A Urgente Educação Histórica para a Paz
Eleazar de Castro Ribeiro
A II Guerra Mundial é considerada um prolongamento da Primeira (1914-1918), cuja conclusão deixou na Europa uma série de questões não resolvidas, ou mesmo criou problemas novos. O Tratado de Versalhes, imposto à Alemanha pelos vencedores, foi excessivamente pesado e gerou ressentimentos que exacerbaram o revanchismo dos alemães. Ao mesmo tempo, numerosas minorias étnicas foram colocadas sob domínio estrangeiro, criando focos de tensão interna. Finalmente, a disputa das potências industriais por mercados e matérias-primas não foi solucionada satisfatoriamente, pois Alemanha, Itália e Japão continuaram carentes de insumos para suas indústrias.
Configurou-se como uma extrema contradição com os novos tempos vividos pelos europeus nos séculos XIX e XX. Havia um período de exuberante cultura cosmopolita e de florescimento das artes, como resultado do movimento iluminista. A Revolução Industrial trazia esperança de aumento da riqueza mundial e incremento da qualidade de vida.
O sociólogo Norbert Elias, no seu livro Os Alemães, pergunta: como o Holocausto pôde acontecer num país celebrado como a Grécia do século XIX, lugar do nascimento de mentes privilegiadas como Beethoven, Bach, Nietzsche, Thomas Mann, Goethe, Einstein, Hanna Arendt e Karl Marx, dentre outros símbolos culturais? Como admitir uma barbárie tamanha num país civilizado como a Alemanha?
Ele mesmo conclui que processos civilizadores e descivilizadores podem ocorrer simultaneamente em determinadas sociedades, que podem alcançar um estágio admirável, mas, ao mesmo tempo, serem seduzidas por forças que as fazem viver como “bárbaros tardios”. Especialmente quando essas forças são exploradas por discursos radicais e cheios de ressentimentos, como os de Hitler, que se sentiu traído com a derrota da Alemanha na I Guerra.
Isso significa que todos nós – mesmo com educação intelectualmente sofisticada – estamos sujeitos à tentação do radicalismo e da violência do maniqueísmo ideológico que é uma herança da II Guerra.
Até então, as guerras tinham um pano de fundo muito mais geopolítico e territorial. Hitler foi um dos primeiros ditadores mundiais a se utilizar da exclusão ideológica e racial. É inevitável pensar no atual contexto internacional, perigosamente parecido com o da época. Quando achávamos que o mundo havia resolvido essas questões, elas estão retornando de uma forma muito intensa.
O mundo que emergiu do terrível conflito era bastante diferente daquele que existia em 1939. As potências do Eixo estavam esmagadas, mas também a Grã-Bretanha e a França saíram debilitadas da guerra. Para definir a nova relação de forças internacionais, foram criadas duas expressões: superpotências e bipolarização – mostrando que o planeta se encontrava dividido em duas zonas de influência econômica, política e ideológica, controladas respectivamente pelos EUA e URSS. Do confronto entre ambos (Guerra Fria) resultaram a Guerra da Coreia (1950-1953), a Guerra do Vietnã (1961-1975) e a Guerra do Afeganistão (1979-1989). Somente em 1985, como início da Perestroika (reestruturação econômica) e da Glasnot (transparência política) implantadas por Gorbachev na URSS, esse cenário instável começou a se desfazer.
Parecia que o mundo estava se dirigindo para a paz, mas a invasão da Ucrânia pela Rússia (em 2022) nos mostra que os problemas relacionados aos conflitos entre as nações permanecem vivos até hoje, apenas mudando algumas características do contexto histórico onde estão inseridos.
Sinais de que o mundo está reciclando suas questões conflituosas surgem quando se identifica que a extrema-direita foi escolhida para governar em alguns países periféricos. Devemos lembrar que a França e os EUA também entraram no cenário de disputas de matiz ideológico.
Por isso, é imperativo reconhecer que a educação para a paz é uma necessidade superior aos partidos e ideologias. É preciso recordar permanentemente a História para fazê-la viva e pedagógica em nossas sociedades. Que tenhamos sempre em mente a expressão que está escrita nos portais dos museus europeus que tratam do Holocausto: LEMBRAR PARA NÃO REPETIR!
Sobre o autor: Eleazar de Castro é aposentado do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e tem uma longa carreira como professor. Sua paixão por História, II Guerra Mundial e viagens o fez escrever o livro imperdível Pelos Caminhos da II Guerra Mundial (vol. 1), editora Chiado, com a sua companheira de vida e alma Goretti Gurgel. Moram em Fortaleza-Ceará. E em breve viajarão para mais pesquisas na França e em outros países europeus para o volume 2.
Eu tenho o prazer de conhecê-los e participar de seu grupo de estudos e discussões sobre a II Guerra Mundial no Whatsapp: Pelos Caminhos da II GM. As lives no Instagram aos sábados, geralmente às 16 h, no seu canal @peloscaminhosdaiiguerramundial com estudiosos são um eterno aprendizado. Obrigada, Eleazar, pela sua contribuição importante ao meu blog. Saudações a você e Goretti/Leta.
