Berlim e Leste Europeu-Berlim espetacular-passeio pelo bairro judeu-dia 5

Hoje é segunda-feira, dia 17 de março de 2025. Às 9 h saída com o guia espanhol Pablo, fala com o grupo na sua língua nativa e em “portunhol”. O folder da excursão da Special Tours nos informa que começaremos a nos aprofundar em Berlim de uma forma muito especial, fazendo uma interessante visita com um guia local à Berlim Judaica. Alexanderplatz, para visitar a área anteriormente chamada de Spandauer Vorstadt e conhecida como distrito de celeiros ou bairro judeu. Visitaremos a Nova Sinagoga, a casa da Regina Jonas, o primeiro cemitério judeu e cruzaremos a Grosse Hamburger Strasse, conhecida como a rua das três religiões. O restante do dia é livre. Encontraremos com o guia novamente só à noite no hotel para o passeio opcional: Berlim à noite. Valor: € 50 (euros). O clima frio: 3 ℃.
O bairro judeu é perto do hotel. Vamos a pé. O guia nos conta a história do povo judeu. Berlim foi destruída pelos bombardeios da II Guerra Mundial em 80%, foram mais de 86 mil toneladas de bombas lançadas pelos americanos e britânicos.
As ruas originais do bairro com seus monumentos. Estamos na antiga Berlim Oriental. Alexanderplatz, praça importante e ponto de encontro; Alexa, grande centro comercial; loja de departamentos Galeria; a Fonte de Amizade dos Povos, conhecida por suas pinturas coloridas e que simboliza a paz, representada por pombas e flores; o Relógio Mundial, o famoso Weltzeituhr, um marco que mostra a hora em várias cidades do mundo. Era o centro da Berlim comunista. Estação de metrô e trem-S-Bahn.
Cidade plana, espalhada, fácil de se orientar. Torre de TV Berliner Fernsehturm. O edifício mais alto da Alemanha, 368 m, de concreto, erguida entre 1965 e 1969, a plataforma de observação a 203 m de altura, tem um mirante com vista de 360 graus da cidade e em um andar acima, um restaurante giratório que dá uma volta completa em cerca de 30 minutos, símbolo do poderio da capital socialista (fonte: https://dicasdeberlim.com.br).
Igreja de Santa Maria. Parte mais antiga, medieval. Berlim foi reconstruída. O estilo era de antigamente era barroco. A cidade começava aqui. A igreja sobreviveu, mas o bairro medieval se foi. Até querem reconstruí-lo, mas é difícil. Os judeus estão presentes desde a fundação da cidade em 1237. Nasceu em São Nicolau (Nikolaiviertel), a igreja, bairro estreito, original, dos mais antigos, situado às margens do rio Spree. O primeiro documento da presença dos judeus é de 1295. Era um condado pobre, fazia parte do império romano, a terra era pantaneira, ruim para plantações. A origem do povo era de eslavos nômades. No séc XVII, o lugar estava vazio, por conta da peste bubônica e da Guerra dos 30 Anos. O príncipe Frederico Guilherme I chega a um país pobre, destruído e abre as fronteiras. Chegam franceses huguenotes, holandeses, poloneses católicos para viver em paz. 50 famílias judias que voltassem com um contrato de vida de 20 anos. No mesmo século, eram 160 mil judeus, se sentiam alemães.
No séc. XVIII, a Prússia, cuja capital era Brandemburgo, pertencia a um reino dos mais importantes da Europa. Vemos da II Guerra Mundial, o Memorial de Wannsee, o guia fala no protesto da rua Rosentraße ou Rosentrasse. A praça (com o memorial significativo) onde houve a manifestação das mulheres que queriam a libertação de seus homens judeus, eram casamentos mistos. Considerado o milagre de Rosentrasse.
Vemos no chão a marca da primeira sinagoga, bombardeada e que comunistas não a reconstruíram. Era da mesma altura dos prédios ao redor. Não tinha símbolo, nada. Eles queriam fazer uma nova Berlim comunista. Os edifícios eram propriedades estatais, as casas eram iguais, os prédios cinzas eram do mesmo tamanho. Restaurar prédios antigos era caro, logo foram abandonados.
