Entre a Sombra e os Sóis, livro lançado por Carlos Reiss em 2023-diretor do Museu do Holocausto de Curitiba-Paraná em Fortaleza-Ceará-Brasil

Entre as Sombras e os Sóis, livro lançado por Carlos Reiss em 2023-diretor do Museu do Holocausto de Curitiba-Paraná em Fortaleza-Ceará-Brasil

Em 16 de outubro de 2023, estava eu com alguns participantes do grupo @peloscaminhosdaiiguerramundial no jornal O Povo (Fundação Demócrito Rocha) para um colóquio com o autor Carlos Reiss sobre seu livro Entre as Sombras e os Sóis, a história de Sala Borowiak, sua avó paterna. Editora: Folhas de Relva. Ele nos contou sobre a vida dela e de seu avô como sobreviventes do Holocausto. Estava presente George Legmann, sobrevivente, nascido em um campo de concentração. Ele está na mídia nacional, dá entrevistas e sai em reportagens sobre o Holocausto.

Carlos Reiss

Seus avós poloneses foram sobreviventes do gueto de Varsóvia, onde o avô trabalhava como trabalhador escravo/serralheiro. Perderam toda a família no Holocausto e conseguiram sobreviver e reconstruir suas vidas no Brasil.

Ao escrever o livro Entre Sombras e Sóis, passou por um processo de escritura longo, com lacunas que tiveram que ser preenchidas.

Dirige o primeiro Museu do Holocausto no Brasil, em Curitiba-Paraná. Localização: rua Cel. Agostinho Macedo, 248, fone: (41) 30937461, com visitas gratuitas, sob prévio agendamento em https://agenda.museudoholocausto.org.br.

Menciona o sr. George Legmann, conhecido como o “bebê de Dachau”, um dos 7 bebês nascidos em um campo de concentração. Durante 20 anos, o autor descobriu muitas informações. Em 1994, a avó Sala/Sara faleceu ainda jovem. Quem começou a escrever o livro foi o tio, porém em 1996 morreu. Em 2002, Carlos Reiis usou tudo já escrito como prefácio.

As sombras da avó Sara foram pesadelos e tratamentos de saúde. Teve três filhos, seus sóis, deles tirava seu alimento. A vida dela se equilibrava entre sombras e sóis, tinha 14 anos quando da invasão da Polônia pela Alemanha em 1939. Casou antes de emigrar para o Brasil.

O Brasil sempre foi um grande exemplo de acolhimento para apátridas, refugiados e imigrantes. A partir do Holocausto se criou nominações como a “lei do genocídio” e leis para entrar no país. “A memória é construída”. “Nós olhamos para Auschwitz e o ressignificamos”, depende do olhar. A questão é falar sobre o passado a partir de um trauma como o Holocausto. Cerimônias e orações para homenagear os falecidos são importantes, mas há de educar a partir daí.

Carlos Reiss diz correr contra o tempo para resgatar estas histórias. Lembrar, não esquecer, fortalecer valores e princípios: tolerância, resistência, valor à vida, resiliência. No Museu do Holocausto, há a história com nome e sobrenome de cada pessoa. Em vez de uma pilha de sapatos, o autor prefere um par de sapatos com a história da pessoa. Ele conta a história da sua avó Sara com o seu sapato. Ela costurava e guardava chocolates dos netos em caixa de costura. Doces lembranças.

As vítimas do nazismo foram além de judeus, também homossexuais, doentes mentais, negros alemães, ciganos, comunistas, Testemunhas de Jeová etc.

Empatia não é se colocar no lugar do outro, mas provocar a “empatia”. Se o visitante do Museu do Holocausto sai de lá questionando, refletindo, então a missão do museu como “educador” funcionou. No local, existe um pedaço de uma Torá (livro sagrado do judaísmo) que foi salva por um alemão na guerra (a sinagoga fora incendiada). Ele doou a Israel, que depois foi presenteada ao museu de Curitiba. Neste pedaço da Torá, a Moshe (Moisés) Deus pede o nome das pessoas que o seguiam, isso foi feito com as vítimas do Holocausto para contar a história deles.

Sua outra avó Sofia foi liberada em Dachau, em 29 de abril de 1945. Ela tinha 28 quilos, não tinha força para pegar o pão que os soldados jogavam. Quem pegou, morreu.

George Legmann

Sobrevivente do Holocausto, judeu de família romena, mas que vivia na Hungria, pois a fronteira havia mudado no começo de 1944, quando a sua mãe havia engravidado. Moravam na Transilvânia, historicamente disputada por Romênia e Hungria.

Bebê de Dachau, foi registrado no campo de concentração I Landsberg Kaufering (parte do complexo de Dachau-um campo bem menor). Em outubro de 1944, havia sete mulheres grávidas e estavam desmontando os fornos migratórios. Quem fez seu parto foi o médico judeu dr. Kovacs. Em 27 de janeiro de 1945 foi libertado Auschwitz (Polônia) pelos russos, e Dachau (Alemanha) em 28 de abril de 1945 pelos americanos. Mas antes houve a Marcha da Morte com milhares de prisioneiros de Dachau obrigados a caminhar sob condições implacáveis até Tegernsee, Alemanha.

Na Romênia, os judeus não foram deportados, mas os da Hungria, sim. Dachau foi o primeiro campo a ser construído, em 1933, e iniciou com presos políticos. Hitler esteve preso em Landsberg em 1924. Foram no mínimo 28 mil mortos em Dachau. A mídia dos EUA foi chamada para mostrar o horror lá dentro. 2 mil padres católicos morreram no local. Havia o Pavilhão dos Padres. A casa do prefeito ficava a 500 m do campo. A população foi convocada para enterrar os mortos a fim de “educá-los”, pois diziam não saber de nada. Se não fossem, haveria um Tribunal Militar para o prefeito. O tifo matou muita gente. Eram diversos campos de Dachau.

O aspecto pedagógico, lúdico é mais fácil para o entendimento das novas gerações. A democracia é como uma flor, se não rega, murcha. Há histórias ainda a ser escritas. Às novas gerações devem ser contadas o valor do ser humano. Tem que construir pontes entre as pessoas, atualmente, não se faz isso.

Sérgio Napshan

Diretor da Confederação Israelita do Brasil (CONIB). Muito importante a fala institucional, a comunidade judaica deve criar pontes com a sociedade a fim de divulgar a História. Seu avô materno veio da Ucrânia, era amargurado, triste, calado. Irmão mais velho da família, saiu um pouco antes do Holocausto e emigrou para o Brasil. Perdeu toda a família lá. Em 1984, aos 20 anos, Sérgio começou a se interessar sobre a história familiar. Ao contrário de seu avô, sua avó era falante.

Em 1986, o avô faleceu. Infelizmente, só ele sabia da sua linhagem. A partir daí, o diretor da CONIB se interessou por divulgar o judaísmo. Descobriu em terapia que a sua dedicação à causa é para honrar a sua linhagem falecida: da família Acker. Descobriu isso recentemente e sabe ser sua missão em vida.

Marcus Strozberg

Diretor da Sociedade Israelita do Ceará. Trouxe a exposição “Do Holocausto à Libertação” para o Memorial do Ministério Público do Ceará em Fortaleza, de setembro a outubro de 2023. Celebrando os 12 anos do Museu do Holocausto de Curitiba, do departamento de Educação, trabalho com as novas gerações.

Sua pergunta principal é: O que acertamos e erramos na área educacional?

Conclusão

Carlos Reiss menciona o número de células neonazistas crescentes no Brasil e a materialização do antissemitismo e racismo. Continua buscando respostas para as suas perguntas. Na sua opinião, pode ter faltado um enfoque mais firme e forte de letramento antissemita. É preciso educar a sociedade em um caminho antinazista e antifascista. O museu precisa dialogar com a sociedade, não pode ser bolha de conteúdo e é necessário cultivar valores democráticos.

Adendos:

1. O filme Cântico dos Nomes (Netflix) mostra uma cena com os judeus em uma sinagoga cantando os nomes de vítimas do Holocausto. Filme de 2019, direção de François Girard, atores: Clive Owen e Tim Roth, baseado no livro de Norman Lebrecht.

2. Na série Irmãos de Guerra (Band of Brothers, de 2001-Netflix) mostra uma cena na qual os moradores da cidade são obrigados a enterrar os mortos no campo de concentração. A dramatização e a liberação do campo são vistas. Baseada no livro do historiador Stephen E. Ambrose, tem como atores: Damian Lewis, Ron Livingston, David Schwimmer etc. E criadores: Tom Hanks, Stephen Spielberg e Stephen Ambrose. A Wikipédia adiciona:

“O campo de refugiados foi criado dentro de um campo de concentração militar existente em Landsberg durante a guerra, que em outubro de 1944 comportava mais de 5000 internos, a maioria deles vindos da União Soviética e dos Estados Bálticos.

O campo foi libertado em 28 de abril de 1945 por tropas do Exército dos EUA e por ordem do comandante, general Taylor, as tropas ocupantes permitiram que a imprensa mundial tivesse acesso ao local e mostrasse ao mundo as atrocidades ali cometidas aos prisioneiros; o comandante também obrigou os alemães da cidade, civis e militares, a refletir sobre os crimes cometidos e enterrarem os corpos encontrados com as próprias mãos nuas. Num episódio bastante divulgado na época, duas jovens alemãs que se retiraram do local rindo foram obrigadas a passar a noite no campo com os mortos e a assistir a seu enterro nos dias seguintes”.

3. Muitos pereceram de tifo em campos de concentração, inclusive Anne Frank e sua irmã Margot. Falecidas em fevereiro ou março, um pouco antes da libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen (Alemanha), em 15 de abril de 1945, pelos britânicos.

4. O site da Enciclopédia do Holocausto acrescenta que apenas 3 dias antes da libertação do campo de Dachau, as SS levaram cerca de 7 mil prisioneiros em uma marcha da morte em direção ao sul, para Tegernsee, na Alemanha. Durou 6 dias o caminho. Quem não mantinha o ritmo, era executado ou morria de fome ou exaustão. No início de maio de 1945, tropas norte-americanas libertaram os sobreviventes dessa marcha da morte.

