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A Fortaleza da minha juventude

A Fortaleza da minha juventude

Estou cá relembrando os anos 1980/1990 em Fortaleza, Ceará novamente. Sou nostálgica mesmo, tudo mudou tanto. Algumas mudanças foram positivas e sobre essas escreverei em um futuro breve.

Vamos às recordações. Nossas manhãs no Círculo Militar (no bairro Meireles) para banho de piscina, e no caminho a pé de volta para casa, um grupo de vizinhos e eu parávamos em uma das casas imensas e aconchegantes da av. Dom Luís, e “roubávamos” pitangas da árvore. Que delícia. Ainda havia muitas casas e todas elas com árvores frutíferas, Fortaleza era verde, bucólica e tinha um clima mais agradável. Hoje é uma cidade vertical, a maioria das casas deu lugar a prédios e edifícios, infelizmente.

A turminha de amigos e irmão reunida na Volta da Jurema à noite, nome pela qual a avenida Beira Mar era conhecida. Eram domingos à noite bastante aguardados por nós. A gente (mulherada) conversava e caminhava tanto que me lembro dos amigos “gozando” da cara da gente, e contando quantas voltas a gente dava. Era uma festa.

Dia de sexta à noite era o encontro na Praça Portugal na Aldeota. Eu comprava comida das barraquinhas, revia os amigos, paquerava, conversava, era tudo tão saudável. A vida era para sempre e os amigos também. Tinha também a feirinha da pracinha do bairro de Fátima aos sábados à tardinha. Tudo tão legal. Aonde íamos tinha um amigo ou amiga para papear.

Quando inauguraram o shopping center Iguatemi, uma amiga, nossos irmãos caçulas e eu pegávamos o ônibus e íamos bem felizes comer bolo xadrez nos sábados à tarde. Saudades da Fortaleza da minha juventude, era tão segura. A gente andava muito pela cidade sem medo. Quando eu penso que entrávamos em um ônibus à noite, íamos para outro bairro, voltávamos e nunca nos sentíamos temerosas.

Eu só queria ser bronzeada, achava um charme ver a marca do biquíni. Muita praia e muito óleo Johnson com urucum, a vida era o mar aos domingos na Praia do Futuro pela manhã.

As amigas… tomar café com pão na casa de uma, sair para um cinema com outras, ou com irmãos; ir para a antiga Praia de Iracema como era, um point: o Cais Bar e a sua música MPB, alegria, o mural pintado dos artistas famosos na parede de fora; o restaurante italiano La Trattoria com aquela sangria e lasanha verde; as circuladas pelo calçadão; o mar ali ao lado. Que nostalgia. Viva as companheiras de noitadas maravilhosas.

Recordei-me agora: o Mirante! Como se chama mesmo? Ah, o morro Santa Terezinha no bairro Vicente Pinzón. O visual lá de cima esplendoroso, um mirador com um cenário do mar arrasador. Eu e todo mundo costumávamos levar os turistas para conhecer e jantar em um dos restaurantes localizados em lugar tão idílico. O do peixe na telha era conhecido. As amigas portuguesas do Porto ficaram encantadas. Quem não ia lá aproveitar o esplendor do mirante? Os momentos eram poéticos. E o bar Ponto de Luz, um charme na parte alta da cidade, perto da Praia do Futuro no bairro Dunas? Uau, quanta emoção. E a Ponte Metálica ou Ponte dos Ingleses? Um pôr-do-sol inesquecível visto do píer, com gente tocando música, passeando e se deliciando com o mar. As amigas de Porto Alegre-RS lembram muito bem.

Minha geração, com certeza, não esquece os bons momentos que vivemos. A cada geração, uma cidade diferente. Mas digo para vocês: fui muito feliz como jovem. Aqui deixo o meu abraço carinhoso a cada amiga e amigo daquela época. Tivemos uma juventude livre, leve e solta.

Para concluir, muitos locais mencionados já não existem mais ou ficaram abandonados, uma tristeza. Agora um pouco sobre a Fortaleza atual. Há lugares que gosto imensamente: o Mercado das Flores na praça Joaquim Távora na av. Pontes Vieira, alguns shopping centers, a nova Beira Mar, ótima para as caminhadas e para um banho de mar, dentre outros. Enfim, a cada época uma cidade singular.

Turismo do mundo do vinho e do azeite

Turismo do mundo do vinho e do azeite

Ricardo Dourado Furtado

Em um planeta cada vez mais urbanizado, hoje mais de 90% da população europeia e norte-americana habita em cidades, e o Brasil caminha a passos largos no mesmo processo, criando assim uma busca pelas pessoas acostumadas ao ecossistema formado por prédios, cimento, vidros, ar contaminado, carros, asfalto, monóxido de carbono etc. por paisagens e ambientes que vão do rural ao selvagem.

No caso do turismo rural, alguns “produtos” já estão consolidados há muitos anos, como no caso da região de Champanhe, na França ou do Vale do Napa, nos EUA, que são destinos rurais procurados e muito concorridos.

No Brasil, o Vale dos Vinhedos cujos vinhos ganharam o reconhecimento de Indicação Geográfica tipo Indicação de Procedência, já está com uma estrutura hoteleira, gastronômica e de atrativos de passeios impressionantes.

Mas algumas regiões especializadas vêm atraindo apaixonados por alimentos cuja região produtora tem naturalmente um atrativo na paisagem e na cultura. O cultivo de oliveiras teve sua origem na Ásia Menor. Os fenícios, gregos e, finalmente, os romanos trataram de expandir seu cultivo por todo o Mediterrâneo, sendo a atual Andaluzia (antiga Bética) a maior região produtora.

Viajar pelo coração interior da Andaluzia, por cidades até então desconhecidas pelos brasileiros, como Jaén, Úbeda, Balén, Mancha Real etc., são um deleite paisagístico. Um mar de oliveiras se confunde com o céu extremamente azul e límpido, e o cheiro do ar é levemente aromatizado pelas indústrias extratoras (Almazaras) de azeite.

Vou reconhecer que minha alma está na Andaluzia, mas meu coração está nos olivais de Trás-os-Montes em Portugal. Para quem quiser ir de carro, saia da cidade do Porto, acesse a rodovia A4, garanto que terá uma viagem, a mais inesquecível de sua vida. Essa rodovia foi construída exatamente para tirar do isolamento geográfico as populações habitantes: os transmontanos. Antes da construção da rodovia, levava-se até 8 horas para chegar a Bragança, hoje leva-se 1 hora e 30 minutos por uma série de túneis e pontes sobre os afluentes do rio Douro, encurtaram a distância e o tempo de viagem.

Tenha cuidado ao sair dos túneis, pois eles furaram as altas montanhas e o vento é tão forte que existem birutas (aqueles instrumentos que estão nos aeroportos para indicar a velocidade e a direção do vento) na saída dos túneis, para indicar aos motoristas que transitem com cuidado. Somado a isso, as pontes sobre os afluentes do Douro formam um dos patrimônios paisagísticos mais deslumbrantes do planeta.

