“Quadrinhos”? Mas que diabéisso?*
Por Max Krichanã*
A biblioteca laboratório HQLab, que é o embrião do que um dia seja o museu do Instituto de Educação e Pesquisa em Arte Sequencial, propõe-se a estimular pessoas de todas as idades a, basicamente, ler — contudo diferenciando-se de outras bibliotecas por ser referência especializada em HQs e buscar tornar a leitura uma atividade de vários modos interessante e produtiva, não somente como fim em si mesma, mas a partir da utilização dirigida do acervo (em mais de 5 idiomas) disponível.
HISTÓRICO
O HQLab teve início ao ser instalado, em maio de 1998, como acervo anexo da biblioteca George Washington do Instituto Brasil-Estados Unidos no Ceará (IBEU-CE), na sua sede da Aldeota, sob a denominação “Biblioteca de Arte Sequencial Richard Felton Outcault”, tanto em homenagem ao criador da comic strip Hogan’s Alley (que estreou em jornais de Nova York em 1896, destacando o personagem Yellow Kid), como para justificar sua participação nas atividades culturais de uma escola de idiomas. Em sua inauguração, o projeto recebeu a visita do jornalista, quadrinista e escritor Álvaro de Moya, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, que afirma ser aquela data — 1896 — o marco do “nascimento” do gênero comic art, equiparando a idade dos quadrinhos à do cinema. Notável autoridade brasileira em HQs (pesquise sua biografia!), Moya participou, junto a outros palestrantes, de uma semana de atividades nas dependências do IBEU-CE, incluindo palestras, exposições e mostras, a exibição de curtas e documentários, a performance de atores, músicos e humoristas e uma feira de gibis, que atraíram a atenção de um público variado e atento à inédita programação.
A efígie do personagem Bolão, saída da pena do cartunista cearense Luiz Sá (1907-1979) — que foi para o Rio de Janeiro, na década de 1950, expor seus desenhos e trabalhar com cinema de animação e publicidade, criando a trinca de personagens Reco-Reco, Bolão e Azeitona para a revista O Tico-Tico — tornou-se a identidade formal da logomarca da BASRFO. Trata-se de uma homenagem a um artista da “terrinha”, cujos traços em curva são há mais de 70 anos reconhecidos e admirados em todo o Brasil. Luiz Sá, nascido num 28 de setembro, fez a data tornar-se o “Dia do Quadrinho Cearense”, por lei estadual exarada em 2017 pelo mandato do deputado Renato Roseno (PSOL).
Neste lançamento e enquanto perduraram as suas atividades abertas ao público, a BASRFO (que ficou conhecida como “Gibiteca do IBEU”) destacou-se por mobilizar diversas comunidades culturais da cidade, atraindo, além de quadrinistas e cartunistas, também ilustradores, designers, fanzineiros, humoristas, videomakers, cineastas, titereiros, atores, músicos, arquitetos, decoradores, estudante e outros interessados na Nona Arte — além, é claro, da mídia.
O aspecto central desta iniciativa foi disponibilizar, no contexto institucional do IBEU-CE, em ambiente adequadamente estruturado para a fruição pública, um acervo contendo milhares de edições de revistas, livros, coleções, obras de referência e materiais em áudio e vídeo, em diversos idiomas, associados especificamente aos comics ou “quadrinhos” ou, como grafou o artista norte-americano criador da personagem The Spirit Will Eisner, à “arte sequencial”.
Em 1999, uma avaliação produzida junto à opinião dos consulentes pela diretoria do IBEU-CE e funcionários da biblioteca George Washington demonstrou que a “seção de quadrinhos” havia se integrado e dinamizado a rotina da instituição, fidelizando um público que se dedicava assiduamente a conhecer o amplo espectro de histórias, abordagens e análises oferecidos pelo inacreditável acervo.
Assim, no intervalo 1998-2000, foram promovidos lançamentos de livros e folhetos de cordel, de fanzines e revistas em quadrinhos, e realizaram-se oficinas, exposições, palestras, recitais e debates, concretizando encontros diversos e toda uma difusão de conhecimentos, especialmente a partir de produtores e produtos culturais locais. O planejamento adequado destes eventos levou a sua realização a custos mínimos. Em maio de 1999, o evento Quadrinhos em Festa no IBEU comemorou o primeiro aniversário da biblioteca com uma semana ininterrupta de eventos, apresentando sessões de autógrafos em lançamentos, exibição de documentários e animações, performances de artistas, atores, humoristas e músicos, palestras, oficinas, exposições e a distribuição do fanzine bilíngue Yellowzine, editado junto à Tupynanquim Editora, como forma de homenagear os artistas cearenses do traço, do gesto, da palavra, da musicalidade e da imagem — em sua maior parte criadores que se juntaram à iniciativa do projeto para colaborar com o seu bom desempenho.