Cases da FEB (Força Expedicionária Brasileira) promovido pelo Instituto Montese em Fortaleza-Ceará-Brasil

Cases da FEB (Força Expedicionária Brasileira) promovido pelo Instituto Montese em Fortaleza-Ceará-Brasil

Evento ocorrido no Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico) em 3 de janeiro de 2024 com a participação de filhos/filhas e parentes de pracinhas, militares, estudiosos e interessados.

Primeiro painel com Júlia Carvalho, Deodato Ramalho e Eleazar de Castro

Júlia Carvalho: filha do cel. Evaristo Fernandes de Oliveira, nascido em Timon-Maranhão. Hoje falecido, completou 73 anos de casado, aos 18 anos partiu para a Itália trabalhando no serviço médico. Era médico veterinário. Foi membro da Associação dos Ex-Combatentes Febianos. Foi docente da Escola de Agronomia da UFC (Universidade Federal do Ceará). Foi sua obra a primeira escola de alfabetização de adultos, era profundamente preocupado com a inclusão social. Deixou como legado a defesa da pátria e da família. Preferia ouvir a falar.

Deodato Ramalho: o sogro “pracinha” Manoel Clodomir de Almeida nasceu em Jaguaretama-CE e faleceu em 1972. Partiu do Rio de Janeiro para a Itália sem nem conhecer a capital cearense Fortaleza. Deodato diz que o povo não tem memória, não é passado na escola a história heroica da FEB. Se os “pracinhas” foram esquecidos, os “soldados da borracha” mais ainda. Vale assistir ao filme “Soldados da Borracha” do cineasta cearense Wolney Oliveira. Foi secretário da Regional 4 da prefeitura de Fortaleza, atualmente é superintendente do Ibama. Comenta sobre o Dr. Ximenes, grande memória, que quando ia para a guerra, ela acabou. Foi o timoneiro da história da FEB em Fortaleza. Em 25 de abril há sempre uma grande festa na Itália, em 2025 serão os 80 anos da Vitória, do fim da guerra. Há desfiles todos os anos em Montese com as crianças cantando o hino da FEB em português. Deodato reforça sua tristeza ao constatar a falta de memória do brasileiro e louva o trabalho incansável de Kátia Sousa e Adriano Andrade, do Instituto Montese, em Fortaleza e de Mário Pereira que foi responsável pelo memorial brasileiro em Pistoia-Itália. O maior fruto da FEB foi ter-nos salvo do nazismo e ter sido tão empático com os italianos.

Eleazar de Castro: autor do livro Pelos Caminhos da II Guerra Mundial (vol. 1-editora Chiado Books) em parceria com sua esposa Goretti Gurgel, ambos responsáveis pelo grupo de estudos @peloscaminhosdaiiguerramundial no Instagram. Estão no Whatsapp, You Tube, fazem palestras, encontros em cafés e participam de viagens temáticas. Eleazar se surpreende com o exército de pessoas nas sombras que estudam a História do Brasil e sua participação na II Guerra Mundial. A cidadania brasileira pode ser resgatada, a Itália é um país-irmão. Contou um fato ocorrido com ele e sua esposa Goretti Gurgel em Montese, quando estavam em uma lanchonete e uma garçonete disse a eles que os brasileiros eram seus libertadores, o casal ficou bastante emocionado. Eleazar fala sobre o sentimento de inferioridade nosso, o complexo de “vira-lata”. Esse sentimento não condiz com a nossa História.

Segundo painel com Carolina Oliveira, ten.-c.el. Macedo e cel. Sales

Carolina Bertrand Rodrigues Oliveira: filha do “pracinha” Geraldo Rodrigues de Oliveira, vivo e lúcido, jogador de dama e dominó. Seu pai que foi soldado da borracha despejou perfume nele antes de partir para a guerra e disse para o filho ir e voltar com o V de vitória. Tem muitas memórias da guerra. Carolina menciona a dra. Elza, de Alagoas, que foi enfermeira na II GM. Legado: a capacidade de adaptação dos brasileiros ao frio e a condições difíceis na Itália.

Ten.-c.el. Macedo: a Kátia Sousa do Instituto Montese o contatou por conta de uma exposição de selos da II GM no Hospital Militar de Fortaleza. É militar do Exército da área de saúde, filho de militar e estudou no Colégio Militar de Fortaleza. É pesquisador da área e se interessou pelo assunto quando pouco se falava na participação dos brasileiros. Somos a única nação sul-americana a enviar uma divisão inteira e a capturar uma divisão inteira de alemães. Fazíamos parte do V Exército americano. Está na hora de resgatarmos a nossa história, uma vez que nossos “pracinhas” participaram de uma das batalhas mais sangrentas contra os alemães, que foi a batalha de Montese. A empatia brasileira sempre chamou a atenção, pois dividiam a sua comida, o seu mingau, com a população que estava passando fome.

Cel. Sales: é o contato da FEB em Fortaleza, responsável pelo Museu da FEB no 10° GAC (Grupo de Artilharia de Campanha). Precisa de ajuda para fazê-lo funcionar. Não recebe visitas regularmente, porque falta estrutura física. Ainda existem quatro Febianos vivos no estado do Ceará. Eleazar de Carvalho propõe um evento aqui em Fortaleza para os 80 anos do fim da II GM na Itália em 2025.

Palestra de Mário Pereira

Pede uma salva de palmas para o Instituto Montese. Filho de Miguel Pereira, “pracinha”, que foi lutar na Itália, casou com uma italiana e lá se instalou. Temos que lutar para que a história da FEB e de todos os outros que lutaram, e dos Soldados da Borracha não seja esquecida.

Mora na Itália e reforça que o Brasil o chama. O seu pai lhe dizia ser o Brasil enorme, mas o menino Mário não acreditava. A FEB criou amores como o dos pais e agora com a namorada também. Tem viajado de carro pelo país: São Bernardo do Campo (SP), Brasília e Santa Maria (RS), e em outros lugares de avião, como Fortaleza (CE).

A grandeza do Brasil tem que se repetir no país, o que os brasileiros fizeram de bem para os italianos é de grandeza. Por exemplo: os americanos davam comida, mas os brasileiros dividiam. Já os ingleses não foram bem-vistos pelos italianos. (E não havia divisão por cores de pele na FEB, todos lutavam juntos. No exército americano havia batalhões só de negros, mas com comandantes brancos). Devemos ter muito orgulho dos nossos pais, pracinhas. Tantas populações e tantas etnias estavam na guerra, os alemães queriam lutar até o último homem. O cel. Nélson de Melo foi o comandante do 6° RI (Regimento de Infantaria). (Sua unidade teve papel destacado na Batalha de Fornovo di Faro). O comandante da Força Expedicionária Brasileira foi o gal. Mascarenhas de Morais. O fator climático era um problema. (Um frio congelante o qual o brasileiro não estava habituado, quem cedeu roupas adequadas aos brasileiros foi os americanos, pois os “pracinhas” não viajaram bem abastecidos de roupas apropriadas pelo governo Vargas).

Foi curador do Monumento Votivo MilitarBrasileiro (MVMB, na Via delle Sei Arcole)) em Pistoia, na Toscana italiana, substituindo o pai. Recebeu muitos veteranos, os conheceu e sentiu a emoção deles em viver aquele momento. Os brasileiros vão lá “aos pingos” e são em maior quantidade que os americanos, que vão em grupos de 300 pessoas. São em geral descendentes dos que lutaram na Itália.

Nos Apeninos (cordilheira), há 2 monumentos americanos, 56 brasileiros. Por que a escola não mostra isso? Em 2012 apresentou um documentário sobre a FEB: O Caminho dos Heróis-A Verdadeira História da FEB, de João Barone, no Colégio Militar de Brasília. Os alunos não conheciam nossa história. O que se estuda nas escolas do Brasil? Continua apresentando o documentário nas escolas com a linguagem dos jovens. O que os pais/pracinhas fizeram deve ser perpetuado.

Algo incrível: três pracinhas foram enterrados por alemães, isso não era comum. A percepção é que eles devem ter lutado bravamente para terem conseguido o respeito deles. Isso diz muito da sua coragem. O esforço e reconhecimento da nova geração de brasileiros para com quem lutou na Itália e venceu militarmente é fundamental para que não sejam esquecidos.

Outras participações importantes: da comitiva do bairro Monte Castelo e de Mário Sérgio do Vale-líder dos veteranos da FAB (Força Aérea Brasileira).

Informações:

(…) O uso de parêntesis explica o significado das siglas ou acrescenta dados relevantes.

1. O Instituto do Ceará é a instituição cultural mais antiga do estado do Ceará, criado em 4 de março de 1887. Localização: rua Barão do Rio Branco, 1599, Fortaleza-CE.

2. O Instituto Montese é uma instituição de cunho histórico, cultural e empreendedorismo no bairro Montese em Fortaleza-CE. Localização: av. Gomes de Matos, 1615. @institutomonteseoficial

3. Em Pistoia-Itália todos os anos no mês de novembro ocorre uma cerimônia cívico-militar em homenagem aos heróis da FEB que lutaram durante a II GM.

4. A Cordilheira dos Apeninos é a coluna dorsal da Itália. Na Campanha da Itália, os alemães usaram os Apeninos como uma barreira defensiva natural contra o avanço dos aliados na Itália continental (fonte: Wikipédia).

5.1. A FEB contou com um efetivo superior de mais de 25 mil militares, divididos em cinco escalões marítimos. As missões iniciais de combate em solo italiano foram efetivadas pelo 1° escalão da FEB, cujo contingente tinha por base o 6° Regimento de Infantaria (RI). As primeiras tropas haviam desembarcado em julho de 1944.

5.2. A 10ª Divisão de Montanhas dos EUA lutou ao lado dos brasileiros sob a égide do IV Corpo de Exército do V Exército de Campanha dos EUA entre os meses de janeiro e abril de 1945, tendo contribuído com as ações vitoriosas da FEB em Monte Castello, La Serra, Castelnuovo e Montese, por exemplo.