Ao chegar à Trás-os-Montes, obviamente o destino é Bragança, a maior cidade da região e grande centro cultural e educacional. O Instituto Politécnico de Bragança é um dos mais respeitados centros de ciência e educação de toda a Europa, mas não deixe de aportar em cidades como Mirandela, Macedo dos Cavalheiros, Valpaços, Vila Flor, enfim locais espetaculares e até o momento, pouco visitados pelos brasileiros.

Em Mirandela, em especial, na localidade de Sucções, estão os produtores de um dos melhores azeites de oliva do mundo, traz todo o “terroir” transmontano ímpar de oliveiras centenárias e variedades como verdeal, madural, cobrançosa, redondal, enfim um azeite realmente divino. Os irmãos Pavão, Francisco e Antônio são magos em um mundo onde a tecnologia moderna é fundamental para produzir azeite, eles ainda moem suas azeitonas em um moinho de pedra de granito, é um mistério como fazem este azeite.

Eles fazem do azeite Casa Santo Amaro um produto raro feito com esmero e cuidado que leva dentro de cada garrafa de azeite conhecimentos ancestrais dominados somente por eles.  Ao participar da colheita e do processo de produção do Casa Santo Amaro em Sucções, há uma atmosfera celta onde Francisco, Antônio e sua família são modernos druidas em um mundo poluído por tecnologias digitais.

Ricardo Dourado Furtado é auditor fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura em Porto Alegre-RS. É engenheiro agrônomo pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e economista pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza). Tem mestrado em Ecologia pelo Instituto de Biociências da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e doutorado em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS. Nasceu em Alegrete-RS e é meu irmão.

Rumo ao Pontal de Maceió 3

Rumo ao Pontal de Maceió 3

Hoje é dia 18 de janeiro de 2021 e continuamos aproveitando a permanência no Pontal de Maceió, distrito de Fortim no Ceará.

MANHÃ

Vamos passear de buggy hoje, são duas horas de diversão e belezas naturais. O bugueiro se chama Rogério e nos cobrou R$180,00. Aconselho, vale a pena. Dica da Luzinete da nossa pousada Jangadas do Pontal.

Iniciamos a jornada. Passamos pelo viveiro de camarões, pelo mangue que está sendo morto pelas dunas (nunca imaginei isso!) e pela floresta de mandacaru. Vimos o rio Pirangi e sua foz, onde se encontra com o mar. Ali senti a poesia e a paz do belo cenário. Cruzamos a praia do Farol na qual se localiza o farol vermelho, existente desde a época de Dom Pedro II e cuidado pela Marinha do Brasil.

O rio Jaguaribe (significado do nome Jaguaribe: “rio das onças”) já foi muito importante no passado para o transporte de charque, sal e cera de carnaúba, além de pessoas. Estávamos na Barra, na foz do rio. Como era segunda-feira, as barracas de praia não funcionavam.

Fomos novamente ao Mirante do Pontal de Maceió, aliás, Maceió é o riacho que passa ao lado do hotel Vila Selvagem. Lá bem perto do mirante, descemos por rochas (tem que possuir bons joelhos!) e chegamos a uma gruta para um banho “jacuzzi privê”, muito chique. O detalhe é que é natural, de água do mar. Fantástico! Amamos! Queria ficar lá. De lá voltamos à pousada, pensem que o passeio foi excitante demais.

ALMOÇO

Por merecimento, decidimos passar bem e se dirigir à Vila Selvagem. O hotel é fabuloso, ecológico, tropical e bonito. O visual que temos do restaurante é de extasiar. Nada como o nosso oceano Atlântico. O restaurante é aberto ao público, todo na madeira com almofadas verdes. De frente para o mar, nos dá vontade de se hospedar no local. Como era segunda, não houve problema de encontrar lugar, pois final de semana só com reserva.

Eu escolhi frango ao molho roquefort com ervas e legumes salteados, e o Carlos preferiu peixe com castanhas e tomates cerejas, ervas finas e legumes salteados. Delícia dos deuses.

Após a boa descansada da sesta, fomos embora com saudades.

Em suma, o Pontal de Maceió requer muitos retornos de tão bom e surpreendente que é.

Rumo ao Pontal de Maceió 2

Rumo ao Pontal de Maceió 2

Hoje é domingo, dia 17 de janeiro de 2021. Estamos na pousada Jangadas do Pontal, bem instalados.

MANHÃ

O café da manhã foi substancioso: frutas, bolo caseiro de limão, tapioca, queijo, presunto, ovos mexidos, pães, sucos, café etc. Os proprietários da pousada Luzinete e Talvane resolvem tudo. O tratamento é de primeira.

A praia das Agulhas é longe do centrinho de Pontal, precisa-se de carro para chegar lá. Como a nossa pousada se localiza na praia, vamos a pé. O banho é uma delícia, o mar forma piscininhas naturais na maré baixa, amo! Maravilha. Voltamos para a pousada por cima da duna e à esquerda as rochas em formato de agulhas formadas pela maré chamam a atenção. O visual é deslumbrante. Vemos várias pessoas pescando. Diz o Talvane que ganhou um peixe robalo considerável um dia desses de um amigo que o fisgou ali.

Pelo caminho para a praia encontramos a árvore da frutinha murici, também presente na região de dunas de Paracuru.

A tranquilidade e a sinfonia do mar tomam conta da manhã. Na areia da praia existem barracas de madeira para proteger os banhistas do sol. As pessoas podem levar suas redinhas, comidas, e passar o dia se refestelando lá. Nunca vi isso em nenhuma outra praia. Só um detalhe: sr. Prefeito, limpe as dunas do local, por favor.

TARDE

A aridez do lugar lembra muito a da praia Icaraizinho de Amontada. Nosso litoral é seco. Estamos a aproximadamente 36 km de Canoa Quebrada.

Decidimos almoçar em uma barraca diferente do dia anterior: Barraca Maresia com mesas dentro e fora na areia. Pedimos moqueca de camarão para duas pessoas, com arroz branco, salada e farofa por R$43,90. A barraca é espaçosa, o que gostei. Nossa garçonete Lilia foi um doce. Levamos um espumante e o degustamos com gosto. Gostam dos picolés Quick de Floriano no Piauí.

Ali perto está a pousada, dica dos compadres Simone e Maurinício: Brisas do Pontal. Passeamos novamente pelo local após o almoço.

As lixeiras do Pontal de Maceió têm casinhas de madeira nas casas e hotéis. Considero algo bem pensado e ecológico, sendo que a padronização prova uma organização dos moradores. 