Saímos da cidade antiga pela muralha da Porta de Spandau. Era o bairro dos celeiros, havia muito feno, madeira, materiais inflamáveis. Os judeus ficavam fora da cidade à época. Ainda moram no local na atualidade. Nem todos conheciam como bairro judeu. Não eram guetos ou judiarias. Podiam habitar onde quisessem. Primeira sinagoga, primeiro cemitério. A cidade começa a mudar. Edifícios baixos, fachadas originais, ruas estreitas. O bairro tem vida hoje. Os alemães são tranquilos, calmos. O ponto principal é a estação de U-Bahn, do início do séc. XX, da época de Bismarck. O metrô foi inaugurado em 1902. Hoje, ferrovia. Muitas lojas, embaixo, 3 a 4 metros de pântanos.
Entramos em Haus Schwarzenberg: galeria de arte em Berlim, com pátios interiores, um pequeno labirinto. Este pátio está quebrado, não foi restaurado, os outros foram. O site www.guiabrasileiroemberlim.com.br cita ser um pequeno beco, escondido no distrito de Mitte. Ao longo dos anos, tornou-se um ponto de encontro de arte de rua e cultura alternativa. As paredes são decoradas com camadas de grafite, adesivos e murais em constante mudança. O centro Haus Schwarzenberg oferece exposições sobre a vida de Anne Frank e a relevância de seu diário nos dias de hoje.
O guia fala na época comunista e na da II Guerra Mundial, vai de uma para a outra. Na batalha de Berlim, entre 16 de abril e 2 de maio, já no final da guerra, 2 milhões de soldados russos entraram na cidade. Berlim foi aniquilada. Durante a época comunista, não se restaurou nada. Depois da Queda do Muro de Berlim, jovens, artistas e músicos com seus conjuntos musicais vieram para esta região nos anos 1990 e a transformaram em estúdios de arte. Mais tarde, os jovens saíram e as casas foram vendidas.
Continuamos o passeio a pé. E chegamos ao museu Otto Weidt´s Workshop for the Blind ou Oficina de Otto Weidt para os Cegos, pertencente à German Resistance Memorial Center Foundation ou Fundação do Centro Memorial da Resistência Alemã. Localização: Rosenthaler Strasse. Segundo o folder do museu, “durante a II GM, Otto Weidt empregava principalmente judeus cegos, deficientes visuais e auditivos na sua pequena fábrica de escovas e vassouras. Quando a ameaça de perseguição e deportação aumentou ainda mais, ele e outros ajudantes procuraram lugares para esconder alguns deles. Um desses locais é onde está o museu”. O guia nos informa que Otto pagava suborno para seus empregados não serem mandados a campos de extermínio. Eram 34 trabalhadores judeus. Apenas 4 sobreviveram. A menina salva, cria o museu. Vemos como era originalmente, a sala com um quarto secreto para 4 membros de uma família. A visita é gratuita. Vale a pena, pois é sempre uma aula de história e nos toca profundamente.
Era 1,9 milhões de habitantes antes da I Guerra Mundial, atualmente são 3,7 milhões. Sophiensœle, Sindicato dos Trabalhadores, séc. XX, partido comunista. Na I Guerra Mundial em 1918, Revolução Espartaquista, em novembro de 1918, liderada por Rosa Luxemburgo (1871-1919), símbolo do feminismo mundial, judia polonesa/alemã. 1º andar, sala de reuniões do sindicato. De acordo com a Wikipédia, essa revolução ou Revolução Alemã, de 1918-1919, chamada na Alemanha de Revolução de Novembro refere-se a uma série de eventos que marcaram o fim da Primeira Guerra Mundial e que culminaram na derrubada do Kaiser (imperador), seguida do estabelecimento de uma república parlamentarista.