5.3. A generosidade e solidariedade dos militares brasileiros foram reconhecidas pela população. Um dos ajudados foi o sr. Paoli, quando tinha 13 anos. Em 1968, ele, habitante de Camaiore, prestou uma homenagem significativa com a construção de uma Cruz metálica de 12 m de altura, fixada sobre o cume do Monte Prano, a 1230 m de altitude. Fonte: www.defesanet.com.br

5.4. A Força Aérea Brasileira (FAB) também deve ser lembrada. Foi responsável por 15% dos veículos inimigos destruídos, 28% das pontes atingidas, além de 36% dos depósitos de combustível e 85% dos depósitos de munição danificados. Fonte: https://www.forte.jor.br

6. Os três pracinhas heróicos que lutaram contra uma companhia alemã foram: Arlindo Lúcio da Silva, 25 anos de idade, de São João del Rei-Minas Gerais, Geraldo Baêta da Cruz, 28 anos, de João Ribeiro-MG e Geraldo Rodrigues de Souza, 26 anos, de Rio Preto-MG. Serviram no 11° Regimento de Infantaria Expedicionário. Mesmo com ordens para se render, continuaram em combate até o último cartucho. Fonte: https://fatosmilitares.com

7. Os prisioneiros alemães preferiam se entregar aos militares brasileiros, já que lhe davam um tratamento mais humano.

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 6-Valle de la Luna

Viagem a São Pedro do Atacama- Chile-2023-Dia 6-Valle de la Luna

Hoje é terça-feira, dia 10 de outubro de 2023. O Carlos e eu começamos o dia passeando pelo centrinho de São Pedro e na Feira Artesanal para compras. O artesanato andino é colorido, vibrante, encantador. Na agência Sol Andino, na rua Caracoles, compramos o passeio ao Vale da Lua (30 mil pesos chilenos-R$161,40 e entrada ao parque 10.800 pesos-R$58,10) com o Ronaldo. Combinação: a van nos busca às 15h30 no hostal Terracota e nos deixa em São Pedro às 20 h. A comunicação é por Whatsapp. Devemos levar água e roupa mais leve. Detalhe: em lojas e agências não disponibilizam a senha do wifi.

Almoço no restaurante Adobe, o do primeiro dia. Queríamos nos dar um presente de fim de viagem. O restaurante da praça era convidativo, mas estava fechado. Que pena! Lindo. Vamos ao cardápio: tomamos água tônica Canada Dry e pedimos os pratos do dia. O Carlos pediu salmão na manteiga com extrato de chañar, e eu crocante de merluza com quinoa temperado. Alta gastronomia, comida espetacular ao som de música andina. Amamos.

A melhor época para conhecer a região é em outubro e novembro, menos quente e menos frio. Em julho é congelante e em dezembro, janeiro e fevereiro chove na Cordilheira dos Andes.

Algumas minúcias sobre São Pedro: a maioria das pessoas usam bonés e chapéus. O sol é inclemente e perigoso, há o solmáforo (termômetro de sol) na praça da prefeitura. Há um posto de gasolina na saída da cidade rumo à Argentina e Bolívia. A gasolina é mais cara que no Brasil, porque se paga imposto específico para as estradas. Da cidade, saem ônibus para a minha linda Salta na Argentina. Cidade inesquecível. Um caminhão joga água nas ruas, por causa da secura e do pó. Turistas estão presentes o ano todo, um pouco menos em maio.

Às 15h50 lá estava o motorista Ivan para nos levar ao parque Vale da Lua, a 2.250 m. O guia Théo. Vamos visitar a Cordilheira do Sal, a Duna Maior, as Minas de Sal, o Mirador de Cari (a pedra do Coyote). Segundo o Guia de São Pedro do Serviço Nacional de Turismo do Chile, o Vale da Lua é uma paisagem de desolação, o vento tem esculpido montes e vales de barro, sal e gesso. Parece outro planeta, daí o nome. Está localizado a sudeste de Calama, a poucos quilômetros antes de chegar a São Pedro. Declarado santuário da natureza em 1982.

Os parques da região são administrados por povos indígenas (Lican Anthay, atacamenhos), então os guardas parques também são. Uns 10 minutos depois, chegamos à base do parque, ficamos na van e o guia sai para fazer os pagamentos.

Estamos a pé na Cordilheira do Sal. São dunas e montanhas de sal, com diferentes tipos de formações e mais dunas ao lado. Que interessante! O grupo se mantém junto, nada de fumar, beber e comer no local. São vários grupos, muitos visitantes. Devemos seguir o guia e não ultrapassar a linha marcada. Na Duna Maior, fizemos uma caminhada de uma hora com uma subida íngreme. Haja sol! No topo, um anfiteatro natural estilo Coliseu, e vimos uma muralha de milhões de anos e linhas horizontais, da mesma forma a linha de água de um passado remoto. Era um rio, hoje não tem vida. Os cristais nas rochas eram o sal da Antiguidade. Incrível! Os indígenas trocavam sal por outros produtos, caçavam e conservavam a carne. Os incas, que estavam espalhados pelo Equador e Amazonas (e outras regiões), vinham atrás do sal. O monopólio do sal era dos indígenas da terra, pagavam aos incas o imposto com sal. Interessante dizer que o gesso/fóssil encontrado na montanha é evidência de água.

Está muito quente, socorro! 90% de sal nas montanhas. Acreditar que um rio passava por aqui é surreal. De acordo com nosso guia, a Terra teve uma mudança climática há 7 mil anos A.C., de 5 mil a 3 mil anos atrás havia água no deserto, depois evaporou. O último glaciar foi de 12 mil atrás, era congelante. Só vimos uma plantinha na duna. Uma sobrevivente.

Em outra montanha, testemunhamos a presença do brilhante silício, usado como semicondutor, matéria-prima de microchips de computadores. Não se extrai, pois desde os anos 90 não é mais necessário. O quartzo e silício são minerais usados na indústria tecnológica.

O Vale de Marte (ou da Morte, como também é conhecido) é composto de formações geológicas, e considerado o planeta Marte para os cientistas, com o mesmo tipo de terra. Nos anos 1970, 80 e 90, a NASA esteve no local para criação de robôs, o Perseverance e outros foram testados no vale. Muito parecido mesmo, vemos de longe.

Descemos a duna de cor escura por conta dos sedimentos. O visual é uma pintura, arrebatador. As formações rochosas formam um lugar único no mundo.

De volta à van, vemos o Vale da Lua com sua parte branca da montanha, do lado direito, areia. Muito silício do lado esquerdo. Embaixo a pé de novo, paramos dentro de uma delimitação, aqui há vento e outro guarda parque se faz presente. O guia nos instrui que o sol tira a água da superfície, mas que debaixo da terra há vida. A parte branca, consequência de 5 a 8 mm de chuva (se chover), é a casa dos micro-organismos que criam oxigênio, eis a floresta com nome de Evaporitas.

No setor Evaporitas, há sol em todos os lugares, no chão, nas montanhas e nas casas onde os indígenas extraem o sal. A terra é de 1 milhão de anos. No local, dentro da delimitação, setor indígena do deserto, há formações de pedra erodidas pelo sal e vento do deserto, uns totens naturais, chamados de Os Vigilantes”. Sãocompostos de granito, quartzo e argila, principalmente.

No lugar, antigamente, o povo consultava os xamãs (indígenas guardiões do povo, líderes espirituais) e faziam festejos com danças e bebidas em homenagem aos totens. Era a conexão ancestral, de cultura indígena. Foi o arqueólogo e padre jesuíta Gustavo Le Paige que chamou Os Vigilantes de Três Marias, fazendo a conexão com a religião católica. O lugar é sagrado. A estrutura representa a ligação dos elementos da Mãe Terra (cultura indígena) que protege a economia, a cultura e o povo. Na parte marcada, o xamã recebia o povo para escutar seus pedidos.

Outra rocha ao lado, os americanos do sul acham parecido com um “coração partido”, já os europeus com um “dinossauro”. Observamos a casa dos mineradores de sal ali adiante.

Vimos ali perto o caminho de terra usado antigamente de Calama a São Pedro entre areia, dunas e montanhas até os anos 1990. Agora é estrada. No percurso, passamos pelo mirador Achaches e vemos o vulcão “Mãe Terra’, ou seja, o majestoso Licancabur.

Paramos na base para banheiros, onde existe um pequeno museu com rochas da Cordilheira dos Andes. Muita gente fazendo seus lanches com suas vans paradas pela estrada. Decididamente, não é turismo fácil, requer muito preparo físico.

Fazemos nosso snack mais adiante no mirante da Cordilheira do Sal, um desbunde de paisagem. Lanche: pisco sour, suco de laranja, azeitonas, frutas como morango e pepinos (parecido com o melão), batatas chips, queijo da Patagônia chilena, pipocas doces (deliciosas, nunca comi igual). No nosso grupo tinha gente da Guatemala, Madri (Espanha), Chile e Liverpool (Inglaterra) e nós. Depois de saciados, rumamos ao pôr do sol no Mirador de Cari (ou Ckari), onde se localiza a pedra do Coyote, uma rocha protuberante, no momento interditada. Não podemos ultrapassar as correntes junto ao desfiladeiro.

A gente vê o pôr do sol após as 19h30 e vamos em direção ao outro lado para se maravilhar com as cores do céu. Uma poesia da natureza. Usar os óculos de sol é obrigatório. O Carlos lembrou de Jujuy, no norte da Argentina, com suas montanhas coloridas. Encontramos lá umas seis jovens portuguesas e batemos altos papos. Turista quando se encontra com turistas fala de? Viagens, logicamente. Também revimos a guia simpática Carolina.

Ao fim do passeio, o guia pediu gorjeta, algo nunca visto por mim naquelas plagas. Demos, embora estranhando. O dia foi mais do que completo, foi um banho de cultura e vida. À noite, empanadas, só pra variar.

Dia 11 de outubro de 2023, dia do retorno a Fortaleza. Em Santiago, saímos do Terminal 1, nacional, e caminhamos por fora do saguão ao Terminal 2, internacional. Tem que ficar ligado. Acho o aeroporto Arturo Merino Benítez muito agradável de se estar.

Depois de um transfer de van de São Pedro do Atacama a Calama (uma hora), três aviões: Calama-Santiago, Santiago-Galeão (Rio de Janeiro), e Galeão-Fortaleza, chegamos exaustos. O Galeão pegamos desorganizado e confuso, com taxas de serviço de 13% nas lanchonetes, caro e serviço vergonhoso. Espero que melhore para quem chega de conexões, principalmente.