Depois do descanso pós-almoço, combinamos de conhecer o Mirante de carro para ver o pôr do sol. O prefeito atual Nacelmo Ferreira construiu o mirante com o portal. O lugar é impressionante com as rochas esculpidas pelo mar e há fendas nas falésias onde estávamos. Nunca vi nada igual no Ceará. O Pontal de Maceió é mesmo único. Vimos avisos do uso obrigatório de máscaras de proteção contra a COVID e não à aglomeração. Lá estavam grupos grandes de gente com bebidas nas mãos e som alto. Sinceramente, não combina. Sábado teria mais gente, logo viemos no domingo. Não vi ninguém da prefeitura fiscalizando. Triste dizer que as pessoas não seguem os avisos, infelizmente. Passamos pouco tempo, tiramos fotos e fugimos do povo. Muito belo o Mirante do Pontal de Maceió. Ali se localiza a praia do Moaci. A praia dos Correntes se situa ao lado.

As casas continuam com seus nomes: Casa do Cacto, Vila Alesia, Vila Loira, Casa João. Muito original.

Passeamos até o centrinho e adentramos o distrito de Pontal. Maior do que eu imaginava é local onde moram os nativos, sendo a predominância de pescadores. Vivem direitinho, com qualidade de vida. Há ginásio coberto, pracinha com objetos para exercícios, a Escola Municipal Emília Queiroz, tudo bem apresentado.

Rumamos ao distrito Barra e entramos por um portal. Lugar também mimoso. Estamos na avenida principal com mercadinhos, lanchonetes, pizzarias, casas coloridas, colégio, tudo arrumado. O ginásio de cor verde e coberto merece os parabéns. A jangada é o símbolo de Pontal de Maceió e da Barra. As ruas são longas, o mar está à direita com casas fenomenais e pousadas. Lá está o Fortim Náutica Marina Club com barcos enormes, é um ancoradouro de barcos.

Na Barra encontramos o rio Jaguaribe. O mar aberto é mais adiante. Tem um píer, ruas de areia. Aqui é o encontro do oceano com o rio. De um lado está a cidade de Aracati e do outro lado, Fortim. À beira rio as casas são charmosas, é um lugar atraente.

Fomos tirar fotos da beira rio com areia do mar, há barracas de praia com muita gente. Vimos o barco do passeio que sai de lá da marina, esse passeio fica para outra ocasião, desta vez não deu tempo. No horizonte, compondo a paisagem existem as hélices brancas de energia eólica. Partindo da Barra, voltamos ao Pontal.

NOITE

Na pracinha se situa o restaurante Mandacaru do chef Gabriel e da Luciana. Havíamos reservado no dia anterior, logo foi tranquilo, fomos os primeiros a chegar. O peixe Pontal de Maceió, levemente grelhado, ao molho agridoce de limão com ervas finas é um achado por R$ 66,00. Tivemos uma noite prazerosa, com comida boa e papo amigável com o Gabriel.

Este Pontal é digno de nota, até os recicladores de material reciclável tem uma carroça decente e ajeitada. Outro mundo mesmo.

Do restaurante nos dirigimos à sorveteria a quilo dentro da pizzaria Vila Caiçara. O mousse de maracujá com creme de leite Ninho valeu.

Antes de voltar à pousada, mais uma voltinha a pé no centro gracioso. É muito bom ressaltar a existência de uma geladeira toda repleta de cores a oferecer livros de graça. Também descobrimos a pousada promissora Pontal das Estrelas, uma lindeza por dentro e por fora. O atendente Paulo Sérgio se portou atenciosamente e nos mostrou o museu de objetos antigos e da história de Fortim. Indico.

Continuaremos em breve…

Rumo ao Pontal de Maceió 1

Rumo ao Pontal de Maceió 1

Hoje é sábado de manhã, dia 16 de janeiro de 2021. A dica deste final de semana foi dos compadres Simone e Maurinício. Pegamos a CE-040, em direção ao litoral leste, estamos na Rodovia Sol Nascente. 140 km depois (2h e 20 min de viagem) no município de Fortim, entramos em um portal e adentramos a cidade. Estamos na avenida Joaquim Crisóstomo, com bloquete de cimento colorido, tão mimoso. Vimos o Boulevard Shopping, Banco do Brasil, casas residenciais, cemitério etc.

A avenida é longa. Chega-se a uma pracinha com rotatória com a igreja ao fundo. Todas as cidades do interior do Ceará são bem cuidadas e limpas. No caminho para o Pontal de Maceió,  sítios e muito verde. À direita encontra-se o distrito Pontal da Barra e seguindo reto vamos para o distrito de Pontal de Maceió. Há pousadas promissores pelo caminho.

O portal de madeira está na entrada e nos encantamos com a pracinha e a igrejinha verde, tão fofa. Tudo colorido e leve no centrinho, o distrito tão limpo. Que paraíso, original. Fazemos reconhecimento de área. As casas têm nomes, não números: Casa do Cacto, Paralelo, Quatro, Casa Génepi, dentre outros. Nas esquinas há placas indicativas das casas e pousadas. Muitos estrangeiros constroem casas lá, sobretudo, os franceses. As placas de Pare/Stop estão nas esquinas. As pousadas são espalhadas, são várias as estradas de terra. A vegetação nativa é o mandacaru, símbolo de terra clara e seca. Encontramos nossa pousada Jangadas do Pontal na marra. Pagamos duas diárias (R$460,00) pelo Booking.com. A Luzinete e o Talvane Pereira nos recebem bem. O local é mais afastado e se localiza perto da praia da Agulha.

Segundo a Luzinete, o prefeito Naselmo de Sousa Ferreira, de Fortim, agrada o povo da praia, faz maravilhas. Foi reeleito sem gastar um tostão e a população se posicionou em frente da casa dele pedindo que continuasse. Ele é muito popular, senta na pracinha. Fez as melhorias na cidade e construiu postos de saúde.

Era hora do almoço e fomos à Barraca Canto Verde do Dedé, indicado pela Luzinete. Lugar tranquilo, sem barulho. Parece a Canoa Quebrada dos anos 90. Pedimos peixe grelhado (cioba), com baião e farofa e água de coco por R$ 51,00 para dois. O ambiente bem movimentado e aberto à beira-mar. Comida boa e simples. 

Tarde

Depois do cochilo da tarde, saímos a pé pela praia seguindo pela pousada da francesa ali perto. Estamos na região de pescadores, eles à vontade escutando a sua música de forró em galpões tipo palhoça. Nas pedras na praia, subimos em uma pequena duna e seguimos por cima dela. O passeio é arrebatador ao vermos as rochas “agulhas”, por isso o nome da praia. São agulhas esculpidas pelo mar em diferentes formatos.

Depois descemos na praia e seguimos por casas, pousadas e jangadas. O lugar é espetacular, pura natureza. Entramos no hotel contemporâneo Vila Selvagem para conhecer e “babar”. Faz parte da classificação Roteiros de Charme.  São hotéis originais acoplados ao entorno praiano.