Sachsenhausen, campo de concentração a 45 minutos do centro de Berlim de trem. Hoje memorial e museu. Inúmeros campos e subcampos de concentração em Berlim, no norte da Alemanha e nas terras ocupadas pelos nazistas para eslavos, judeus, comunistas, ciganos, homossexuais, Testemhunhas de Jeová. O guia corre muito, é um esforço colossal acompanhar e entender tudo. Eram 10 os campos de extermínio.
No bairro também moravam católicos e luteranos, além de judeus. Viviam juntos e na paz. Cidadãos que trabalham e pagam impostos são iguais. Era o pensamento anterior à época de Hitler. Em 1933 eram 135 mil judeus. Em 1945 apenas 6.140 sobreviveram. Tinham todos os direitos de serem alemães. Com Hitler, veio o germanismo. A Áustria/Hungria formavam um grande império: Croácia, Romênia, Sérvia, Eslováquia etc O império austrohúngaro desapareceu, aí toda a população pobre chegou a Viena depois da I Guerra Mundial com judeus e muçulmanos. Austríacos tinham que dividir comida e tudo o mais. Aí ficaram incomodados.
Na República de Weimar ou Reich Alemão (1918-1933), havia o problema econômico. O partido nazista era conhecido por ser de hooligans (vândalos). A ideia do Hitler era limpar a Alemanha de judeus. Todo dinheiro deles e tudo o mais ficaria com a Alemanha quando eles fossem embora com apenas uma mala. 2.700.000 foram assassinados em campos de extermínio. Os edifícios originais da época da guerra têm buracos de balas da batalha de Berlim. Eram crianças e civis defendendo a cidade. Enquanto Hitler e seu estafe se protegiam dentro de um bunker (Führerbunker) embaixo dos prédios e jardins que faziam parte da Chancelaria do Reich.

Na Grosse Hamburger Strasse (rua) vemos pedras de tropeço para lembrar dos mortos judeus e dos inimigos de Hitler. Vêem-se em toda a Berlim e na Europa também. São afixadas na calçada por descendentes e associações, a crianças estudam o nazismo e a história das famílias e colocam a pedra. As pedras são eternas. Na rua encontra-se o Cemitério Judaico de Berlim. A Wikipédia destaca que depois do Judenkiewer Spandau é o mais antigo local de sepultamentos da comunidade judaica. Na área da atual entrada estava desde 1844 o asilo da comunidade. Vê-se a pedra memorial no local do antigo asilo. Lá está a sepultura de Moses Mendelssohn, filósofo iluminista judeu alemão. Também nos deparamos com a escultura marcante das crianças judias, de 1956/1985: Judeus Vítimas do Fascismo ou Jüdische Opfer des Faschismus. De Will Lammert (1892-1957). Considerado o primeiro memorial ao holocausto das crianças. Desenhado para ser colocado no campo de concentração de Ravensbrück para mulheres e crianças, no norte da Alemanha.
Vimos a igreja de Santa Sofia, evangélica, no bairro de Mitte. O guia enfatiza que levavam os judeus e outros às estações de trem para a deportação. O Museu Judaico se situa no bairro turco. Dizem ser imperdível.
Entramos na exposição fotográfica gratuita do pequeno museu da Nova Sinagoga que sobreviveu à Noite dos Cristais, mas não aos bombardeios à época da II Guerra Mundial, somente restou a fachada. Na rua Oranienburger Strasse. Os ataques legalizados aos judeus começaram desde que Hitler se tornou chanceler em 21 de abril de 1933. Logo em abril houve boicote ao comércio, seguido da lei da administração pública na qual todos os judeus que eram funcionários do Estado perderam seus trabalhos. As crianças não puderam mais ir à escola, museus etc. Perderam o direito de passear por passeios públicos, ruas principais, a comprar no mercado entre algumas horas e por aí foi. Em 1938 começaram a ser deportados para os campos de concentração.