Eu tive dois dias de jetlag e o Carlos três. Haja cansaço e moleza, mas… valeu totalmente. Já quero voltar. Queremos desbravar mais o Atacama…

Não se exprime com palavras o deserto do Atacama, mas sim com sensações. Eis um lugar cativante, único no mundo nas suas peculiaridades, beleza árida, gastronomia e vida noturna intensa em São Pedro. Pessoas queridas, simples, acolhedoras como a Yobi, a Paulina, e a Sarita do hostal Terracota, a Leo e a Arellys da excursão a Piedras Rojas, o Ronaldo e o Levi da Agência Sol Andino, os viajantes como nós: a Irene, seu filho Dudu, e o Alan. Quanta gente boa e generosa! Obrigada a todos vocês. O Carlos e eu agradecemos.

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 5-Lagunas Baltinache

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Lagunas Baltinache

Hoje é segunda-feira, dia 9 de outubro de 2023. Vemos o vulcão Licancabur, o majestoso, estamos no centro da cidade. Na hostal Terracota, antes de sairmos, nos deparamos com as queridas funcionárias Paulina e Yobi, a quem amamos e elas a nós. Tiramos fotos mil e a Yobi nos convidou para conhecer a terra natal dela: Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, nos oferecendo hospedagem. Um doce! Também conhecemos em outro momento as suas duas filhas gêmeas.

Estava na hora do almoço e comemos o prato do dia no restaurante de sempre: Delícias de Cañaveral: batatas, salada e peixe reineta por 4 mil pesos chilenos (R$22,39). Ali encontramos um casal de argentinos que estavam excursionando de motorhome, o sonho do Carlos. Estamos em um tipo de jornada que amo: gente diversa, línguas múltiplas, turistas amantes de natureza e muitos papos.

Combinamos com o Ronaldo da Sol Andino Expediciones o passeio às Lagunas Escondidas de Baltinache (na base de 39 mil pesos-R$218,33 e entrada 10 mil pesos-R$56,01). A agência sempre dá desconto quanto mais se compra pacotes com ela e para aqueles de “maior idade”. A entrada para o Carlos foi de 3 mil pesos.

O passeio de hoje será Lagunas Baltinache, Llano de la Paciencia (Planície da Paciência) e Mirador Cordillera de la Sal (mirante Cordilheira do Sal). O transporte virá nos buscar das 13h30 às 14h10 no hostal. O guia se chama Pablo Quesada e o motorista Edwin. São 56 km até lá, a primeira parte da estrada está boa, mas a segunda sofrível. Detalhe: os guias mandam mensagem pelo Whatsapp, ou seja, celular é obrigatório atualmente. E levar água se faz necessário. Não esquecer de se besuntar de protetor solar no corpo.

Meus tênis estão irreconhecíveis de tanto pó. O solado da minha bota descolou, lembram? Sem sapateiro na cidade, fiquei somente com os tênis. Outra informação: gostam muito de colocar bandeiras do Chile em restaurantes, hotéis e casas.

O guia nos informa que há lugares para trocar de roupas, mas não água para tirar o sal. Tomaremos banho em uma lagoa de água cristalina, muito mais salgada que o Mar Morto no Oriente Médio (com água marrom), são 600 g de sal por litro de água, não vivem animais e molhar os olhos na laguna nem pensar. No final há um lanche.

O Pablo nos mostra a Cordilheira da Morte ou Marte, contém sulfato de cálcio, calcário e sal de comer misturados com lítio, magnésio e arsênico. composta de sedimentos, está fechada desde a pandemia de coronavírus. Fica perto dos telescópios gigantes (projeto ALMA), a região com maior radiação solar do mundo. Vemos o vulcão Lascar (5.592 m), ativo, aberto para subir com fumaça de enxofre. São 4 a 6 horas de visita. Também observamos a Cordilheira do Sal, de origem vulcânica, de cor escura.

Entramos em Peine. A estrada é irregular, deve-se ter cuidado com as cabeças para quem estiver sentado ao lado das janelas. A estrada é de piçarra. Estamos a 2.420 m de altitude. O Vale da Lua não tem vida e a laguna Cejar ainda tem plânctons e um pouco de vida.

Há lítio na região. Chegamos ao local. 1 km de caminhada depois da base para banheiros e vestiários para troca de roupa, afinal vamos nos molhar na laguna. Caminhamos pela passarela de pedras, a terra ao lado é de sal branco (sal mais arsênico). A caminhada é feita no sol muito quente. Fui com protetor solar 50, já colocado, chapéus e canga nas costas. Um calor de rachar.

Temos uns 20 minutos para banho na laguna salgadíssima, o máximo permitido. Que experiência única! Não conseguia ficar de pé, o Carlos tinha que me puxar, a gente flutua facilmente, ninguém afunda. A água fria tornou o banho uma delícia. De lá andamos por outro sendero até as vans. O motorista nos molha para tirar o sal na mangueira improvisada. Não se molha o cabelo na laguna, a gente fica branco de tanto sal. Não há propriedades medicinais e nem vida. Após tirar o sal, entramos na van e voltamos à base para vestiários e banheiros. De roupa trocada, seguimos para São Pedro do Atacama, mas antes vimos o Mirante da Cordilheira do Sal e o Llano de la Paciencia.

O contraste da laguna Baltinache com as pedras escuras e sal ao redor e água cristalina é espetacular. Na verdade, são sete lagos salinos de um azul-turquesa, unidos subterraneamente em pleno deserto. O lanche (snack, como chamam) é no mirador/mirante. A paisagem das rochas com as montanhas de pedras, embaixo um rio seco de areia forma um cenário exótico, lindo. O lanche muito bom com variedade de chips, azeitona (picles), bolo, biscoitos, as bebidas pisco sour (amo!), piña colada e suco de pêssego. Maravilhada de estar em natureza tão colossal.

Detalhes da vida cotidiana de São Pedro: na rua principal Caracoles, colocam recipientes com água para os cachorros de rua, que são muitos. E mais: o chileno vive em um país seguro, por isso é confiante. Em uma loja, a vendedora nos deixou sozinhos cuidando do espaço e foi cambiar dinheiro. Algo a invejar do país vizinho.

São Pedro do Atacama, apaixonante. Nosso passeio está quase no fim.

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 4-Piedras Rojas

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 4-Piedras Rojas

Hoje é domingo, dia 8 de outubro de 2023. O passeio a Piedras Rojas (Pedras Vermelhas) promete ser muito bonito. Como o local é ventoso, temos que nos agasalhar bem. Eu usei meias térmicas por debaixo das calças compridas, gorro, luvas, duas blusas de lã, além do casaco. Um frio daqueles. Pagamos 55 mil pesos por pessoa (R$309,00) e 23 mil (R$129,26) para a entrada no parque. Para maiores de 60 anos, são 17 mil pesos e para chilenos 15 mil.

O micro-ônibus da Andes Travel nos buscou às 6 h da manhã e chegaremos às 17 h aproximadamente.. O motorista é o Enson e os guias Carolina e Duncan. Detalhe: falam muito bem inglês. A Carolina, um doce. O itinerário no folder é laguna Chaxa, Piedras Rojas, lagunas Miscanti e Meñiques, povoados andinos e Trópico de Capricórnio. Na excursão oferecem café da manhã e almoço. E vamos subir até 4300 m de altitude.

Passamos por um conjunto de árvores, algo raro no deserto do Atacama, o bosque de Tambillo. A paisagem é de areia e montanhas no horizonte. Região de pastoreio, há lhamas e ovelhas. Tamarugo é o fruto dessas árvores “tamargueiras do deserto”, usado moído para fazer pão. A água que vem das montanhas abastece a quantidade de árvores, um verdadeiro oásis.

Passamos por Toconao, um povoado de cor branca com mil habitantes, onde existe uma mina de lítio. O nome indígena significa “lugar de pedras”. Segundo o Guia de São Pedro do Atacama do Serviço Nacional de Turismo do Chile, a vila colonial é inteiramente construída com pedras liparitas de origem vulcânica. O artesanato de pedra vulcânica e a agricultura são as principais fontes de emprego pra seu povo. Ele está localizado a 38 km de São Pedro, a uma altitude de 2485 m. As frutas marmelo, romã, limão e laranja são colhidas na localidade. A água que vem da montanha atravessa o vale.

Deixamos o salar (a parte branca de sal) e chegamos ao altiplano. O sol vai surgindo às 7h30. Areia, pedras, poucas árvores de vez em quando. Arbustos baixos. Estamos na Rota do Deserto e vemos Socaire, outro povoado, um assentamento sem municipalidade. O Guia de São Pedro adiciona que se trata de uma pequena aldeia em cujo interior se encontram imagens de antigos tempos coloniais, também tem artesanato de camelídeos (mamíferos da família dos camelos) e lã de ovelhas. A igreja de São Bartolomeu é uma das mais antigas do norte do Chile, logo possui um histórico significativo. Estamos a 3300 m. Há a plantação de quinoa e alfafa. Possui 120 habitantes e foi construído em 1400 pelos incas.

As águas dos lençóis freáticos vêm de debaixo da cordilheira, são mananciais naturais. Eram glaciares 50 milhões de anos atrás. A estepe alto andina é um tipo de vegetação das montanhas. A paisagem é mais verde. Vicunhas (camelídeo andino) e viscachas (coelho roedor) são vistos. Estamos subindo as montanhas. O guia Duncan nos dá uma aula sobre camelos. Há os domesticados: lhama e alpaca (não da região) e os selvagens: guanaco (de face acinzentada) e vicunha (vive nas altitudes e em harém: 1 macho para 15 fêmeas). As vicunhas não atacam as pessoas, não têm vesícula biliar, por isso bebem água salgada, são herbívoros e precisam de sal, buscam água das lagunas e salares.

Paramos para o café da manhã em uma parte que é um rio flutuante, seco no momento. Os guias e motorista montam a mesa ao lado do micro-ônibus em 10 minutos. Que fome! Conheci duas chilenas de Santiago queridas: a Leontina (Leo) e Arellys. O café foi farto: água quente, chá, chocolate e café em pó, de frutas melancia, kiwi e pepino (parente do melão), salame, queijo, pães/croissants deliciosos, geleia de morango, manteiga e guacamole (de abacate). Muito rica a experiência. E com gente de diversos países.