Noite

Fomos por indicação dos compadres, a sugestão é a pizzaria Vila Caiçara no centrinho. Boa música MPB, bem movimentado com o cuidado da pandemia, pedimos a velha marguerita com coca. A pizza fina prometeu. É um point ao sábado à noite. Após nos deliciarmos, voltamos à pracinha. Conhecemos o quiosque da esfirra ali perto que oferece pizza também.   O centro é muito charmoso, colorido, alegre. Os cantinhos são transados. A proposta da Arte e Madeira/Nova Onda com sua tábua de comida árabe e drinques é original. Senta-se em sofás. Existe o Boteco do Joabe (hamburgueria e restaurante); o Casarão da Praça (lanches e petiscos), uma casa antiga e linda; o restaurante Mandacaru (decorado de forma rústica com mandacarus), sempre lotado; as Delícias da Bel (hambúrgueres, petiscos, feijão verde, cachorro quente) etc.

Tenho que reportar que o restaurante Mandacaru pertence ao casal Gabriel (PE) e Luciana (SP). Conhecemos o chef Gabriel em Icaraí de Amontada quando almoçávamos o peixe ao limão enrolado em uma folha de alumínio, inesquecível, no seu restaurante Hibisco. Continua lá.

Mais Pontal em breve.

Diários da COVID

Diários da COVID

Escrever é terapêutico, cura. Enquanto me deleito com a escrita, ainda estou com sequelas pós-COVID, no meu 26° dia. Ainda tenho suores noturnos, problemas gástricos (meu tio médico Gildo disse para tomar Motilium, já que Luftal não resolve), baixa concentração e dificuldade para respirar (menos de 25 % do pulmão foi comprometido, aí o Decadron corticoide), e insônia desde o primeiro dia.

Vamos lá. A saga começa dia 3 de fevereiro de 2021, quando me sinto mole e a temperatura vai de 33.4° C a 38° C no mesmo dia, estava almoçando com meus pais. Vou para o meu apartamento com embrulho no estômago, um pouco de sinusite e tosse. Desconfiava já da COVID.

No dia seguinte, falo com meu cardiologista dr. William e ele me manda ir lá na clínica. Chego de máscara e face shield (obrigada, cunhada Cláudia), ele me consultou e mandou fazer os primeiros exames de sangue e o PCR para checar se era COVID mesmo, na clínica da UNIMED da av. Barão de Studart aqui em Fortaleza. O resultado saiu no dia 7 de fevereiro e deu positivo com taxas de sangue alteradas. Detalhe: saí do dr. William com o protocolo usado por muitos médicos daqui de Fortaleza: 2 dias de Invermectina (para vermes) e 5 dias de Azitromicina (antibiótico). Estava na Fase 1.

Os dias passam e a lista de padecimentos é enorme. O vírus é inteligente, ataca seus pontos fracos: sinusite, tosse pouca, doem os pés (fascite plantar), dores musculares, diarreia, suores noturnos, insônia, as cicatrizes das cirurgias das mamas (por conta do câncer de mama superado em 2019), e o ataque assassino de gases sempre de noite (os tais problemas gástricos) etc.

No 9° dia (10/02/2021), o dr. William ligou, disse que eu estava entrando na Fase 2, a da inflamação, e sugeriu que fosse fazer uma tomografia no hospital. Resolvi ir ao São Mateus, uma vez que o meu namorido Carlos estava internado com COVID e a filha dele Denise poderia me dar uma assistência no local. Saí de lá com uma fome danada e sem a tomografia, a máquina quebrara. Uma frustração. A Denise me salvou com a comida dela, fui comendo ao me dirigir para casa.

Às 15h decidi ir ao hospital da UNIMED sozinha, afinal é uma doença solitária. Saí de lá às 20h, exausta com o protocolo. Passei pelas enfermeiras para checagem de temperatura e saturação do oxigênio, estava bem. O hospital lotado com duas emergências separadas, eu estava logicamente na da COVID. A médica excelente dra. Alzira Falcão me encaminhou para mais exames de sangue e tomografia (finalmente!). Deu menos de 25 % infectado, um alívio! Então, ainda estava com forças, havia levado uma bolsa com coisinhas minhas, caso precisasse me internar. Fui comer ali no café, mas sem fome. A COVID tira a nossa fome e diminui o gosto da comida.

Graças a Deus, voltei para o meu lar, meu refúgio. Só. A médica passou Zinco, Pantoprazol para proteger o estômago e corticoide Decadron. A fadiga típica do corona iniciou-se no dia 9/2, no oitavo dia, bem difícil. A gente depaupera, perde a energia vital e quilos. Aí começa a respiração mais difícil.

Nesse meio tempo, o Carlos estava na minha frente uns cinco dias, também com COVID. Baixou hospital duas vezes, a primeira por problemas gástricos, na segunda vez ficou no São Mateus, aliás, muito bem assistido, felizmente. Foram nove dias de oxigênio intermitente, quase desmaios e muita fraqueza, teve 80% do pulmão comprometido, nos preocupamos muito.  Para mim, foi um estresse extra. Hoje está em casa, bem cuidado pela filha Denise, são vizinhos de andar. Como se diz, se recuperando lentamente. O quadro dele foi o mais grave dentre os nossos. Afetou o sistema nervoso central. Isso ocorre, mexe com o humor e causa irritabilidade, dentre outros sintomas.

Aí vieram meus pais, a saga continua… Pegou meu pai (87 anos) e minha mãe (84 anos), impossível isso não acontecer, já que moram sós.  Independentes e autônomos, coloquei com o aval dos meus irmãos (moram fora) técnicas de enfermagem para ficar com eles dia e noite. Um time fabuloso do hospital São Mateus. Muito obrigada, Ana Lúcia, Marta, Denise, Aparecida, Silvandira, sem vocês não teríamos sobrevivido bem. Foram hospitais, exames e muita perda de sono (que já era pouca), mas vamos vencendo. Hoje estão bem, se alimentando e se recuperando.

Grata eternamente ao tio Gildo, médico e irmão do meu pai, que sempre esteve presente diuturnamente e nos confortou com sua maneira calma de ser nos momentos de desespero. Gildo, você nos carregou no colo. À prima Flávia, também médica e filha do Gildo, que levou meu pai para fazer tomografia pela primeira vez no hospital da UNIMED; ao irmão Rogério de SP que veio dar um suporte fundamental; à Lindiane cunhada pelos aconselhamentos médicos; aos pais da Lindi que entraram na corrente do bem; ao amigo irmão Sérgio que trouxe minha mãe e a técnica de enfermagem Denise do hospital às 23h para casa, quando os dois foram fazer exames e meu pai a tomografia pela segunda vez, com o Rogério ficando lá com nosso pai; à amiga Lilian (esposa do Sérgio) que foi checar meus pais e ainda deu de presente um nebulizador novinho em folha, e levou minha mãe para ser vacinada (já deveria estar doente, mas valeu a dose no drive do Iguatemi);, ao irmão Ricardo e cunhada Cláudia pelos telefonemas diários e constantes do RS, enfim tantos a agradecer. Para quem não pegou COVID, ter contato com alguém que tem, é coragem demais.

