteca e as “mochilas” da maioria deles era saco de arroz. Não tenho saudades. Você foi uma privilegiada.

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    1. Querido Rodrigo,
      Obrigada pelo seu comentário, é uma prova como tudo é relativo, bons para uns e para outros nem tanto. Uma lástima sua experiência ter sido negativa. O artigo foi escrito por mim e pelo Carlos Alencar, veja que a vivência dele aqui em Fortaleza foi tão inesquecível quanto a minha no grupo escolar Rio Branco em Porto Alegre, com a diferença de 12 anos. Então, sim, fomos privilegiados neste país tão enorme como o nosso. Seu relato me fez perceber que muita gente deve ter tido a sua experiência e não a minha. Que a continuação de seus estudos tenha valido a pena. Gratidão. Grande abraço.

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