Vemos o vulcão Meñiques de 4200 m. O guia explicou a razão de não chover no Atacama. A região de Antofagasta, do norte do Chile, é a mais ampla e há quatro cordões montanhosos, começando na Patagônia e indo até Nazca no centro-sul do Peru. O quarto cordão montanhoso é a Cordilheira dos Andes, suas paredes naturais não deixam as 60% das nuvens chegarem, então elas regressam ao oceano. Por isso as poucas nuvens. Ou seja, as cordilheiras atrapalham as chuvas. Chove a cada 2 ou 4 anos, 80 mm por dia, nesse verão passado choveram nove dias. A região de Antofagasta ao norte e Magalhães ao sul. As nuvens não vêm do Oceano Pacífico, os ventos alísios vêm do leste para oeste, aí ocorrem as chuvas. Mais ao norte a 500 km de São Pedro se encontra Quillao, onde chove a cada mil anos, portanto é considerado deserto absoluto.

Mais informações: as lhamas são domesticadas desde 2000 a. C. Carregavam 50 k por 40 km, eram usadas para transporte. As “pascanas” eram lugares de descanso para lhamas e pessoas. O povo que vivia na região era os lican anthay, “lican” significando povo e “anthay” terra.

Chegamos ao Salar de Aguas Calientes (ou Piedras Rojas) na Rota do Deserto. Há a base para a banheiros. Depois rumamos ao sendero (passarela) com caminhada de uma hora para fotos, o mirante é lindo. Vemos montanhas, com o salar embaixo. Difícil respirar, tem que caminhar devagar. O complexo vulcânico Meñiques, com formações rochosas de pedras de erupção vulcânica, crateras, cúpulas de lavas e fluxos (até 5910 m). O vulcão Aguas Calientes ou Simba (5924 m) tem lavas e não tem pedras. Os senderos são de pedra, areia e cascalho. Seguimos parando de vez em quando, por conta da respiração até o lago de sal. Boa caminhada sem muito vento, ainda bem. Esperávamos um tempo ventoso. A laguna se alimenta de água submersa a 40º C que passa pela orelha e sai fria. A respiração é bem complicada. O nome de Piedras Rojas é por conta do ferro existente.

Caminhada desafiadora com tanta altitude, sol e roupas pesadas. Começamos a sentir calor e eu sentindo a cabeça doendo um pouco. Na Rota do Deserto, existem as lagunas Meñiques e Miscanti.

O Guia de São Pedro do Atacama nos diz que pertencem à Reserva Nacional de Flamencos. A avifauna é composta principalmente de flamingos, Caitis, tagua-cornudas e guallatas. Das duas lagoas altiplanas, sobressai Miscanti, por seu grande comprimento e largura. Estão localizadas a 117 km ao sudeste de São Pedro do Atacama, a cerca de 4300 m.

Miscanti significa “lugar de sapos”. Sua cor azul e verde é de chamar a atenção. Não se toma banho, tem 15 km². 30 m de profundidade, mescla água salgada e doce. Tem recargas de infiltração de água de chuva do tipo subterrâneo e termal. Sua descarga é subterrânea e por evaporação. Sua superfície congela no inverno com temperaturas abaixo de zero. Chega a -30º C. As lagoas Miscanti e Meñiques se conectam entre si por baixo da superfície. Flamingos, gansos andinos e vicunhas se encontram no local.

Levem folhas de coca para mascar. A altitude nos faz sofrer. Ufa! Viagem para fazer enquanto se tem joelho e pernas bons.

Os parques da região são administrados pelo SOCAIRE, os guardas parques trabalham em turnos e são indígenas. O Duncan nos informou que são os próprios indígenas que administram os parques.

As visitas são rápidas, mais para fotografias. Vale demais. Na laguna Meñiques, vimos vicunhas na água. De tamanho menor e linda igual. Um grupo de franceses estava lá. Europeus e americanos frequentam muito o Atacama. Observamos lhamas na volta, é um alívio estar descendo.

Agora seguimos para ver a placa do Trópico de Capricórnio. Latitude 23º 26´16´´. O guia Duncan esclarece sobre as linhas divisórias do Trópico de Câncer, do Equador e do Trópico de Capricórnio.

Prosseguiremos para a laguna altiplana Chaxa para ver os flamingos. Está no caminho de Peine (aldeia) e não de Calama (cidade). De acordo com o Guia de São Pedro, foi declarado Monumento Nacional em 1982, Peine é um protótipo dos povos abertos atacamenhos. É possível ver pictogramas interessantes sobre a parede de pedra da Quebrada de las Pictographs.

Os flamingos são aves migratórias. Os do tipo chileno e andino viajam pela Cordilheira dos Andes. Os do tipo James vêm da África, não se misturam, são monogâmicos e os encontrados em Chaxa não se sabe se são machos ou fêmeas. Comem microcrustáceos o tempo todo. O Duncan sempre ensinando. Conhecemos a lagoa, mas estava muito calor e lá há uma casa base com banheiros. E nós empacotados de roupas…

A lagoa Chaxa é rasa com sal em uma formação incomum e fauna magnífica de flamingos de cor rosa. Localiza-se a 62 km ao sul de São Pedro. É local protegido e faz parte da Reserva Nacional de Flamencos, conforme o Guia de São Pedro.

Em Toconao, entramos na ponte do mesmo nome. E vimos a Quebrada de Jerez com água embaixo das rochas da cordilheira, estilo Grand Canyon (EUA) em miniatura. Também conhecida como Ravina de Jere, regada pelo rio Toconao. O Guia de São Pedro adiciona que tem um clima especial para a produção de frutas como peras e marmelos. No local há piscinas e flora abundantes, sendo as espécies de plantas mais comuns o “rabo de raposa” e o cacto.

Na volta, almoçamos pela empresa de turismo com a turma legal no restaurante El Diablillo (rua Le Paige, 502) que oferece carne de lhama, guanaco e avestruz. Comemos pratos combinados e fomos tirando as roupas de frio, pois em São Pedro estava o maior calor. O ônibus foi para outro lugar e do restaurante fomos andando para o hotel. Estava com uma dor de cabeça persistente. A simpática chilena Leo me deu um remédio no percurso, porém tive que tomar outro depois, além de um chá de coca no hotel. Motivo? Privação de sono, mudança de clima radical e altitude.

Obs: o Levi da agência Sol Andino tinha razão: o café da manhã foi às 9 h e o almoço quase 16 h, era necessário levar um lanche, levamos bananas, mas não foram suficientes. Não há estrutura de cafés e lanchonetes pelo caminho, e nem banheiros pelo motivo de estarmos no deserto e em lugares protegidos.

Que aventura de uma vida! Passeio imperdível. Deserto do Atacama irresistível.

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 3-Termas de Puritama

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 3-Termas de Puritama

Dia 7 de outubro de 2023. No café da manhã no hostal Terracota conhecemos a Paulina, cunhada da Sarita (proprietária), que trabalha na pousada também, além da Yobi. Que funcionárias mais queridas: a Yobi e a Paulina.

Fomos ao centro dar uma passeada. De manhã mais cedo é sempre mais fresquinho, o calor vem ao longo da manhã, aí é perigoso estar no sol. Na praça principal (Plaza de Armas), vemos pessoas da cidade vestidas com roupas de folclore indígenas acompanhadas de banda de música a cantar, dançar pela praça e entrar na igreja de São Pedro do Atacama. Era homenagem a um santo, me disseram. Mais tarde saíram em procissão com o padre e retornaram à igreja. Lembrei do sincretismo religioso da nossa Bahia, no caso: cultura indígena e catolicismo.

Detalhes sobre a Igreja de São Pedro: o blog: https://todososrumos.com nos diz que se trata do principal símbolo turístico do povoado. Construída em 1774 pelos jesuítas espanhóis, suas paredes são feitas com adobe e seu teto com madeira de cacto e couro de lhama, no lugar de pregos. O uso de madeira de cactos exibe uma técnica característica dos povos andinos. Foi declarada Monumento Nacional em 1951. Branca como a neve, é localizada na Praça de Armas e é um legado arquitetônico dos antigos colonizadores espanhóis e foi a partir de sua construção que o povoado foi se consolidando. A torre foi acrescentada em 1890.

De lá atravessamos a Feira Artesanal e chegamos ao restaurante Delícias de Cañaveral novamente. Fui repetir o suco de abacaxi (piña) maravilhoso, comi a segunda empanada do dia anterior de tão grande que era, achei que era napolitana, mas era caprese (do Empório Andino). O Carlos pediu comida mesmo.

Foi um sufoco conseguir as entradas para as Termas de Puritama, com águas termais de 28º a 31º C. A combinação com o Levi da agência Sol Andino foi a seguinte: a van nos pegaria entre 13 h e 13h40 no hostal. Ir de tênis ou bota, mas levar chinelo, pois estaremos dentro de uma quebrada. O valor: na base de 60.000 pesos (agência mais a entrada na reserva). Em reais: R$337,20. Ressalto que há desconto quanto mais passeios você compra na agência e pela idade. Detalhe: em São Pedro nossos pisantes ficam cheios de poeira, as roupas também. Todo mundo vestido de roupa de turista, nada chique. O lugar é seguro, depois das 11 h da noite há pouca gente nas ruas, porém no centrinho sempre há movimento. Engraçado que caiu a sola das minhas botas, ainda bem que levei tênis, pois não há sapateiro em São Pedro.

Ás 13h30 a van da agência Lourdes Expediction Spa nos pegou. O passeio é até as 18 h. O motorista Edwin diz que são 45 minutos para chegar lá (uns 30 km). Subiremos de 2400 m a 3400 m. Se alguém passar mal, tem que avisar. Devemos beber muita água, se não desidrata rapidamente. Vimos o cemitério enorme com muro de barro. A cidade é marrom, de tanto muro de barro e ruas de pedregulho e areia.

Vemos o vulcão Licancabur (5950 m) no horizonte, metade no Chile e metade na Bolívia. Estamos a 60 km da fronteira com o país vizinho. O Salar de Uyuni é próximo. Há passeios de 3 dias (somente ida) ou de 4 dias (ida e volta) com carro apropriado para tal jornada.

Na Reserva de Conservação de Puritama, vemos uma placa com nomes de animais em extinção: gato do deserto, gato andino, suri (tipo de ema), raposa colorada ou andina, vizcacha (um coelho grande) etc.