Foram tantos os telefonemas para eles, as orações, as manifestações dos vizinhos e amigos dos meus pais. Agradecida às comidas, sopas, bolos, pudins, bananas passas que chegaram dos anjos: Rita, Araruna, tios Mauro e Heloísa, tios Celso e Leda, Ivana na sua ajuda diária, Cynthia Moreno, prima Maria Angélica, queridas Denise e Beatriz, a vocês, muito grata.

Quanto a mim, tudo isso acontecendo e eu presa em casa sem poder fazer nada. Dei conta da logística familiar pelo zap e telefone, pelo menos isso. 

Se não fossem as minhas amigas/irmãs-anjos, amigos/irmãos, não teria vivido, já que as forças se vão e não temos energia nem para descer as escadas. Sozinha em casa, me senti amparada e amada. Obrigada à Claudiana, Solange, Karuza, Rita/Araruna, Drica, Andréia, prima Leyla, Cynthia Moreno, Eveline, Simone comadre, Denise, Roberta, Adalgisa comadre, prima Vera, irmão Rogério, primos Andrezza e Bruno, que gentilmente e generosamente me trouxeram tanto: compras, farmácia, canjicas, bolos e doces (calorias, por favor), nebulizador. O chef Thiego cozinhando especialmente para mim foi de uma consideração incrível. Os vídeos da minha fisioterapeuta Ingrid me ajudam com a respiração mais curta. A vocês essenciais, o meu muito obrigada. Todos os dias faço exercícios pulmonares, tomo solzinho e nebulizações.

Tantas orações, rezas, reiki, zaps, vídeos, áudios, muito confortam. E vamos vencendo, todo dia uma vitória, lenta, mas real.

No idoso e na gente também, esse corona afeta a concentração, dá confusão mental e problemas de memória. No momento, minha mãe está em plena COVID e meu pai em processo de cura, só Deus para agradecer muito.

Importante mencionar certos fatos. O dr. Galvão, otorrino cirurgião do Carlos, fechou seu consultório particular a fim de se dedicar aos pacientes da COVID no hospital.  Eis uma missão de vida.

Este artigo, escrito no calor do momento, tem o intuito de se expressar e curar. Escrevo sobre o que vivo. E para dizer que só quem tem COVID sabe o que é a fadiga causada que tira a nossa energia vital. Mas vamos progredindo.

Em tributo aos profissionais da saúde, exaustos com a síndrome de burnout, porém nunca desistentes do seu papel de salvar vidas, o meu respeito. Aqui homenageio minha afilhada Regiane, enfermeira digna de nota, que está na linha de frente desde o início da pandemia. 

Em homenagem às pessoas amigas, doces, cativantes, charmosas e felizes que nos deixaram recentemente. Ficam registrados em nossos corações saudosos a Judite, a Celeste, o Flávio, a Ivone e o Adriano. Foram muitos outros desde o ano passado. Ficam famílias enlutadas, sofrendo. Nosso abraço solidário de carinho a vocês.

E pela vacina de forma rápida e geral. Se todos já estivessem vacinados, a história seria diferente. Sou do time de todas as vacinas. O Carlos e eu tomamos a do herpes zoster e a da meningite recentemente.

E para concluir, seguimos nestes tempos desafiadores com o nosso grande aprendizado de sofrimento familiar e coletivo. Venceremos e teremos “força na peruca” (amo esse termo!).

A escola pública dos anos 60/70

A escola pública de outrora

Este artigo foi fruto de uma entrevista realizada com Carlos Rodrigues Alencar Lima, diretor de escola pública e educador por 33 anos, também ex-aluno de escola pública nos anos 60/70, assim como eu. Nossas lembranças são valorosas, muitas das recordações dele são também minhas.

O Carlos estudava com o filho da lavadeira, do desembargador, do delegado, do funcionário público e aí por diante. Foi aluno da Escola Pública Joaquim Albano e do Colégio Estadual Liceu do Ceará, com muita honra.

Havia disciplina e ordem e a escola era organizada. Se faltasse uma lâmpada, os alunos se cotizavam para comprar. Os livros e a farda eram pagos pelas famílias. Pagava-se uma taxa para a manutenção da escola, quem não tinha condições, não pagava. O diretor geralmente bancava muita coisa do seu dinheiro.

Existia biblioteca com livros bons. O livro didático, com capa dura, não era trocado todo ano. Se comprava o livro e depois de usado, se trocava com o colega ou se vendia para o sebo ou até mesmo se trocava na rua Floriano Peixoto no centro de Fortaleza.

A disciplina era rígida e se exigia muito do aluno. O uniforme era calça cáqui, camisa branca com o emblema da escola (era comprado), sapato preto e meias da mesma cor. Os alunos se reuniam pela manhã a fim de cantar o hino nacional uma vez por semana, com o acompanhamento de uma vitrola, depois o diretor falava umas palavras para os alunos “no gogó”.

É válido ressaltar que para passar do primário ao ginásio, havia um exame a fazer: o exame de admissão, teste para todos os alunos, de todas as matérias. Requeria muito estudo.

Havia muita cooperação entre os colegas nos estudos, era comum estudarem juntos nas suas casas. Estudavam também na escola com a aquiescência do diretor. Ele ainda dizia: “Fiquem com a chave do portão e da sala de aula, mas não me decepcionem”. A chave era entregue de volta ao porteiro ou vigilante.

O diretor era um senhor austero e muito humano ao mesmo tempo. Dava dinheiro para a passagem de ônibus quando o aluno não tinha dinheiro para vir para a escola. Eis o exemplar professor Sebastião Praciano, capitão reformado do Exército, excelente docente de matemática, hábil na didática e na arte da paciência. Professor que se preocupava muito com a educação. Interessante mencionar que depois de ser diretor da Escola Joaquim Albano, foi diretor do Liceu do Ceará.

Existem momentos válidos de ressaltar. Houve uma reunião no Liceu do Ceará por motivo de dissídio coletivo em 1983, estava presente uma comissão de diretores de escolas municipais e estaduais com representantes do governo estadual e municipal. Os diretores estavam lá como mediadores entre o governo e o sindicato APEOC (Associação dos Professores do Estado do Ceará). Aí o diretor decano Sebastião Praciano disse que tinha a felicidade de estar sentado à mesa junto com um ex-aluno e diretor de escola pública: o Carlos Alencar. Acrescentou que se sentia honrado de fazer parte do grupo de negociação. Foi um momento de júbilo para o Carlos.