Após julho de 2000, a biblioteca laboratório deixou o IBEU-CE e passou a atender somente a estudiosos e pesquisadores, limitando seu acesso a especialistas, sem que o acervo tenha deixado de receber acréscimos. Percebeu-se a necessidade de desenvolver o foco potencial planejado para a iniciativa, aperfeiçoando sua estrutura e organização, de modo a permitir que o projeto prime por sua utilidade, interagindo pedagogicamente com os usuários de toda a rede de ensino, pública e privada.
JUSTIFICATIVA
A atualização e conservação do acervo e o incentivo às atividades do HQLab visam, portanto, a disponibilizar conhecimentos em um contexto dirigido, com o apoio de monitores pedagogos, onde o consulente (criança, jovem, adulto, idoso, alfabetizado ou não), ao escolher um título ou material de sua predileção, inclusive sugerido por seu(s) professor(es), seja capaz de optar por:
a) ler o material confortavelmente, cumpridas as exigências de segurança para o acervo;
b) solicitar a um “contador de histórias” (pedagogo voluntário) que o leia junto com ele;
c) solicitar a um “facilitador de leitura” (pedagogo voluntário) que o oriente para reconhecer letras, sílabas, palavras e frases (individualmente ou em pequenos grupos), caso o deseje, utilizando o material previamente selecionado;
d) pesquisar e aprofundar aspectos encontrados no material escolhido em outras obras e materiais associados (filmes, obras de referência, dicionários especializados, outras publicações análogas, outros idiomas etc.);
e) debater conteúdos pontuais com especialistas convidados;
f) participar de dramatizações, mostras e oficinas de desenho, leitura, escrita e roteiro;
g) ampliar conhecimentos sobre os grandes criadores da literatura universal, nacional e regional, que representam a grandeza da Nona Arte;
h) receber apoio e orientação para desenvolver projetos vinculados à arte sequencial, inclusive a publicação de jornais, livros, folhetos, revistas, fanzines, audiovisuais, blogs etc.
Entre suas atribuições, e naturalmente como parte de sua programação, o HQLab promove (desde 2022), no dia 28 de setembro, o evento “Ceará em Quadrinhos” no auditório da biblioteca da Unifor, reunindo palestrantes vinculados ao ensino e produção de HQs, e almeja:
i) promover outros eventos diversos que contribuam para, além de estimular a leitura e a escrita, incentivar e facilitar o acesso, a inclusão e a participação de seu público em diversas formas de produção de arte e de mídia;
ii) apoiar iniciativas de produção cultural e de inclusão social no âmbito das instituições educacionais públicas e privadas, que se mostrem acessíveis a todas as faixas etárias;
iii) difundir a importância da educação intelectual de crianças e jovens e o respeito aos valores e direitos humanos, ao trabalho, à convivência pacífica e à preservação do meio ambiente, visando a formação de cidadãos conscientes, responsáveis, produtivos, participantes criativos e solidários de seus cotidianos. Tudo isto, grosso modo, estruturado a partir, apenas, do incentivo dirigido à… leitura! O HQLab hoje fica no Meireles, e para uma visita dirigida marque horário usando a hashtag max.krichana na web.
*Comics: que diabéisso? é título de palestra enfocando mestres das HQs entre os séculos XVI e XXI
* Max Krichanã é jornalista, psicopedagogo, indigenista, gibitequeiro e organizador do HQLab-Laboratório de Arte Sequencial-Núcleo de Referência em HQ; publicou em Fortaleza na década de 1990 o periódico Jornal da Praia, com mais de 150 páginas de tiras em quadrinhos de autores cearenses; coautor em publicações que receberam o Prêmio HQMix e editor de folhetos de cordel junto à Tupynanquim Editora; foi homenageado em 2000 como “Personalidade do quadrinho cearense 1999” pelo Estúdio Graphlt com o troféu “Carbono 14”; promoveu diversos eventos, como o “Ceará em Quadrinhos” em 2022 e 2023 no auditório da biblioteca central da Unifor (Universidade de Fortaleza), em homenagem ao dia 28 de setembro, dia do Quadrinho Cearense; é ainda editor de diversos projetos de livros, tradutor, professor de idiomas e estudante de música. Paulistano, é radicado em 4townlazy (Fortaleza) desde 1989.