A van chegou no estacionamento, estava concorrido. Descemos por entre as montanhas de pedras, depois por uma passarela de cor vermelha. Descer é fácil, mas subir, socorro! Alcançamos as cabines de trocas de roupas para mulheres e homens separadamente. Cabines muito simples, mais umas casinhas sem portas separatórias. Tinham armários sem chaves, isso foi chato, por isso todo mundo preferiu deixar seus pertences no chão perto da piscina natural térmica. Eram muitas e no chão. Sinceramente, achei muito rústico, mereceria uma estrutura melhor. Penso que não há cafeteria, porque é uma reserva, não há nem onde comprar água. Logo, tem que levar e se preparar. Para quem conhece Pucón, no centro do Chile, e suas termas fantásticas com estruturas elogiáveis, fica decepcionado. O que vale mesmo no local é o banho de águas de 32º C, relaxantes.

Ficamos umas 2 horas na mesma piscina e conhecemos um bocado de brasileiros de norte a sul. Tinha uma minicascata mais adiante, uma delícia. Que frio na saída. A região mais parece um oásis no meio do deserto.

Na volta, o caminho era mais íngreme, e fomos convidados a retornar de carro com o funcionário do parque, nós e outras pessoas mais idosas. Gostei da gentileza. A estrada é de terra de vulcão, escura.

Na van percebemos o vulcão Sairecabur, montanhas ao lado, no mais, vegetação de deserto, tudo bastante árido. Passamos pelo povoado de Guatin onde vivem de fazer queijo e trabalham nas minas lá perto. Os aventureiros fazem trekking por lá na Quebrada (declive de montanha) de Guatin. Deve ser um passeio lindo para ver cactos gigantes e pequenas cachoeiras emmeio à natureza do deserto.

O motorista nos deixa na rua Caracoles e de lá rumamos ao Rincón del Sal para a nossa sopinha crema de verduras.

Mais passeios em breve… Piedras Rojas, um local fabuloso.

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 2-Tour Astronômico

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 2-Tour Astronômico

Dia 6 de outubro de 2023. É noite, está frio e nós esperando o passeio do Tour Astronômico. Por dica do Alan, paulistano aventureiro, descobrimos o Empório Andino (rua Caracoles, 151). Aconselho demais, as empanadas são enormes e deliciosas (3500 pesos chilenos cada). Há também doces e cafés. O maior movimento. Pedimos duas empanadas cada um, e me arrependi. Pois é muita comida, basta uma. Pedi uma de frango e outra napolitana, mais café com leite. O Carlos pediu o mesmo, mas com suco de morango. O clima da cidade à noite é vibrante. E o friozinho de uns 20º C, bem agradável.

Às 21h30 estamos na própria Caracoles em frente à agência Sol Andino Expediciones. O céu está limpo novamente, as nuvens foram embora, então vamos ao Tour Astronômico. O brasileiro Levi, funcionário da agência, nos leva a pé à Praça do Turista (onde ficam as vans e os turistas sentam nos bancos) lá perto e entramos na van com um guia. Somente certas agências de turismo fazem o passeio. Somos um grupo de três chilenos, um peruano, nós brasileiros e uma sul-coreana.

O Tour Astronômico é algo original. 10 minutos da cidade de São Pedro e estamos em um observatório astronômico para ver as estrelas, muito escuro e ermo. Os guias mostram estrelas e planetas com uma caneta laser, estamos divididos em dois grupos: um fala em espanhol e o outro em inglês. Lá sentamos em uma parte alta e tiramos 3 fotos com um fotógrafo profissional. Aliás, recebemos depois pelo Whatsapp do Tour (SOL ANDINO COSMOS.OBS) e elas ficam espetaculares, com o Cosmos atrás da gente. Levamos um binóculo para nos deleitar com a majestade universo. A lanterna do celular ajudou no caminho de tão escuro que era. Bom se agasalhar também, pois no descampado faz mais frio ainda.

Do local andamos até a base a fim de comer snacks (queijo, chocolate, bolo) e tomar vinho e pisco sour . Que bebida mais gostosa. Tudo à vontade.

De lá vamos a pé ver os telescópios, o menor, o maior e um digital. Os dois guias são treinados em astronomia, sabem muito e são apaixonados pelo assunto. Gostei da aula sobre estrelas e planetas. Somos estrelas mesmo, parte do Universo. Aprendi muito. Vimos os planetas Saturno “e seus anéis” e Júpiter “brilhante” pelos telescópios, e a estrela Antares, de cor vermelha, significando que está no fim de sua existência. Implodem e explodem. Testemunhamos gases no céu. Para quem gosta de astronomia, a observação causa uma sensação de felicidade. O deserto do Atacama proporciona o céu mais estrelado e limpo do mundo, é o lugar ideal para isso pela altitude elevada, baixa umidade e clima árido. À noite a temperatura cai e o escuro permite uma visão esplendorosa do céu.

Por curiosidade, é lá no deserto do Atacama que as instalações se localizam, a 35 km do centro de São Pedro, seguindo pela Rua 23. São aqueles telescópios gigantes que vemos na TV. Confesso que achava que o Tour Astronômico era a visitação ao local, mas não. Os telescópios fazem parte do Projeto ALMA. De acordo com o blog: https://fuiegosteitrips.com.br: “O céu do Atacama é tão incrível que diversos países e organizações se juntaram para formar uma associação e investem juntos em muitas pesquisas. Com isso, foram instalados muitos telescópios poderosíssimos. O Projeto Alma (Atacama Large Milimeter Array) estuda a radioastronomia e, para tanto, utiliza radiotelescópios, gigantescas antenas parabólicas. O ALMA, aliás, foi o primeiro no mundo a tirar uma foto de um buraco negro!” Conforme o mesmo blog, depois da pandemia as visitas foram suspensas.  Eu realmente não vi nenhuma programação turística para conhecer o lugar.

Na noite estrelada, conversei bastante com a sul-coreana em inglês, amei! Um doce de pessoa, viajando só, depois iria a Foz do Iguaçu, uma aventura. Falei que amo os doramas (seriados coreanos da Netflix) e ela riu, achou ótimo.

Atraí o que mais queria na viagem: ver um coreano do sul e tomar pisco sour. Matei a vontade. Aliás, segundo a Wikipédia, pisco é uma bebida alcoólica produzida a partir de uvas sem adição de nada, nem água. Baseia-se fundamentalmente na destilação do mosto proveniente de uvas. O coquetel, típico do Peru e Chile, que não é cachaça, é preparado à base de pisco, limão, xarope de açúcar, podendo ou não usar clara de ovo.

Nossa altitude de 2400 m requer muito chá de coca e folha de coca para mascar. Estamos no deserto mais seco do mundo. O passeio acabou pela meia-noite, deixaram o povo na Praça do Turista, estávamos todos radiantes. Já nós fomos de carona com os simpáticos condutor e guia até o nosso hostal Terracota, era o caminho deles. Foram gentis em oferecer carona para a sul-coreana também, afinal era bem tarde e ela uma jovem mulher. Gostei da atitude. O Tour Astronômico é imperdível.

Prosseguiremos com mais passeios em breve.

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 2-Cidade e Museu Gustavo Le Paige

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Dia 2-Cidade e Museu Gustavo Le Paige

Dia 6 de outubro de 2023, sexta-feira. Estamos no hostal Terracota. A dormida foi reparadora e o friozinho pela manhã agradável. Deserto é assim mesmo: calor e frio no mesmo dia. Outubro é um mês bom para estar lá. Compramos as passagens do Caetano Alencar da agência de turismo Grandes Viagens em Fortaleza, dica também da Sandra e do Max. O Caetano tem muita experiência em viagens pela América do Sul.

Voltando ao hotel, no momento só tem a gente de hóspedes. Detalhe: vi recente que colocaram a placa com o nome da pousada, que bom. A atendente Yobi é boliviana, um doce de pessoa. O irmão da Sarita, proprietária, mora ao lado em uma casa cujo muro é de galhos secos, bem interessante. Vamos ao café da manhã: tudo é servido na mesa de pouco, mas suficiente: banana, pedaços de maçã e laranja, presunto, queijo, salame, biscoitos, bolo, café e leite, sucrilhos, iogurte, ovos mexidos, um desayuno rico. Aprovado. Depois, ficamos admirando o local, um sítio em plena natureza, um oásis no deserto. Sempre bom mascar as folhas de coca, pois a altitude de 2407 m não brinca, para respirar é custoso. Na Internet vi 2500 m.

E fomos passear: Praça de São Pedro, onde está a prefeitura (Municipalidade) e os Carabineros do Chile (Polícia Nacional). A feirinha é toda colorida com artesanato, comidas, bandeirinhas a enfeitar as árvores, demonstrando ser uma cidade pacata do interior. Não preciso dizer que uma banquinha tinha a bandeira do Rio Grande do Sul: é uma gaúcha casada com um rapaz nativo e vende doces e salgados brasileiros. Entramos na Igreja Matriz, de 1557, com chão e teto de madeira e branca por fora. Simples e rústica. Rumamos ao local onde se localiza a Feira Artesanal, muitas bancas com artesanatos diversos, ótimo para as lembrancinhas. Amo o artesanato andino, produtos de lã de alpaca, bolsinhas, tudo é colorido.

Falando com a Yobi, ela nos deu dica de restaurantes onde os nativos comem e lá fomos nós após a feira de artesanato. Saindo pelos fundos do local, andamos um pouco e encontramos restaurantes, estilo quiosques, um ao lado do outro. Gostamos do Delícias de Cañaveral e pedimos: frango ao forno com batatas fritas e salada mista a 4 mil pesos (uns R$22,00), além de suco de abacaxi e de morango. O de abacaxi da fruta foi o melhor que tomei até hoje. Muitas opções de comida: se pedir a entrada, mais o prato principal e dois agregados, sai 6 mil pesos (uns R$33,00). Para nós, seria muita comida.

Esses restaurantes do povo da terra são os imperdíveis, na minha opinião. A gente observa e conhece os costumes locais. Há gatos e cachorros ao lado, percebi muitos cachorros pelas ruas de São Pedro. Pelo menos, as pessoas cuidam deles, colocam água na porta da loja e dão comida. Ao meu lado, sempre aparece um ou outro, afinal amo animais. Segundo o garçom, existem mais cachorros do que gente. Sem dúvida, o rapaz tem sendo de humor.