Só rememorando que até o final dos anos 1960, os professores de escola pública tinham salários equiparados aos dos professores universitários. Os professores do ginásio (hoje ensino fundamental) trabalhavam também em outras instituições como Banco do Nordeste, Tribunal de Justiça (um desembargador que era o presidente do Tribunal), UECE (Universidade Estadual do Ceará), Colégio Militar etc.

No início dos anos 1970, ainda havia banca examinadora para a cátedra do “professor Tal” ou para a cadeira de latim, língua portuguesa, dentre outras. Em relação ao aluno, podia ser aprovado ou reprovado. Existia a “segunda época” (prova escrita), realizada quinze dias antes de começar o ano letivo do ano seguinte, de modo a dar chance ao discente de ainda passar de ano. Se não se dedicasse aos estudos, não passaria.

No ginasial, o Carlos estudou canto orfeônico (partituras musicais, um pouco de música clássica, regional e popular). Para se ter ideia, a cátedra era de Elza Barreto, soprano e professora do Conservatório Alberto Nepomuceno. Outra disciplina era desenho (escola greco-romana e sua arquitetura, estilo barroco, gótico etc) e moral e cívica (direitos e deveres do cidadão). Digno de nota citar as visitas estudantis ocorridas à época ao Palácio da Abolição (do governo do estado), à Assembleia Legislativa, onde os alunos tinham um encontro guiado por um deputado estadual ou assistiam a um debate, dentre outros lugares oficiais. As línguas estrangeiras eram o inglês e o francês com bons professores. Na cadeira de português, os alunos faziam fichamento de livros e sínteses.

No antigo científico (hoje ensino médio), os discentes estudavam OSPB (Organização Social Política Brasileira), uma radiografia do Brasil em termos de regiões, cultura e política (sem ser partidária).

A escola pública funcionava, havia respeito entre professores, colegas e alunos. Toda classe tinha um líder e o bedel (fiscal) ficava no corredor para ajudar em alguma necessidade por parte dos alunos. Havia disciplina e hierarquia. Eu mesma fui eleita “na surpresa” líder de turma aos 12 anos de idade. Recordo dos encontros com a diretora “dona Dora” e do sentimento de importância da função.

Para tristeza profunda do Carlos, a derrocada da escola pública começou a partir dos anos 70, com a reforma do ensino como era para o ensino profissionalizante obrigatório, lei n° 5692/71, quando o número de escolas aumentou e começou a faltar professores.

A História comprova o seu pensamento. Segundo o site https://jornalempresasenegocios.com.br, essa lei mudou a organização do ensino no Brasil. Implicava abandonar o ensino verbalístico e academizante para partir para um sistema educativo de 1° e 2° graus voltado às necessidades do desenvolvimento, dito pelo ministro da Educação Jarbas Passarinho à época do governo do presidente Médici. Interessante acrescentar que em outubro de 1982, o presidente João Baptista Figueiredo sancionou a lei n° 7.044, na qual extinguiu o caráter obrigatório da profissionalização. De acordo com a profa. Emérita da UFMG, Magda Soares, foi um sonho que não se realizou. O prof. Demerval Saviani dizia que a suposição da demanda de técnicos que justificaria uma reforma dessa amplitude não tinha base na realidade e não se demonstrou efetivamente. Os próprios empresários tendiam a preferir que a escola garantisse a formação geral, explica o professor. O erro maior foi a concepção da reforma sobre o papel da escola, conforme pensava Saviani.

Registro aqui com emoção o colégio onde estudei dos 6 aos 12 anos de idade em Porto Alegre – RS: Grupo Escolar Rio Branco, localizado à av. Protásio Alves. Lembro com muito carinho do tempo passado lá, minha infância foi inesquecível. Aliás, tenho amigas queridas desde aquele tempo. Saudações às amigas Carla e Denise, especialmente, e Milene, Dotti, Eliana, dentre tantos outros e outras colegas que marcaram a minha vida.

Em conclusão, nós que estudamos na escola pública do passado, somos hoje cidadãos conscientes. Saudades de uma escola que garantia um bom aprendizado ao aluno.

Dedico este artigo à minha mãe Sirley, ex-professora alfabetizadora e diretora de escola pública, a quem me inspirou na arte da educação e cultura.

Vinho de Talha – Alentejo – Portugal

Vinho de Talha – Alentejo – Portugal

Ricardo Dourado Furtado

No Alentejo, para quem vai de Beja para Alvito passa por Vidigueira. No primeiro trecho (Beja – Vidigueira), viaje pela rodovia N18, no segundo (Vidigueira – Beja) escolha a N258, que é uma estrada do interior e terá a oportunidade de passar por diversas vilas tradicionais alentejanas.

Quando passar pela Vila dos Frades, que está a 3 (três) quilômetros do centro de Vidigueira, sugiro que desacelere o carro, estacione e busque um hotel ou pousada para se  hospedar. Terá a oportunidade de ter uma experiência enogastronômica marcante, considerada por mim como inesquecível, para não usar o superlativo – memorável.

Após estar devidamente hospedado na Vila dos Frades, sugiro ir direto para o endereço: rua General Humberto Delgado, 19. Nele está localizado o restaurante/tasca/bar/adega, bem, chame como quiser, mas o nome comercial é Adega Nacional – País das Uvas que eu apelidei de Casa das Almas Felizes, e prepare-se calmamente para um almoço longo e tranquilo.

Encontrará, além do aroma da deliciosa cozinha portuguesa, um local cheio de imensos potes de barro. Fiquei intrigado, pois pensei que seria de azeite, mas logo que me sentei, os sentidos me disseram que estavam era cheio de vinho. Algo novo para mim, um pouco intrigante, um vinho chamado: “Vinho de Talha”. Não preciso dizer que o almoço se alongou por todo a tarde e a quantidade de vinho ingerida me obrigou a dirigir somente no dia seguinte. Por isso, é importante se hospedar no local.

Mas, afinal o que Vinho de Talha? Aliás, primeiro, o que é talha? Talha é uma grande ânfora de barro, cujo nome vem do latim “tinalia”, ou seja, vaso de grandes dimensões, que em geral, deve ter um pequeno orifício na parte inferior para que o vinho seja retirado.

Foto: Talha, Ânfora especial para produção de vinho.

Sua origem remonta à colonização romana ocorrida há 2000 anos que introduziram no Alentejo a vinha e o processo de produção do vinho em grandes ânforas. Portanto, o “Vinho de Talha” é produzido em Portugal desde que o Império Romano ocupou a Península Ibérica, sendo, portanto, um produto ancestral.

Como é um vinho produzido de forma tradicional e artesanal, consequentemente, sua produtividade é baixa, e com o estabelecimento de grandes empresas vinícolas a partir de metade do séc. XX no Alentejo, sua produção foi definhando, ficando quase que restrita à produção caseira ou com pequenos produtores, que ficaram responsáveis pela deposição e manutenção desta tradição enológica.