A Noite dos Cristais, em 9 e 10 de novembro de 1938, deixou 7 mil comércios destruídos, 200 sinagogas queimadas, 30 mil detidos para prisões e campos. A resposta de Hitler foi não fazer nada, não tomaria atitude nenhuma para proteger o povo judeu alemão da SS (organização paramilitar ligada ao partido nazista), SA (tropas de assalto) e Juventude Hitlerista.
Em 1º de janeiro de 1939, o judeu deixou de ser cidadão alemão e começou a usar na roupa um J e as mulheres um S (de Sara). 6 milhões de mortos judeus, além de fotos dos sequestrados pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023.
O passeio da manhã finalizado, então eu e o Carlos nos separamos do grupo que iria retornar ao hotel a pé. Resolvemos retornar e visitar a exposição paga da Nova Sinagoga. €7 (euros). Está escrito na mesa do centro em várias línguas: “Abri as portas, para que entre nelas a nação justa que observa a verdade” (Isaías 26:2). Não pode tirar fotos. A Berlim que foi Oriental no pós-guerra teve prédios reconstruídos de pré-moldados, ao contrário da Ocidental, cujas edificações foram reconstruídas de maneira normal.
A Wikipédia nos conta que a sinagoga foi construída entre 1859 e 1866 como a principal da cidade. Tinha estilo neomourisco com influência de Alhambra (Andaluzia-Espanha), sendo um significativo monumento da arquitetura da segunda metade do séc. XIX. A inauguração ocorreu em 1866 com a presença do chanceler Conde Otto von Bismarck. O prédio atual é uma reconstrução do original, severamente danificado durante a II GM e demolido.
No museu fica-se sabendo que foi restaurada em 1991, mas bombardeada na guerra em 1943. Vemos a escultura de Theo Balden (1904-1995), “Cabeça de um Judeu Espancado” ou Head of a Beaten Jew. A obra reflete a sua experiência na prisão da Gestapo entre 1933 e 1934. Retornou à Alemanha Oriental em 1947. 90 mil judeus escaparam em 1933. 75 mil ficaram por falta de contatos ou fundos, não podiam ter telefones, só podiam fazer compras entre 16 h e 17 h. Tinham que entregar joias, rádios, máquinas de escrever. A partir de 1º de setembro de 1941 foram obrigados a usar a estrela de Davi (amarela) na roupa, foram mandados para guetos ou campos. 7247 sobreviveram, porque eram casados com alemães ou se esconderam. O centro judaico começou a funcionar no local a partir de 1988.
O policial Wilhelm Krützfeld salvou a sinagoga, quando chamou os bombeiros para extinguir o fogo na Noite dos Cristais. Grosse Hamburger Strasse, a rua das três religiões. Regina Jonas (1902-1944), a primeira mulher rabino na Alemanha. Morreu em Auschwitz, lutou por reconhecimento e dava aconselhamento no campo de extermínio. Em outubro de 1942 esta sala O Salão dos Representantes (The Representatives´Hall) foi lugar da infame Operação Comunitária (Community Operation): os empregados da comunidade foram classificados como “dispensáveis” pela Gestapo (polícia secreta do Estado), perderam o emprego e foram deportados para campos com suas famílias.
Em 1905, ao lado da sinagoga, havia o Arquivo Central dos Judeus Alemães. Em 1926 o material foi incorporado a 344 comunidades judaicas. Em 1939 o Escritório de Genealogia do Reich usou esses recordes para verificar a herança ariana. Aqui existia o Museu Judaico de Berlim em 1933, ao lado da sinagoga. O Pogrom (perseguição deliberada a um grupo étnico/Noite dos Cristais) de 1938 trouxe um fim ao museu.
Saímos do museu impactados. Ao lado, existe o Centro Judaico. E rumamos ao almoço no dean&david na Monbijouplatz, 5. Uma tigela de frango, com quinoa, arroz, alface, tomate-cereja, sementes verdes e feijão. Delícia de uma garrafa de uma fruta silvestre (berry) azeda. Mais um expresso estilo italiano. Ufa!
Continuaremos com a Berliner Dom (Catedral) e o passeio à noite pela cidade. Berlim fenomenal.