Pela cidade, há canaletas de onde a água vinda da Cordilheira dos Andes passa. Lembrei de Mendoza na Argentina (do lado oposto da cordilheira). Em São Pedro, chove muito pouco por ano, a chuva vem da Bolívia, país fronteiriço, mas é algo raro. Os moradores molham a rua, as calçadas e os muros, tamanho o clima seco.

Passamos na pracinha de novo, depois do almoço, um calor de rachar e um sol perigoso fica amenizado debaixo das árvores pimento e algarrobo.

Recebemos o aviso via fone (do chip do Chile que ganhei do Levi da agência de turismo Sol Andino) que o parque Valle da la Luna estava fechado, devido aos ventos de 60 km/h, os quais trazem tempestades de areia. Que fato inusitado! Ruim para a saúde dos olhos e dos ouvidos. Logo, o passeio da tarde foi cancelado. Vamos então aos Museus do Meteorito e do Padre Gustavo Le Paige. No caminho, nos encontramos com o Alan, jovem aventureiro de SP, na fila do banco (uma porta para tirar dinheiro). Dou a dica do Museu do Meteorito e ele dá a dica de umas empanadas incríveis: Empório Andino na Caracoles, 151. Ficamos sonhando com o jantar da noite.

Chegamos no Museu do Meteorito, na rua Tocopilla (nº 201), direto, porém estava fechado, que pena. O horário é das 18 h às 21 h. Expõe 77 meteoritos encontrados no deserto. Acabamos não indo. O Alan foi e gostou, o lugar é pequeno e único.

As cercas das casas feitas de galhos e as ruas de pedregulho fazem de São Pedro um lugar diferente. Continuamos caminhando, quero conhecer o museu Gustavo Le Paige. Antes era no centro, na pracinha, porém mudou para bem mais longe e sem sinalização, as ruas sem placas tornaram a dificuldade maior. Merece ser mais divulgado entre os turistas, nós fomos, porque gostamos de museus.

Quem era Gustavo Le Paige? Jesuíta, arqueólogo, de origem belga. Escavou cemitérios arqueológicos pré-hispânicos. Estão expostos diversos tipos de cerâmicas: polida, manifestação material dos povos pré-hispânicos; monocromática, de pastas e paredes muito finas com tratamento de superfície polida, dando a impressão de estar lustrada; vermelhas; negras etc. Domesticação das lhamas, cestos do Atacama, instrumentos musicais como flautas, trompetas, ocarinas, gorros com bandanas e calota craniana etc. Prática fumatória e inaladora: os indígenas consumiam vegetais com conteúdos alcaloides capazes de gerar alucinações e alterar o estado de consciência em 200 d. C. Túnicas, bolsas com estampas da região. Minerais de cobre usados como oferendas nos rituais religiosos e para lapidação. Mostra de tapeçaria enlaçada e com fibra de alpaca. Túnica Tiawanaku (ou Tiuanaco-sítio arqueológico pré-colombiano no oeste da Bolívia, perto do lago Titicaca) com estampa de pássaro antropomorfizado. Linda! Museu pequeno, situado em contêineres, mas muito válida a visita. Com informação para cegos. Foi uma boa caminhada.

A rua Caracoles é a principal do centro, o “point” de comércio e agências, lojas, restaurantes, me lembrei da rua Broadway em Canoa Quebrada, Ceará. Uma delícia caminhar e ver o movimento seja de dia, seja de noite, lógico que à noite o clima frio é sempre mais aprazível.

O Levi nos disse que os ventos estavam em 53 km/h. O passeio do Vale da Lua foi adiado mesmo. Então decidimos pelas Termas de Puritama no sábado: 95 mil pesos: excursão e ticket de entrada para ambos, em reais R$525,35. Na sexta mesmo à noite, escolhemos o passeio do Tour Astronômico, 50 mil pesos chilenos para ambos: R$276,50. Era para ser às 21 h, mas por conta do tempo nublado só saímos às 21h30. A gente ficou olhando o céu, esperando as nuvens se dissiparem.

Continuaremos em breve com passeios incríveis.

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Chegada

Viagem a São Pedro do Atacama-Chile-2023-Chegada

Dia 04 de outubro de 2023. Saída de Fortaleza a Guarulhos (São Paulo). Saímos às 15h45, mas só chegaríamos em São Pedro do Atacama ao meio dia do outro dia.

Dia 05 de outubro de 2023. Guarulhos (SP)-Santiago do Chile, de lá a Calama. Que viagem! Por motivos de greve de terceirizados, atrasou em Fortaleza e em Guarulhos, por isso a LATAM mudou nosso voo para Calama (norte do Chile), melhor. Em Guarulhos, no setor internacional, implicaram com minha almofada de gel, quase não me deixaram passar. Sempre viajo para ficar mais confortável. Em lugar nenhum isso acontece, fiquei perplexa. De Guarulhos a Santiago, serviram frutas, chocolate e um sanduíche de frango, melhor do que o usual servido nacionalmente. É bom levar lanches, pois sentimos uma fome danada em avião.

Em Santiago, no aeroporto Arturo Merino Benitez, saímos do Terminal 2 (internacional) para o 1 (nacional). A mala do Carlos foi direto para Calama, o que nos deu um susto. Ainda bem que um funcionário em Santiago foi desenrolado e nos informou corretamente sobre a bagagem. A minha chegou em Santiago, logo tive que fazer o check-in da mala, despachá-la e passar pela alfândega, logo entramos na fila de checagem. Corremos para alcançar o balcão 27 do T1. Como brasileiro sempre conversa e se ajuda, conhecemos ali mesmo os paulistanos Irene e seu filho Dudu, e o Alan que viajava só. Rapaz jovem corajoso na sua primeira viagem internacional. Todos nós ansiosos pelo deserto do Atacama. O Carlos na sua segunda estada lá. Detalhe: não deu tempo para comer nada, somente tomar um suco de pêssego. Todos os voos lotados, incrível, em plenas quarta e quinta-feira. No voo para Calama o lanche foi gostosinho, mas com muito sal e calórico, da marca Tribu: suflês veganos com farinha de grão-de-bico, feitos com pasta de amendoim e com sal do mar. Fazer o quê? Comer. Em suma: Fortaleza-Guarulhos: 3h15 de voo; Guarulhos-Santiago do Chile: 4h24; Santiago-Calama: 2h44, ufa!

Chegados a Calama, província de El Loa na região de Antofagasta, que é uns 100 km de São Pedro, fomos logo ao guichê da TRANSVIP, o transfer que havia consultado antes pela internet. Ida e volta por 25. 800 pesos chilenos (R$138,55). Pagamos em dinheiro (havíamos comprado uns pesos em Fortaleza para garantir). Deixamos a volta combinada para o dia 11 de outubro e nos pegariam às 5h15, cedo demais, mas era o jeito. Detalhe: em São Pedro o melhor a levar é dólar. Trocam reais também.

Pegamos o transfer e lá vou eu prestando a atenção ao caminho, Calama é a terra do sol e cobre. Estamos no deserto, tudo é muito claro e árido. Não há vegetações. Vejo casas coloridas e prédios altos. A cidade é espalhada. Por conta de São Pedro, muitos estrangeiros passam por ela. Há parque de usina eólica e solar por aqui. As outras localidades da região do deserto possuem nomes indígenas: Tocopilla, Paco Sico, Toconao. Estamos na estrada CH 23, bem sinalizada e de boa qualidade.

A van nos deixa no hostal em São Pedro do Atacama, que não tem placa: Terracota (Tocopilla, 517). Descobri no Booking.com, preço razoável e lugar promissor. Amamos à primeira vista, é um sítio com plantas, árvores, gatos e cachorro. A simpática funcionária Giovana ou Yobi e a proprietária Sarita nos deixam à vontade, pagamento, só depois com calma. A Yobi nos mostra a cozinha e fala sobre o café da manhã. Há chás em sachês, extratos secos ou em folhas na mesa sempre a postos, inclusive o de coca, muito útil por conta da altitude (estamos a 2500 m), pois ameniza a falta de ar e o cansaço. E a água é livre, uma dádiva, uma vez que tomamos muita, por conta da secura do deserto.

Além de cansados demais, estávamos esfomeados. Sinceramente, não vale a pena ir direto, valeu pela experiência de saber que não faremos isso novamente. Melhor, passar um dia ou dois na capital Santiago na ida ou na volta.

Deixamos a bagagem no quarto e saímos para almoçar, eu estava passando mal de fome. O hotel é muito bem localizado, perto do centrinho. A cidade é pequena. Descobrimos o Café Adobe Restaurante, na Caracoles, 211 (com calle Tocopilla). Excelente, comida fina, de chef: frango, molho de tomate e purê de batata especial, além de suco de morango. Encontramos a Irene e Dudu lá. Salve! Na rua Toconao, muitas casas de câmbio. La Llamita, loja de lembrancinhas ali perto.

O povo da terra, percebe-se, é descendente dos indígenas atacamenhos. São Pedro é peculiar, nunca vi lugar igual, é exótico. As ruas de areia, turistas mil. Muitos brasileiros. Se anda a pé, tem uma farmácia, mercadinhos, sorveterias, lojas mil, restaurantes, gamei total. As casas são baixas, têm cor ocre, a cidade tem cor de barro. Muito interessante. O clima de deserto é diferente: de dia muito calor, o sol forte e à noite, frio. Como era outubro, estava suportável o calor e agradável o frio.

Á tarde, “desmaiamos” de tão exaustos. Já à noite, fomos passear. Descobrimos em frente ao Café Adobe, o Rincón del Sal (Caracoles, 218) com opções de comidas, pizzas e… sopa! Crema de verduras por 4500 pesos (R$24,16). A vida é noturna, as ruas ficam vivas, o clima mais suave, achei similar à night de Jericoacoara e Canoa Quebrada no Ceará.

Há de se tomar muita água, pois estamos no deserto mais seco do mundo. Umidade de 10%, é bom evitar carne vermelha, frituras e álcool à noite. E proteger os lábios. Deram a dica de comprar Blistex na farmácia.