Não existe uma receita única da produção de Vinho de Talha, é quase que receita familiar, cada casa tem a sua. Mesmo as talhas, dependendo da localidade, têm formas e volumes diferenciados, não existe uma padronização, mas em geral tem um volume de 2000 litros. Isso faz com que cada produtor tenha sua própria receita que é transmitida pela experiência e pelo trabalho árduo nos campos de vinhas, para as gerações seguintes, tecnologia única, que reflete diretamente no seu “terroir” aromas e sabores únicos, aliás bem diferentes dos nossos vinhos industrializados.

Em 1876, o agrônomo Antônio Augusto de Aguiar descreveu a maneira de fazer o “Vinho de Talha”, tradicional vinho português, típico do sul de Portugal, especialmente nas regiões do entorno do Tejo.

O processo, em geral é simples: as uvas são levemente esmagadas, ou por pisamento ou por prensagem, os engaços são retirados e o produto (bagas e suco) é colocado nas talhas. O processo de fermentação se inicia naturalmente com as próprias leveduras presentes nas uvas, leveduras autóctones, nada de leveduras exógenas.

Durante o processo de fermentação, faz-se o mínimo de intervenção, porém com a formação de gás carbônico durante o processo fermentativo, as partes sólidas vão formando uma “nata” que deve ser misturada três vezes ao dia, sempre de forma manual, para que não endureçam, e venham a evitar a liberação do gás carbônico gerado no processo fermentativo, que ao se expandir podem causar a quebra da talha.

Quando as partes sólidas se depositam no fundo da talha, considera-se que o processo fermentativo está encerrado, ou seja, os açúcares presentes nas uvas se transformaram em álcool, então é comum se colocar uma tampa na talha (tecido limpo ou madeira) e uma camada de azeite de oliva para evitar o contato do vinho com o ar, minimizando o processo de oxidação e o conservando por mais tempo de vida.

Mesmo com a finalização da fermentação, o vinho ainda não está pronto para ser consumido, ainda estará turvo e deve ser filtrado pelas próprias partes sólidas que se depositaram no fundo da talha, pela introdução de caules e folhas de capim (tipo papiro) e a colocação de uma torneira no orifício da parte inferior da talha, funcionando como filtro, retirando os sedimentos e clarificando o vinho.

Lembro que é um processo ancestral milenar sem introdução de substâncias químicas. Este é um processo tão natural e único, que deu direito ao “Vinho de Talha do Alentejo” possuir uma Denominação de Origem Específica, famosas DOC.

Em geral, o “Vinho de Talha” é guardado dentro da própria talha, mas pode ser drenado e estocado em outra talha, já filtrado e clarificado, podendo ser engarrafado. E, como é um produto com nenhum aditivo químico deverá ser consumido rapidamente, não há como “envelhecê-lo”. Por isso, não se preocupem com os processos oxidativos, deverá sempre ser consumido jovem, no próprio ano da produção

A produção do “Vinho de Talha” está cercada por tradição, até mesmo a abertura das talhas deve ser realizada em uma data certa: dia 11 de novembro, dia de São Martinho. Questiono, será que São Martinho era um grande apreciador de vinho?

Atualmente, com o aumento do número de turistas em Portugal, com o maior desejo das pessoas consumirem produtos típicos ou artesanais, com o crescimento do consumo de vinhos com ”terroir” diferenciados, a produção de “Vinho de Talha” vem renascendo em todo o Alentejo.

São vinhos deliciosos, minerais e frescos, com presença marcante de fruta. E a harmonização com a rica cozinha alentejana é fácil, dependerá do gosto de cada um.

Bebi tintos, brancos e rosés, com bochechas de porco, bacalhau, alheiras, caldo verde etc, nossa, Viva Portugal!

Não preciso dizer que voltei caminhando devagar para o hotel. Fim.

P.S. O Alentejo é a região centro-sul de Portugal.

Sobre o autor: Ricardo Dourado Furtado é auditor fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura em Porto Alegre no Rio Grande do Sul. Graduou-se como engenheiro agrônomo pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e economista pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza). Fez mestrado em Ecologia pelo Instituto de Biociências da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e doutorado em Recursos Hídricos e Saneamento de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS. Ama vinhos e azeites de oliva. Nasceu em Alegrete – RS e é meu irmão.

Paracuru – Ceará – segunda parte

Paracuru – Ceará- segunda parte

Hoje é sábado, dia 21 de novembro de 2020, e o Carlos e eu continuamos no município de Paracuru. O café da manhã do hotel Vento Brasil é bem farto e seguem os protocolos de tempos de coronavírus. Frutas deliciosas, bolos, tortas salgadas, crepioca (tapioca com ovo), tapioca, cuscuz, iogurtes, sucos, enfim, tudo ótimo.

Sábado de manhã, dia de banho de mar. Aliás, excelente. O mar azul e verde, a praia limpa, há arrecifes, barracas de praia e surfistas, afinal estamos na praia Ronco do Mar. Os pescadores trazem peixes, dentre eles, o camurupim ou pirapema.

O almoço foi no restaurante Fórmula 1 do francês Michel na praia da Munguba. Desde 1989 se come bem com um chef que atende os clientes e cozinha. Pedimos o peixe beijupirá com legumes, uma delícia. Estávamos com o casal Iracema e Marcos (cunhada e irmão do Carlos). Saudações! Estar em um local à beira mar com a enseada embaixo dá gosto. Também nos deleitamos com as mangueiras e bananeiras no litoral. Paracuru surpreende.

À tarde fomos passear, acompanhados do Marcos e da Iracema. As dicas deles foram fundamentais. Descendo a av. João Lopes Meireles, chega-se à praia da Boca do Poço. Na Domingos Paulino, nos encantamos com um food truck, ou seja, um caminhão de churrasco, cujo dono é paraibano. Passamos na praia do kite (surf) na barraca Quebra Mar. Pela praia na maré baixa vamos à Pedra Rachada. Existem currais de peixes na praia, algo comum em Paracuru. Os donos cuidam e tem muito trabalho. A estrada de areia da subida é estreita e depois se encontra a barraca Rasga Rede, o restaurante Pedra Rachada e o do João Sapuril, dito como oferecendo a melhor peixada de arabaiana da cidade. O próprio sr. João tem seu curral de peixes.

Um lugar imperdível em Paracuru são as dunas conhecidas como Lençóis Paracuruenses. No caminho a pé, nos deparamos com árvores das frutas silvestres guajiru e murici que brotam em zonas de praia e morros. As dunas são fabulosas, e olhem que só ficamos no início, são 5 km de dunas, lagos e parque eólico. Quem conhece diz que a beleza é estonteante. Confesso que nem tinha ideia, afinal os famosos são os do Maranhão e os de Parnaíba-Piauí. O pôr do sol magnetiza.