Já chegamos a São Pedro com a dica de uma agência de turismo. Obrigada, Sandra Ximenes e Max Krichanã. Sol Andino Expediciones na rua Caracoles, 362. O brasileiro Levi e o colega boliviano Ronaldo, muito solícitos. Ganhei um chip do Chile do Levi, o que se mostrou muito válido. Todas as combinações de turismo são feitas via Whatsapp ou telefonemas. Aliás, muitos bolivianos trabalham lá, é cerca da fronteira com a Bolívia. Na agência, fizemos logo as combinações para os passeios. Muitos viajantes já vão com tudo pago, mas nós gostamos de decidir no momento da chegada. Compramos o passeio ao famoso Valle de la Luna, (Vale da Lua) das 15h45 às 19h30. Eu paguei 40 mil pesos chilenos (R$215,64) e o Carlos 35 mil pesos chilenos (pela idade: R$187,74).

Não resisti a um sorvete na Heladería Babalú (Caracoles, 140) e fiquei encantada com tantos sabores originais: rica-rica (erva com propriedades calmantes), flor do deserto (flor), laranja com gengibre, pera de Páscoa, banana com amora, laranja com cenoura, selva (floresta) negra, frutos vermelhos etc.

São Pedro do Atacama cativa desde o início.

“Quadrinhos”? mas que diabéisso?

“Quadrinhos”? Mas que diabéisso?*

Por Max Krichanã*

A biblioteca laboratório HQLab, que é o embrião do que um dia seja o museu do Instituto de Educação e Pesquisa em Arte Sequencial, propõe-se a estimular pessoas de todas as idades a, basicamente, ler — contudo diferenciando-se de outras bibliotecas por ser referência especializada em HQs e buscar tornar a leitura uma atividade de vários modos interessante e produtiva, não somente como fim em si mesma, mas a partir da utilização dirigida do acervo (em mais de 5 idiomas) disponível.

HISTÓRICO

O HQLab teve início ao ser instalado, em maio de 1998, como acervo anexo da biblioteca George Washington do Instituto Brasil-Estados Unidos no Ceará (IBEU-CE), na sua sede da Aldeota, sob a denominação “Biblioteca de Arte Sequencial Richard Felton Outcault”, tanto em homenagem ao criador da comic strip Hogan’s Alley (que estreou em jornais de Nova York em 1896, destacando o personagem Yellow Kid), como para justificar sua participação nas atividades culturais de uma escola de idiomas. Em sua inauguração, o projeto recebeu a visita do jornalista, quadrinista e escritor Álvaro de Moya, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, que afirma ser aquela data — 1896 — o marco do “nascimento” do gênero comic art, equiparando a idade dos quadrinhos à do cinema. Notável autoridade brasileira em HQs (pesquise sua biografia!), Moya participou, junto a outros palestrantes, de uma semana de atividades nas dependências do IBEU-CE, incluindo palestras, exposições e mostras, a exibição de curtas e documentários, a performance de atores, músicos e humoristas e uma feira de gibis, que atraíram a atenção de um público variado e atento à inédita programação.

A efígie do personagem Bolão, saída da pena do cartunista cearense Luiz Sá (1907-1979) — que foi para o Rio de Janeiro, na década de 1950, expor seus desenhos e trabalhar com cinema de animação e publicidade, criando a trinca de personagens Reco-Reco, Bolão e Azeitona para a revista O Tico-Tico — tornou-se a identidade formal da logomarca da BASRFO. Trata-se de uma homenagem a um artista da “terrinha”, cujos traços em curva são há mais de 70 anos reconhecidos e admirados em todo o Brasil. Luiz Sá, nascido num 28 de setembro, fez a data tornar-se o “Dia do Quadrinho Cearense”, por lei estadual exarada em 2017 pelo mandato do deputado Renato Roseno (PSOL).

Neste lançamento e enquanto perduraram as suas atividades abertas ao público, a BASRFO (que ficou conhecida como “Gibiteca do IBEU”) destacou-se por mobilizar diversas comunidades culturais da cidade, atraindo, além de quadrinistas e cartunistas, também ilustradores, designers, fanzineiros, humoristas, videomakers, cineastas, titereiros, atores, músicos, arquitetos, decoradores, estudante e outros interessados na Nona Arte — além, é claro, da mídia.

O aspecto central desta iniciativa foi disponibilizar, no contexto institucional do IBEU-CE, em ambiente adequadamente estruturado para a fruição pública, um acervo contendo milhares de edições de revistas, livros, coleções, obras de referência e materiais em áudio e vídeo, em diversos idiomas, associados especificamente aos comics ou “quadrinhos” ou, como grafou o artista norte-americano criador da personagem The Spirit Will Eisner, à “arte sequencial”.

Em 1999, uma avaliação produzida junto à opinião dos consulentes pela diretoria do IBEU-CE e funcionários da biblioteca George Washington demonstrou que a “seção de quadrinhos” havia se integrado e dinamizado a rotina da instituição, fidelizando um público que se dedicava assiduamente a conhecer o amplo espectro de histórias, abordagens e análises oferecidos pelo inacreditável acervo.

Assim, no intervalo 1998-2000, foram promovidos lançamentos de livros e folhetos de cordel, de fanzines e revistas em quadrinhos, e realizaram-se oficinas, exposições, palestras, recitais e debates, concretizando encontros diversos e toda uma difusão de conhecimentos, especialmente a partir de produtores e produtos culturais locais. O planejamento adequado destes eventos levou a sua realização a custos mínimos. Em maio de 1999, o evento Quadrinhos em Festa no IBEU comemorou o primeiro aniversário da biblioteca com uma semana ininterrupta de eventos, apresentando sessões de autógrafos em lançamentos, exibição de documentários e animações, performances de artistas, atores, humoristas e músicos, palestras, oficinas, exposições e a distribuição do fanzine bilíngue Yellowzine, editado junto à Tupynanquim Editora, como forma de homenagear os artistas cearenses do traço, do gesto, da palavra, da musicalidade e da imagem — em sua maior parte criadores que se juntaram à iniciativa do projeto para colaborar com o seu bom desempenho.

Após julho de 2000, a biblioteca laboratório deixou o IBEU-CE e passou a atender somente a estudiosos e pesquisadores, limitando seu acesso a especialistas, sem que o acervo tenha deixado de receber acréscimos. Percebeu-se a necessidade de desenvolver o foco potencial planejado para a iniciativa, aperfeiçoando sua estrutura e organização, de modo a permitir que o projeto prime por sua utilidade, interagindo pedagogicamente com os usuários de toda a rede de ensino, pública e privada.

JUSTIFICATIVA

A atualização e conservação do acervo e o incentivo às atividades do HQLab visam, portanto, a disponibilizar conhecimentos em um contexto dirigido, com o apoio de monitores pedagogos, onde o consulente (criança, jovem, adulto, idoso, alfabetizado ou não), ao escolher um título ou material de sua predileção, inclusive sugerido por seu(s) professor(es), seja capaz de optar por:

a) ler o material confortavelmente, cumpridas as exigências de segurança para o acervo;

b) solicitar a um “contador de histórias” (pedagogo voluntário) que o leia junto com ele;

c) solicitar a um “facilitador de leitura” (pedagogo voluntário) que o oriente para reconhecer letras, sílabas, palavras e frases (individualmente ou em pequenos grupos), caso o deseje, utilizando o material previamente selecionado;

d) pesquisar e aprofundar aspectos encontrados no material escolhido em outras obras e materiais associados (filmes, obras de referência, dicionários especializados, outras publicações análogas, outros idiomas etc.);

e) debater conteúdos pontuais com especialistas convidados;

f) participar de dramatizações, mostras e oficinas de desenho, leitura, escrita e roteiro;

g) ampliar conhecimentos sobre os grandes criadores da literatura universal, nacional e regional, que representam a grandeza da Nona Arte;

h) receber apoio e orientação para desenvolver projetos vinculados à arte sequencial, inclusive a publicação de jornais, livros, folhetos, revistas, fanzines, audiovisuais, blogs etc.

Entre suas atribuições, e naturalmente como parte de sua programação, o HQLab promove (desde 2022), no dia 28 de setembro, o evento “Ceará em Quadrinhos” no auditório da biblioteca da Unifor, reunindo palestrantes vinculados ao ensino e produção de HQs, e almeja:

i) promover outros eventos diversos que contribuam para, além de estimular a leitura e a escrita, incentivar e facilitar o acesso, a inclusão e a participação de seu público em diversas formas de produção de arte e de mídia;

ii) apoiar iniciativas de produção cultural e de inclusão social no âmbito das instituições educacionais públicas e privadas, que se mostrem acessíveis a todas as faixas etárias;

iii) difundir a importância da educação intelectual de crianças e jovens e o respeito aos valores e direitos humanos, ao trabalho, à convivência pacífica e à preservação do meio ambiente, visando a formação de cidadãos conscientes, responsáveis, produtivos, participantes criativos e solidários de seus cotidianos. Tudo isto, grosso modo, estruturado a partir, apenas, do incentivo dirigido à… leitura! O HQLab hoje fica no Meireles, e para uma visita dirigida marque horário usando a hashtag max.krichana na web.

*Comics: que diabéisso? é título de palestra enfocando mestres das HQs entre os séculos XVI e XXI

* Max Krichanã é jornalista, psicopedagogo, indigenista, gibitequeiro e organizador do HQLab-Laboratório de Arte Sequencial-Núcleo de Referência em HQ; publicou em Fortaleza na década de 1990 o periódico Jornal da Praia, com mais de 150 páginas de tiras em quadrinhos de autores cearenses; coautor em publicações que receberam o Prêmio HQMix e editor de folhetos de cordel junto à Tupynanquim Editora; foi homenageado em 2000 como “Personalidade do quadrinho cearense 1999” pelo Estúdio Graphlt com o troféu “Carbono 14”; promoveu diversos eventos, como o “Ceará em Quadrinhos” em 2022 e 2023 no auditório da biblioteca central da Unifor (Universidade de Fortaleza), em homenagem ao dia 28 de setembro, dia do Quadrinho Cearense; é ainda editor de diversos projetos de livros, tradutor, professor de idiomas e estudante de música. Paulistano, é radicado em 4townlazy (Fortaleza) desde 1989.