Segundo a geógrafa Iracema, a duna cobriu o vilarejo de Parazinho que foi a primeira cidade de Paracuru. Também acrescentou que Paracuru significa “lagarto do mar”.

À noite fomos ao centrinho a pé do hotel. A praça arborizada e a igreja Matriz me lembraram do Crato no Cariri cearense (sul do estado). Uma lindeza. Sábado à noite é o dia da feirinha de artesanato, logo o movimento é maior. Tão bom estar lá, vendo os habitantes e os turistas… Enquanto isso a missa ocorre na igreja e o fuzuê ao lado.

Após o passeio no centrinho, fomos degustar o caldo de abóbora, e o suco de abacaxi com hortelã no Mosaico Bistrô (rua Profa. Maria Luiza Saboia, 65), da Conceição e de seu marido Otto. Estivemos no dia anterior. Quem gosta, torna. O tratamento é de primeira. A decoração de mesas, cadeiras e quadros feitos de mosaico pela proprietária oferecem um espaço aconchegante e bonito.

No domingo, dia 22 de novembro de 2020, na praia da Munguba tomamos um banho inesquecível em frente ao restaurante Fórmula 1, do tipo piscina com ondas. Maravilhoso. Depois o almoço no próprio hotel Vento Brasil, no restaurante Temperos da Lala: filé de peixe robalo grelhado com arroz de alho e purê de abóbora. Apreciei o cardápio.

Saudações à amiga Joana Anália Albuquerque, e ao casal Iracema e Marcos Alencar. Tanto a Joana como a Iracema são paracuruenses apaixonadas. Os atendentes do hotel Leudo e Hudson foram muito atenciosos, obrigada.

Finalizo este artigo com o refrão do hino do município em http://www.letras.mus.br: Paracuru, oh terra querida/Tuas belezas queremos cantar/Seja Tua praia, abrigo e guarida/Para as gerações que Deus te confiar.

Amei Paracuru. Fiquei maravilhada com tanto a ver e aproveitar. Aconselho.

Paracuru – Ceará – primeira parte

Paracuru – Ceará – primeira parte

Hoje é sexta-feira, dia 20 de novembro de 2020, e o destino deste final de semana é o município de Paracuru. O Carlos e eu saímos de Fortaleza pela av. Leste Oeste rumo à CE-085 ou Sol Poente, caminho Jericoacoara, litoral oeste, às 13h30. Paracuru se situa aproximadamente a 96 km da capital do Ceará. Seguimos a Sol Poente e prestamos atenção à entrada da cidade. Na Polícia Rodoviária Estadual se vira à direita, a via está em restauração, por sinal.  

Chegamos ao hotel Vento Brasil (rua Ormezinda Sampaio, 240) e pediram logo para pagarmos a segunda diária. A primeira foi paga antes. O hotel é bem localizado, perto do centrinho e da praia Ronco do Mar. A diária de R$195,00 para um quarto standard achei cara, uma vez que é um quarto simples, meio escondido e sem poder abrir as janelas, pelo bem da privacidade. A salvação é o ar-condicionado, uma vez que estava bem quente: 31°C. Percebo tudo bem mais caro em termos de hospedagem no litoral. Gostei do hotel de qualquer modo. Na próxima vez, ficaremos em um quarto melhor. A dica foi do irmão e cunhada do Carlos, Marcos e Iracema. Obrigada!

Assim que chegamos, já saímos para passear pelos arredores. Em frente ao estacionamento do hotel existe um sítio/fazenda chamado Teto da Praia, com coqueiros, galinhas, vacas, tudo tão interiorano. O aroma é outro. Há um calçadão com cerâmica imitando o de Copacabana no Rio de Janeiro na praia Ronco do Mar. A praia é uma delícia: barracas na praia, bares no calçadão, jangadas, pescadores, pousadas etc.

Vemos muitos olhos d´água no Ronco do Mar, além de cajueiros, mangueiras, castanholas e redes para deitar. As pessoas vão lá pegar mangas para se refestelar, passamos por um pai e filho estrangeiros demonstrando uma felicidade única ao carregar as frutas. Muito peculiar. Tudo ajeitado, com casas lindas pelo caminho, estamos na av. Beira Mar. A areia da praia oferece abrigo a famílias e casais de namorados.

Ainda existe prospecção de petróleo. Vimos uma draga e o terminal. Na praia à tardinha há moradores jogando bola; uma enseada verdejante que parece a da praia da Taíba, mas em menor escala. No local existe um restaurante chamado Fórmula 1 ao lado da Colônia de Pescadores de Paracuru. O entardecer é gostoso e o mar verde e azul imenso. Ali é a praia da Munguba.

Gostei de ter mirado uma pessoa coletando lixo na praia que, aliás, é relativamente limpa. Detalhe: aonde vou estou sempre fazendo o mesmo. Não consigo imaginar um peixe comendo garrafa de plástico. Tenho alma ecológica.

O Carlos relembrou o famoso carnaval de Paracuru nos anos 1970/80. A cidade lotada de foliões, uma bagunça efusiva, um carnaval com mela-mela à tardinha e à noite a presença no clube no centrinho em frente à Praça da Matriz. Esse clube não existe mais, foi desapropriado para dar lugar a uma praça com descida para a praia. O farol branco e laranja de hoje é só enfeite. No local há um bar/restaurante Hot Grill.

Nossa caminhada está boa para os joelhos, pois como choveu a areia está compacta e plana. Escutamos reggae na barraca de locação de pranchas e aulas de surfe. A praia Ronco do Mar é o lugar dos surfistas.

Paracuru é uma novidade bastante agradável. Sinto-me tocada pelo seu charme.  

À noite “vamos” na velha e boa pizza marguerita com Coca-Cola. Cerca do hotel se encontra a pizzaria Paiol, a mais antiga do município. Depois mais passeio a pé. O centrinho me lembrou do Crato no Cariri, a Igreja Matriz, as praças e ao redor casas antigas, bistrôs, lanchonetes, restaurantes etc. Lá está a pizzaria Moral, o Burguer & Pizza, o Cactus Paracuru e a Casa Curu (restaurante transado).

No centrinho se situa a Praça Francisco Batista Azevedo onde existe a Biblioteca Pública Municipal com o busto do mesmo em homenagem ao seu centenário 1908-2008.  Na frente está a igreja N. Sra. dos Remédios (a Igreja Matriz), com a imagem da Nossa Senhora fora da igreja na Praça da Matriz.

Ali perto na rua Profa. Maria Luiza Saboia se localiza um bistrô especial de tão fofo, com mesas, cadeiras, quadros feitos de mosaicos. A proprietária é também a artista plástica: Conceição. Ela prepara as comidas e quem serve é seu marido Otto (alemão). Eis o Mosaico Bistrô. Seu cardápio vai de caldos a hambúrgueres de soja, beterraba e carne de caju, bem natureba. Gostei.

Continuaremos em breve…